
 O conquistador
  The conqueror
  Shari Anton

























Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!





   CAPTULO 1

   Castelo de Dasset, 1222

   _Bernard Fitzgbbons? Ser mesmo voc? Continua vivo?
   Do alto da montaria, Bernard sorriu para o velho Peter. Compreendia bem a surpresa do encarregado do estbulo. Poucos, inclusive ele mesmo, tinham esperado que
Bernard Fitzgibbons voltasse das Cruzadas.
   _Sim, Peter, eu sobrevivi. Difcil de acreditar, no ? - Bernard perguntou enquanto desmontava.
   _Muito. Cerca de um ano atrs, ouvimos falar que voc tinha morrido na Terra Santa. E, h poucas semanas, chegou um mensageiro, de uma abadia perto de York, trazendo
a notcia que voc estava l com a perna quebrada. No sabamos em que acreditar.
   A falsa notcia de sua morte viera com um comandante ingls que havia voltado da Terra Santa no outono anterior. Ele chegara  concluso errada com alguma razo.
Quando Bernard e outros cinco cavaleiros no apareceram a fim de embarcar no navio para a viagem do outono, o comandante deduzira que os seis tinham perecido ao
lado dos companheiros de armas.
   No haviam morrido, e sim ido libertar um cavaleiro de uma priso sarracena. Tinham obtido xito, mas tambm perdido a viagem do outono, o que os obrigara a esperar
pela da primavera.
   _Obviamente, no morri, mas na verdade, quebrei a perna aps chegar  Inglaterra. Os monges foram muito bondosos ao me acolher e cuidar de mim at que eu pudesse
andar novamente - disse ele, preferindo no contar a Peter tudo sobre o acidente embaraoso.
   Bernard ainda achava inacreditvel ter sobrevivido as Cruzadas com apenas uns arranhes e sofrer um ferimento maior ao voltar delas. Intrigado, Peter observou
a montaria.
   _Este no  o cavalo que voc levou daqui ao partir - comentou.
   Bernard deu uns tapinhas no pescoo do garanho que o tinha servido to bem durante quatro anos.
   _O pangar que lorde Setton me deu agentou s dois dias. Morreu na estrada para Londres. Para sorte minha, o bolso do bispo Thurstan era grande e caritativo.
Que Deus o tenha.
   Peter curvou a cabea e persignou-se ao ouvir a meno ao bispo Thurstan de Durleigh que arregimentava homens de sua diocese inteira para formar "OS Cavaleiros
da Rosa Negra". Da grande e gloriosa companhia, que havia partido de Durleigh a fim de lutar contra os infiis na Terra Santa, apenas seis tinham sobrevivido.
   Simon, paladino mpar cuja liderana os havia salvado vrias vezes; Nicholas, malandro que podia seduzir uma mulher e brandir a espada com a mesma facilidade;
Hugh, guerreiro intrpido que salvara a vida de Bernard vrias vezes; Gervase, baro cuja habilidade de curandeiro lhe dava muito trabalho; Guy, forasteiro, de dupla
descendncia, em busca de uma nica identidade.
   Eram cavaleiros da mais alta fidalguia que tinham tomado Bernard, campons incompetente, sob sua proteo at que ele assimila-se as duras lies da guerra e
se igualasse a eles. Amigos excelentes que socorriam Bernard em ocasies de perigo bem como podiam contar com ele em qualquer momento.
   Nicholas j requisitara a ajuda de Bernard e os dois haviam se divertido muito salvando a adorvel Beatrice Thibault de um indivduo inescrupuloso. A aventura
tinha permitido que Bernard experimentasse bem a recuperao da perna fraturada, mas tambm atrasado seu retorno a Dasset.
   Nesse dia, finalmente, ia cobrar a recompensa prometida.
   Riqueza na forma de terras em seu nome. Casamento com Claire Setton. Quantas vezes apenas a promessa desses prmios o ajudara a suportar o calor do deserto e
a imundcie dos acampamentos.
   Ansioso para cuidar do assunto, perguntou:
   - Voc tem uma baia para meu garanho, Peter?
   - Tenho, sim. Lorde Odo vendeu os piores cavalos e...
   Surpreso, Bernard o interrompeu:
   - Odo?! Ele estava  morte quando parti.
   - Tem razo, mas ficou bom. Odo sempre contrariou as expectativas. E continua fazendo isso.
   Bernard tirou as luvas e as enfiou na sacola grande, acomodada na garupa da montaria. Pensava que o velho lorde tinha morrido anos atrs.
   A morte iminente de lorde Odo Setton tinha trazido o bispo Thurstan a Dasset para ouvir-lhe a ltima confisso. Desesperado para cumprir a penitncia exigida
pelo sacerdote, Setton implorara a Bernard para empunhar a cruz e aderir companhia do bispo, saldando-lhe a dvida religiosa e a contribuio de Dasset s Cruzadas.
Aflito ao ver Bernard hesitar, prometera-lhe uma recompensa: uma propriedade e o casamento com Claire, sua filha caula, quando ele voltasse das Cruzadas.
   S um perfeito idiota recusaria a oferta, mesmo no tendo esperana de voltar vivo para cobr-la.
   Ele havia sobrevivido. E at adquirido tima aparncia. Durante esses anos, tivera certeza de que receberia a recompensa das mos de Julius, o filho mais velho
e, portanto, o herdeiro de Dasset. Sempre fora mais fcil tratar com o filho do que com o pai.
   Bernard entregou as rdeas da montaria a Peter e recomendou:
   _Deixe a sela e a sacola na baa. Cuidarei delas depois de falar com Setton.
   _E essa... coisa? - Peter indagou, apontando para a cintura de Bernard.
   Este desembainhou a cimitarra. A lmina curva no tinha ficado fora do alcance da mo desde que a apanhara durante unia batalha sangrenta. Armas no eram permitidas
no salo do castelo de Dasset, exceto aquelas trazidas por guardas a servio.
   - Esta coisa  uma cimitarra - Bernard explicou em tom respeitoso.
   - Arma de um infiel - Peter comentou com desdm. - Pag, linda e mortal.
   - Uma arma no conhece Deus, nem distingue certo do errado, ou pecador do santo. Apenas obedece a mo de seu senhor, para o bem ou para o mal.
   Peter pegou a cimitarra, mas com expresso desconfiada, como se temesse sofrer a maldio dos infiis.
   - Lorde Setton est no salo? - Bernard indagou.
   - Est, sim. Hoje  dia de receber queixas e punir os culpados.
   Bernard endireitou o manto sobre a cota de malha. Feito de tecido cinzento, debruado em preto e vermelho, com uma rosa preta bordada no alto do peito esquerdo
e uma cruz de feltro vermelho pregada sobre o corao, ele, sem dvida, impressionaria seu senhor feudal e facilitaria as outras pessoas a identific-lo.
   Bernard atravessou o ptio rumo  escadaria do castelo. Sua vontade era correr como teria feito no passado. Mas entre as Lies difceis, tinha aprendido a valorizar
a pacincia e a autodisciplina. Isso no teria acontecido se no houvesse tomado parte nas Cruzadas. Por Deus, tinha apenas vinte anos ao partir, no sabia manejar
armas e no fazia a mnima idia do horror de uma batalha.
   Quantas experincias penosas havia enfrentado: fogo, gua, pestilncia, fome, lutas e tdio. Havia sido sagrado cavaleiro e se tornado um homem confiante, certo
de poder enfrentar e vencer qualquer obstculo.
   Todavia, nunca tinha pedido nada a lorde Odo Setton. Nem mesmo o favor a que tinha direito. Se tudo corresse bem nesse dia, talvez ele requisitasse algo mais
tarde.
   Bernard galgou a escadaria depressa, abriu as pesadas portas de carvalho e entrou no salo. Um ambiente familiar, mas no exatamente como o via antes.
   Lady Leone Setton, baixa, gorda e j com cabelos brancos, sentava-se perto da lareira, rodeada por mulheres que a ajudavam a fiar l.
   Da plataforma, no lado oposto do salo, lorde Odo Setton presidia a audincia. Ainda com os cabelos escuros e aspecto robusto, ele ocupava uma enorme poltrona
com dossel e usava um manto de veludo azul-escuro, enfeitado com arminho. Camponeses e guardas acotovelavam-se diante da plataforma. A voz de Setton ecoou pelo salo,
as palavras um tanto abafadas pela distncia, mas a ira era inequvoca. Bernard Lamentou a sorte de quem a tinha provocado. Tratava-se de um campons, meio afastado
do grupo e com a cabea baixa.
   Bernard achou estranho no ver nenhum dos quatro filhos de Setton. Os rapazes deveriam estar ao Lado do pai na plataforma, especialmente Julius. E as filhas tambm
no faziam companhia  me. Nem mesmo Claire.
   Claire. A caula. A moa coquete que precisava ser vigiada. Ela ainda atormentava os soldados do pai com ordens absurdas? Ainda atravessava o salo com a graa
de um cisne e porte rgio para, ento, arruinar o efeito com um sorriso malicioso?
   Com freqncia durante a ausncia, ele havia pensado em lady Claire Setton. Refletia se seria ajuizado casar-se com a moa irrequieta e frvola. Talvez ela tambm
houvesse mudado nesses quatro anos. A persistncia da me em ensinar os deveres de esposa  criatura linda, mas voluntariosa, podia ter surtido efeito. Bernard esperava
que sim.
   Ele tambm imaginava qual teria sido a reao de Claire ao ser informada que estava prometida a Bernard Fitzgibbons.
   E o que diria ela quando o visse chegar, disposto a reivindicar a recompensa prometida?
   Quatro anos atrs, ele estava longe de merec-la. No passava de um simples campons, sem nenhum atrativo flsico ou mental, alm de no possuir uma nica moeda.
Mas passara a merec-la como um homem devidamente sagrado cavaleiro, embora a situao financeira continuasse a mesma. As relquias, compradas na Terra Santa, valiam
alguma coisa, mas muito menos do que a quantia necessria para manter um solar e a mulher por mais de uma estao, quente, claro.
   Estavam em agosto. Dentro de poucas semanas, as folhas comeariam a cair, com o inverno vindo logo atrs do outono. Como ele e Claire enfrentariam o frio dependeria
da moradia nas terras de que lorde Setton abrisse mo e de como haviam sido cuidadas at ento.
   Bernard esperava que fosse um solar de pedra, abrigo seguro contra as tempestades de inverno. Habitao digna de um cavaleiro fundirio, genro de lorde Setton.
Um lugar onde ele, Claire e os filhos pudessem levar uma vida confortvel.
   Quando comeou a atravessar o salo, um guarda veio-lhe ao encontro. Bernard reconheceu Edgar, antigo encarregado da segurana interna do castelo.
   - Bernard! Como  bom v-lo de novo! Como est a perna? _Edgar cumprimentou, estendendo a mo.
   - Muito bem - Bernard respondeu, aborrecido.
   Pelo jeito, a fratura da perna era de conhecimento geral. Felizmente, apenas uns poucos amigos sabiam como o acidente havia acontecido e manteriam a boca fechada.
   Bernard apontou para o campons cabisbaixo e indagou:
   - Lorde Setton j terminou o caso do pobre coitado?
   - Quase. Vamos l para a frente. Vou informar Miles que voc est aqui - Edgar disse ao ir at o homem que estava  direita de Setton, o administrador de Dasset.
   Ao se aproximar da plataforma, Bernard compreendeu a raiva de Setton com o campons. O boi deste tinha pisoteado as hortas de vrios aldees, ameaando-lhes a
alimentao para o inverno.
   - Voc tem a lista dos prejudicados? - Setton perguntou a Miles.
   - Sim, meu senhor.
   - Todos esto aqui?
   A um sinal afirmativo do administrador, Setton olhou para o campons.
   - Voc vai corrigir a situao. A cada um de seus vizinhos lesados, voc dar repolho por repolho esmagado, ou prestar um servio no valor equivalente.
   - Meu senhor - o campons comeou numa voz trmula -, minha horta tambm foi destruida e no h horas suficientes num dia...
   - Se voc no pode compensar os prejuzos, terei de pegar seu boi em pagamento pelos alimentos tirados de minhas despensas. - Setton abanou a mo para o grupo
diante da plataforma. - Miles vai providenciar o pagamento a todos os reclamantes.
   O campons empalideceu com a ameaa de perder o boi, mas concordou, sacudindo a cabea. Na verdade, no havia nada que pudesse fazer. Onde ele encontraria hortalias
para substituir as estragadas, ou tempo para cuidar das prprias plantaes, alm das de lorde Setton, Bernard no fazia idia.
   Setton j ia se levantar, mas o administrador, inclinado para ele, murmurou-lhe algo ao ouvido.
   Com o corao disparado, Bernard aproximou-se. Chegava o momento de reivindicar a recompensa. Esperara por ela durante quatro anos longos e difceis.
   Lorde Odo Setton ergueu a cabea e encarou-o.
   Bernard curvou-se enquanto dizia em voz firme:
   _Meu senhor.
   Como Setton permanecesse em silncio, endireitou-se e viu que estava sendo observado com olhar perscrutador. Bernard enfrentou o exame minucioso sem pestanejar.
J no era mais o campons que podia se acovardar. Alis, j havia um bom tempo que homem algum o intimidava.
   _Fitzgibbons, eu j comeava a achar que voc tinha se perdido no caminho entre a abadia e Dasset.
   Bernard ignorou o murmrio das pessoas em volta e o tom zombeteiro de Setton.
   _Perdido no, meu senhor, apenas impedido de viajar.
   _Quebrou outra parte do corpo?
   O        murmrio transformou-se em riso.
   _Logo aps minha perna ficar boa, recebi o chamado de um cavaleiro, amigo meu, pedindo minha presena em seu salo. Eu o atendi e ajudei-o a resolver seu problema.
   Setton inclinou-se para frente.
   _Voc considerou a questo do tal cavaleiro mais importante do que a obrigao de se apresentar a seu senhor feudal?
   O        riso esmoreceu e os cabelos na nuca de Bernard eriaram-se num aviso.
   - Vidas corriam perigo, meu senhor, de uma mulher e de uma criana. Como cavaleiro, jurei proteger ambos caso surgisse a necessidade.
   Setton semicerrou os olhos e fungou.
   - Que idiota o sagrou cavaleiro?
   Um ingls nobre e de alta posio que devia a vida  habilidade de Bernard com a cimitarra, um homem a quem Setton conhecia e podia pedir a confirmao do fato.
   - Fui sagrado cavaleiro por Ranulf, conde de Chester, depois de uma longa e difcil batalha contra os sarracenos, pela posse do Nilo.
   - Por acaso ele o confundiu com outra pessoa?
   Bernard abafou a raiva crescente. De nada adiantaria deix-la explodir. Diabos! Preferia que Julius ocupasse a cadeira imponente, e no Odo.
   - No, lorde Setton. No houve engano algum. Naquele dia, conquistei plenamente o direito de ser sagrado cavaleiro.
   Setton abanou a mo como se a informao no valesse nada.
   - Voce jurou fidelidade ao conde?
   - Nem a ele ou a homem algum. O conde compreendeu que minha lealdade pertencia ao senhor de Dasset.
   Setton levantou-se com as mos estendidas.
   - Ento, aceitarei seu juramento agora.
   Durante o tempo todo, Bernard tinha se visto ajoelhado diante de Julius Setton a fim de homenage-lo. Porm, Odo continuava vivo e senhor de Dasset e, para
receber a recompensa prometida, era preciso prestar o juramento. Subiu na plataforma, ajoelhou-se e ergueu as mos cruzadas que Setton
segurou entre as dele.
   _Voc trouxe de volta meu cavalo?
   Tomado de surpresa, Bernard murmurou:
   _Seu cavalo?!
   _Exato. O bispo Thurstan exigiu o pagamento pelo garanho que foi forado a comprar porque voc perdeu o que eu lhe dei.
   Ora, ele no tinha perdido o pangar. O velho animal morrera de exausto. Mas Setton tinha o direito de querer o cavalo, pois havia pago por ele. Bernard sentiu
uma grande tristeza com a perspectiva de perder o animal e companheiro de lutas. Porem, nao tinha escolha.
   - Cabal est em seu estbulo, meu senhor.
   - Imagino que deva d-lo a voc que, afinal, agora  cavaleiro.
   Mais para esconder a irritao do que por reverncia, Bernard curvou a cabea.
   _Se essa for sua vontade, meu senhor.
   _No momento, ela se resume a ouvir seu juramento.
   A tentao de levantar-se e ir embora era grande demais. Mas por causa da recompensa, Bernard permaneceu ajoelhado.
   _A lorde Odo Setton, eu homenageio. Juro ser-lhe fiel e leal contra todos e proteger seus direitos, bem como os de seus herdeiros, com toda minha fora.
   _De Bernard Fitzgibbons, aceito a homenagem. Em retribuio, prometo-lhe proteo e sustento como merece um cavaleiro a meu servio. Levante-se, sir Bernard,
e tome seu lugar em meu lar.
   Livre das mos de Setton, Bernard ergueu-se.
   Setton tocou o broche que lhe prendia o manto, sinal de que a audincia terminava. Bernard percebeu que estava sendo dispensado, mas tinha vindo de muito longe
e sofrido demais para ser posto de lado to depressa.
   _Posso lhe pedir mais um momento, meu senhor, a fim de acertar os detalhes de meu sustento?
   _Uma enxerga em meu salo e um lugar a minha mesa na plataforma. E, caso prefira, tem permisso para tomar vinho em vez de cerveja.
   Ele havia conquistado muito mais do que um lugar proeminente  mesa e um copo de vinho.
   _Eu esperava tomar posse imediatamente de minhas terras, meu senhor.
   _Suas o qu?
   Um arrepio gelado percorreu a espinha de Bernard.
   - Reivindico a recompensa que o senhor me prometeu para quando eu voltasse das Cruzadas. Uma propriedade e casamento com lady Claire.
   Setton teve um acesso de riso to forte que voltou a se sentar. Foi acompanhado por vrias pessoas, mas Bernard manteve-se srio. O estmago contraiu-se e ele
teve certeza de que Setton ia faltar com a palavra.
   _Terras e Claire? Ah, Bernard! Voc sofreu uma pancada na cabea l na Terra Santa? Doente e febril, teve um sonho lindo e o confundiu com a realidade? Olhe aqui,
rapaz, eu nao lhe prometi tal recompensa. Sinto muito, mas voc vai ter de se contentar com o mesmo conforto dispensado aos outros cavaleiros a meu servio.
   Bernard lembrava-se da promessa to claramente como se ela tivesse sido feita um momento atrs. Setton fraco e plido na cama, o bispo Thurstan postado ao lado.
Um juramento feito, uma recompensa prometida.
   _O senhor fez a promessa no dia em que me mandou embora com o bispo Thurstan a fim me juntar aos Cavaleiros da Rosa Preta.
   Setton sacudiu a cabea.
   - Impossvel! Mesmo delirando de febre, eu no prometeria a mo de minha filha a um campons que nem conseguia empunhar uma espada corretamente. Voc s pode
ter ouvido mal, Bernard.
   - Ouvi muito bem.
   A expresso divertida de Setton sumiu enquanto ele apertava os lbios.
   _Est insinuando que eu minto?
   Bernard respirou fundo. De maneira calma e firme, disse:
   - O senhor encontrava-se muitssimo doente e talvez, por isso, sua memria no esteja to clara quanto a minha.
   Setton levantou-se e declarou com a mesma firmeza:
   _Bernard, eu no fiz tal barganha.
   Incrvel essa discusso grotesca, mas tudo que ele podia fazer era persistir.
   _A barganha, meu senhor, foi testemunhada pelo bispo Thurstan.
   - Ele morreu e se estivesse aqui, sem dvida lembraria os fatos como eu. E na verdade, Bernard, caso eu tivesse feito essa barganha ridcula, j no estaria mais
em minhas mos lhe dar a recompensa. Alguns meses atrs, lorde Eustace Marshall e eu concordamos com a troca de Claire e seu dote.
   O desgraado tinha dado a filha em casamento a outro! Bernard sentiu uma tristeza to grande como se tivesse recebido a notcia da morte de Claire. No conseguiu
mais se controlar.
   _O senhor no tinha o direito de barganhar o que era meu!
   - E voc no tem mais direitos alm dos que eu lhe garanto. Ou aceita minha deciso ou suma daqui!
   Com um grande esforo, Bernard controlou a raiva. A discusso com Setton no estava resolvendo nada. Claire
perdera-se para ele. No podia exigir que o marido
a devolvesse, pois ele se casara de boa f. A igreja tambm no anularia o casamento a pedido seu. Por mais que lhe doesse, admitia a perda de uma parte do sonho.
Teria de se conformar. Mas precisava das terras. Sem elas, alm de haver desperdiado quatro anos da vida, no teria rendimento algum e seria obrigado a se alistar
como mercenrio, pois no sabia fazer nada alm de lutar. Sem uma propriedade, ele no teria paz, orgulho ou uma vida decente.
   Disposto a chegar a um entendimento com Setton, Bernard limpou a garganta.
   _Renuncio a reivindicao da mo de Claire... - Calou-se ao ouvir uma exclamao abafada e virou-se. Claire.
   Uma viso em verde esmeralda, os olhos cor de mbar aeregalados de surpresa, os lbios rosados entreabertos. Mais velha. Curvas mais exuberantes. A mulher em
cujo corpo ele sonhava afundar desde o dia em que seu pai prometera...
   Minha!
   No mais. Claire pertencia a outro homem. Casada com lorde Eustace Marshall, membro de uma das famlias mais poderosas da Inglaterra.
   Virou-se.
   - Lorde Setton, mereo uma propriedade digna de um cavaleiro fundirio. Nisso, eu insisto.
   Setton ficou rubro.
   - Guardas! Peguem o atrevido e o joguem na masmorra, onde ficar at recobrar o bom senso.
   Dois guardas seguraram os braos de Bernard. Com um impulso poderoso para cima, ele atirou os dois longe para, em seguida, dar um passo em direo a Setton, a
mo procurando automaticamente o cabo da cimitarra. No estava l. Maldio! Bernard viu o pnico nos olhos de Setton, mas que foi logo substitudo pela raiva.
   Ento, sentiu uma dor lancinante na cabea. Um instante antes de o mundo escurecer, ouviu seu nome pronunciado num grito estridente.

   CAPTULO 2

   _Henry! Espere! - Claire gritou  ao ver o guarda levantar a lana a fim de golpear Bernard outra vez.
   Em seguida, correu para o corpo imvel, cado com o rosto para baixo na plataforma. Apreensiva, ajoelhou-se e passou os dedos no sangue que surgia entre os cabelos
negros de Bernard Fitzgibbons.
   - Claire! Levante-se e saia do lado desse vilo - o pai gritou.
   Ela ignorou a ordem o tempo suficiente para sentir a pulsao de uma veia na tmpora de Bernard. Aliviada, levantou-se para enfrentar o pai furioso. Seria repreendida
duramente. Talvez, no. Desde seu noivado com Eustace Marshall, o pai a tratava com menos severidade. Para ele, seu valor tinha subido.
   Mas no deveria se imiscuir nos assuntos dele, O que a tinha levado a gritar o nome de Bernard e correr para socorr-lo? Sabia, claro. Ningum mais se atreveria
a faz-lo e se ele viesse a sofrer muito nas mos do pai, seus planos para escapar de Dasset poderiam ruir.
   Por mais trs semanas, at aps seu casamento, ela precisaria se esforar para manter a paz no castelo.
   - Bernard precisa de cuidados, papai.
   Setton cerrou os punhos.
   - Ele precisa ser posto a ferros! Voc ouviu o que ele exigia de mim?
   Claire no tinha ouvido quase nada. Estava no quarto e fora atrada pelos gritos do pai no salo. Ao descer a escada, estremeceu ao notar o tom colrico dele.
S quando chegou perto da plataforma, reconheceu quem trocava farpas com o pai: Bernard Fitzgibbons.
   O pouco que ouvira das exigncias a tinha chocado e a levado a pensar se ele havia perdido o juzo.
   Ah, mas Bernard estava magnfico com o manto cinzento de Cruzado e na defesa das idias mal orientadas. Ela mal o reconhecia. Tanto fsica como mentalmente, ele
se mostrava muito mudado. Estava mais alto e corpulento. E, quatro anos atrs, ele jamais se atreveria a provocar a ira de seu senhor.
   - Ouvi, sim. As exigncias dele no fazem sentido algum. Mas apesar de tal tolice, ele precisa receber cuidados. Bernard usa a cruz vermelha de Cruzado sobre
o corao e, por isso,  considerado um heri da f pela igreja. Tomo tal, os direitos dele precisam ser respeitados.
   Setton apontou para Bernard.
   - Esse palerma no tem direitos. No possui terras, riquezas ou famlia. Foi embora daqui de mos vazias e volta sem nada, exceto a alegao de ter sido sagrado
cavaleiro e a audcia de reivindicar uma recompensa de mim. Por que razo devo permitir que o homem viva?
   Claire foi dominada pelo medo, mas conseguiu manter a calma aparente. Bernard havia cometido o erro de fazer uma exigncia absurda, mas isso no era um crime
hediondo para ser punido com a vida!
   Em outras circunstncias, Claire teria se afastado, mas por motivos prprios, insistiu:
   - Como Cavaleiro da Rosa Preta, o bem-estar de Bernard no ser do interesse particular do bispo Walter de Durleigh? Para ns, no seria arriscado incorrer na
raiva do bispo e numa possvel interdio to s vsperas de meu casamento?
   Setton estremeceu com a perspectiva de tal ameaa. Se sofressem interdio, missas no poderiam ser rezadas em Dasset e, portanto, no haveria casamento. Para
Claire, isso significava a impossibilidade de escapar dali, algo a que o pai no dava importncia. Mas para ele queria dizer que no haveria uma aliana com lorde
Eustace Marshall, o que ele almejava acima de qualquer coisa. Resolveu pression-lo mais.
   - Se bem me lembro, a nova autoridade em questes judiciais de Durleigh tambm  Cavaleiro da Rosa Preta, um dos companheiros de Bernard. Simon Blackstone no
se preocuparia com o destino dele?
   O pai no respondeu. Olhou para Fitzgibbons e gritou:
   - Tirem o desgraado da minha frente! Edgar, leve-o para a masmorra. Mais tarde, decido o que fazer com ele.
   Enquanto quatro guardas rodavam Fitzgibbons, ele comeou a se mexer. Edgar curvou-se e cochichou algo ao ouvido dele. As palavras tiveram o efeito desejado.
   Com a ajuda dos guardas, Bernard ficou em p. Meio atordoado, olhou em volta e permitiu que Edgar o levasse embora.
   Claire observou-lhe o andar incerto pelo salo e para longe do alcance do pai. Assustou-se ao sentir um toque no ombro. Virou-se e viu a me.
   - Mandei esquentar seu ch - Leone Setton, como sempre, falou em voz suave.
   Ao mesmo tempo o pai gritava ordens para que providenciassem os ces de caa. Ia atrs de um javali, visto nas imediaes do velho moinho. Embora j fosse um
tanto tarde para se iniciar uma caada, Claire sentiu-se grata com a perspectiva da ausncia dele.
   Insistente, a me a forou a se aproximar da lareira.
   - Voc no devia ter se levantado e descido ao salo - repreendeu-a ao lhe entregar uma caneca com o ch amargo.
   Claire ingeriu-o na esperana de aliviar o desconforto do resfriado. Ele j havia melhorado, embora ainda provocasse a tosse de vez em quando.
   - No consegui repousar com toda a gritaria aqui - queixou-se.
   Tambm no podia passar muito tempo deitada. A maioria dos preparativos para o casamento tinha sido feita, mas nem todos. Se desejava perfeio na cerimnia,
fartura no banquete e alegria no torneio, ela precisava usar bem os dias que lhe restavam at l.
   E, agora, havia a questo de Bernard. Sabia que ele estava voltando para Dasset, mas no esperava que provocasse problemas.
   Durante vrios meses, todos acreditavam que ele estivesse morto. No outono, Claire havia assistido  missa rezada pelas almas dos cruzados. Havia at derramado
umas lgrimas ao ouvir as palavras veementes do bispo Thurstan.
   - Heris das Cruzadas! Estes homens deram a vida pelo servio de Jesus Cristo. Devemos honrar-lhes a memria.
   Ela havia includo Fitzgibbons em suas preces at pouco mais de dois meses atrs. Mas ento, tinham recebido a mensagem, vinda de uma abadia perto de York, avisando-os
que ele quebrara um perna, porm, estava bem vivo.
   E, no momento, encontrava-se na masmorra do castelo.
   - O que a senhora acha que papai vai fazer com Bernard? _Claire indagou. Leone deu de ombros.
   - O que bem entender. Voc no deve interferir outra vez.
   No, claro. De forma alguma se colocaria novamente entre os dois homens. Perigoso demais. Mas talvez pudesse convencer Bernard a renunciar s exigncias. J tinha
desistido de uma parte: casar-se com ela.
   Claire abafou o desapontamento pelo fato de Bernard resignar-se to facilmente a perd-la. No importava.
   Dentro de trs semanas, ela se tornaria a esposa de lorde Eustace Marshall que mantinha uma corte refinada em seu castelo. No lhe faltaria nada. Passaria os
dias desempenhando o papel de castel de Marshall e as noites entretida com poetas e trovadores.
   Marshall era um grande fidalgo, homem atraente e respeitador das regras da cavalaria. Tudo que uma mulher poderia desejar.
   S lhe restava convencer Bernard Fitzgibbons a cooperar e, depois, aplacar a vontade do pai de retribuir a ofensa. A atitude dele talvez provocasse a censura
tanto da igreja quanto da lei sobre Dasset. Tarefa intimidadora a sua.
   Entregou a caneca vazia  me e a avisou:
   - Vou levar alimentos para Fitzgibbons na masmorra. Talvez eu possa ajud-lo a recuperar o bom senso.
   Leone no disfarou a preocupaao.
   - Ai, Claire, eu preferia que voc no fosse.
   - Papai no volta to cedo e eu prometo no me demorar l embaixo. - Beijou a me no rosto. - No se aflija. Tudo vai dar certo, a senhora ver.

   - Voc meteu os ps pelas mos - Edgar criticou Bernard ao fechar com chave a algema de ferro no pulso dele. - Setton vai ficar de mau humor por vrios dias.
Nenhum de ns ter um momento de sossego. Como est sua cabea?
   - Doendo - Bernard disse enquanto apalpava o calombo enorme, mas o sangue j coagulara. - Henry precisava ter batido com tanta fora?
   - Ele salvou sua vida. Se voc tivesse conseguido pr as mos no pescoo de Setton...
   - Eu no ia lhe fazer mal algum.
   - Ns achamos que voc pretendia estrangul-lo. Na verdade, voc teve sorte. Se no fosse lady Claire impedi-lo, Henry teria dado um segundo golpe. Entenda, ningum
ia sentir falta do velho abutre, mas  nossa obrigao proteg-lo.
   Claire. Ele pensava ter ouvido algum gritar-lhe o nome. Teria sido ela?
   Ficara surpreso ao v-la depois de ser informado sobre seu casamento. Por que estava em Dasset e no em Huntingdon com Eustace Marshall?
   Cada um dos guardas tinha feito a Setton um juramento igual ao seu de momentos atrs. Portanto, no culpava Henry por golpe-lo na cabea, nem a Edgar por causa
da algema.
   No ficaria com ela por muito tempo caso conseguisse o que desejava.
   - Onde est Julius? - indagou.
   - Na Itlia. J h alguns meses - Edgar respondeu.
   Itlia? Bernard achava que no poderia ficar mais deprimido, nem que a cabea latejasse mais. Porm, ambas as coisas aconteciam.
   - Quando ele vai voltar?
   - Sei l. No fao idia. Por qu?
   - Julius pode ser razovel.
   - Ah, isso  verdade. Mas ele no est aqui.
   Suspirando, Bernard sentou-se no cho sujo e encostou a cabea na parede de pedra.
   - O velho est pior, mais temperamental do que quando fui embora.
   - Tem razo. Nos ltimos dois anos... Olhe, preciso voltar l para cima. Depois que o portal fechar, virei trazer alguma coisa para voc comer. Ento, poderemos
conversar. Tente no cometer outra tolice, est bem?
   Bernard quase riu. Simon Blackstone, seu amigo e autoridade judicial de Durleigh, tinha lhe recomendado a mesma coisa, menos de duas semanas atrs, mas por razes
diferentes. Ao se despedir de Simon e Nicholas no Hendry Hall, estava absolutamente seguro de que, chegando a Dasset, receberia a recompensa com a maior facilidade.
   Os dois amigos no ficariam surpresos se soubessem que, em vez de ser o alvo da gratido de seu senhor, ele passaria a primeira noite em Dasset a ferros.

   Depois de pegar um bom pedao de queijo amarelo, fatias de carne de porco assada e com molho apimentado, um filo de po branco e um copo de vinho, na cozinha,
Claire rumou para as entranhas do castelo.
   Muitas vezes tinha descido  masmorra, mas na infncia, com os irmos e os primos para brincar de esconde-esconde. Sempre, um dos meninos se escondia atrs do
ecleo, o instrumento de tortura, para pular sobre as meninas, assustando-as.
   Claire gostaria que Julius estivesse ali. O irmo mais velho sempre conseguia contemporizar as atitudes do pai. Mas encontrava-se longe, portanto, cabia a ela
tentar.
   Desceu o ltimo lance da escada curva e sombria, tomando cuidado para no esbarrar nas tochas que iluminavam parcamente o caminho. Esforou-se para ignorar o
mau cheiro, cada vez mais forte, que vinha da cmara onde o pai mantinha presos acusados dos mais variados crimes. At onde sabia, Bernard era o nico encarcerado
no momento.
   Na verdade, ele no cometera crime algum. Apenas tinha discutido com seu pai. To logo pedisse perdo e desistisse das exigncias, seria solto. Desejava que
o pai tivesse matado o javali. O sucesso numa caada sempre melhorava o humor dele.
   A poucos passos da escada, ela abriu a grossa porta de carvalho. Como esperava, no estava trancada. Tal precauo no era necessria, pois qualquer prisioneiro
ficava algemado a uma corrente presa  parede.
   Ela ficou parada  porta aberta enquanto ajustava a viso  penumbra. A Luz das tochas, do lado de fora, provocava a sombra do ecleo no cho. Correntes, chicotes,
facas e tenazes, pendurados atrs dele, estavam prontos para torturar alguma pobre alma.
   Claire sentiu um arrepio e desviou o olhar. O estmago revoltava-se com o mau cheiro da cmara que no tinha a mnima ventilao.
   Junto  parede dos fundos, alm da sombra do ecleo, um homem sentava-se no cho, com as pernas estendidas para a frente e cruzadas nos tornozelos. Um dos braos,
erguido acima da cabea, prendia-se a uma corrente que ia da algema no pulso  parede. Apenas atravs do brilho do manto de seda, Claire o identificou.
   Bernard Fitzgibbons. Heri das Cruzadas. Antigo campons a trabalho do pai, agora cavaleiro, caso Bernard merecesse crdito. O homem que tinha exigido uma recompensa
na forma de terras e de casamento com ela.
   At certo ponto, ela entendia a questo da propriedade. Terras significavam riqueza e poder e todo homem ambicionava possuir um tanto delas. Mas o casamento?
Claire considerava essa parte desconcertante e admitia estar bem intrigada.
   Bernard ergueu a cabea num gesto interrogativo.
   - Eu lhe trouxe algo para comer.
   - Alimento para o condenado?
   A voz dele tinha se tornado profunda e sonora. Um tanto ertica. Um pouco perigosa.
   - Voc no foi condenado. Encontra-se aqui at papai decidir o que fazer com voc.
   Ele ergueu mais a cabea.
   - Claire?
   Um arrepio estranho percorreu-lhe a espinha ao ouvir seu nome pronunciado com suavidade. Tolice deixar-se afetar pelo fato de ouvir o prprio nome, pensou enquanto
atravessava a cmara.
   Este era Bernard, a quem conhecia quase a vida inteira. Sempre gostara do menino a quem dava ordens e do rapaz a quem provocava.
   Ento, Bernard levantou-se com uma agilidade felina de que Claire no o imaginava capaz. Quando ele deu um passo para o crculo de luz das tochas, ela vacilou.
   Ele estava mais alto do que a maioria dos homens e tinha desenvolvido ombros e peito largos. Mantinha o corpo ereto, abria e fechava a mo algemada, traindo a
tenso contida. Diante dela, encontrava-se um guerreiro, possuidor de um rosto que, certamente, dispararia o corao de qualquer jovenzinha.
   Claire sempre apreciara as feies de Bernard. Achava-as agradveis, mas no bonitas. Muito menos, atraentes.
   Todo e qualquer trao de juventude tinha desaparecido delas. Os cabelos negros e fartos tocavam-lhe os ombros e emolduravam a testa larga e ossos malares salientes.
A antiga timidez no suavizava mais as linhas firmes do queixo bem barbeado. Incerteza alguma flutuava nos olhos castanho-claros.
   Ele a observou numa apreciao igual  sua. Certamente, ela saa perdendo, Claire refletiu. A passagem dos anos fora mais generosa com Bernard do que com ela.
   Censurou-se. No era mais uma jovem ingnua e no devia ficar admirando os atributos fsicos de Bernard. Estava prestes a se casar com Marshall, homem atraente
e poderoso. Graas a seu dote generoso, ele no se importava com suas feies comuns e com o fato de j haver passado da idade de se casar.
   - Voc devia ter mandado uma criada ou um guarda trazer a comida. A masmorra no  lugar para uma dama - Bernard declarou.
   - Tambm no  para um heri das Cruzadas. Alm do mais, quero conversar com voc. Por favor, segure o copo enquanto procuro algo para servir de mesa.
   Bernard tomou um gole do vinho e observou Claire se afastar. Com os ombros e a cabea erguidos, ela continuava com um porte rgio, mas no sorria. Uma pena.
   Claire no havia se tornado a mulher dos sonhos dele, de beleza rara que lhe atribua durante as noites solitrias no deserto.
   Embora seus cabelos estivessem presos sob uma touca de seda verde, como a do vestido, Bernard
pode notar que o castanho-avermelhado no havia esmaecido. Nem
o brilho dos olhos cor de mbar, assentados longe do nariz petulante. A pele no tinha adquirido a alvura da porcelana, mas lembrava esculturas delicadas de marfim.
   No uma beleza rara, mas adorvel e muito mais adequada a Claire.
   Ela tambm no tinha aspecto frgil. A silhueta firme, com curvas proporcionais e bem femininas, tentava um homem a abra-la sem ter medo de a machucar.
   Claire deveria ser dele, mas j tinha admitido a futilidade de desejar uma mulher casada.
   Mesmo assim, a reao do corpo lhe dizia como seria bom deitar-se a seu lado, sentir aquelas curvas, ver o contraste de sua pele alva com a bronzeada dele, ouvir
seus lbios pronunciar-lhe o nome no auge da paixo.
   Irritado com os pensamentos inteis, sacudiu a cabea. O casamento com Claire era impossvel e ele tinha de aceitar o fato. Imaginar o que poderia ter sido s
servia para impedi-lo de se concentrar em como conseguir as terras prometidas.
   Sem saber por que, lembrou-se de como, no passado, as maneiras rgias de Claire lhe estimulavam o bom humor. Ela sempre se comportava como se estivesse na corte
e no no salo de Dasset. Durante um perodo, queria ser chamada de Eleanor, em honra a seu dolo, Eleanor de Aquitaine.
   Bernard duvidava que a duquesa de Aquitaine, falecida h tanto tempo, tivesse levado comida a um prisioneiro na masmorra, mesmo se o considerasse um heri.
   - Heri das Cruzadas, ? - perguntou, rindo.
   Afinal, no tinha feito mais do que o necessrio para se manter vivo e proteger os companheiros.
   _ o que a igreja afirma sobre qualquer homem que tenha lutado contra os infiis. E eu concordo - Claire disse enquanto trazia um banquinho para perto dele. -
Mas preferia que voc tivesse usado mais tato ao falar com meu pai. Assim, no estaramos neste lugar horroroso.
   Bernard lembrou-se da fortaleza de onde ele e os companheiros tinham tirado Hugh de Halwell. A masmorra de Setton era um paraso em comparao a uma priso sarracena.
   - J vi piores. Quanto a seu pai, tentei ser franco sem ofend-lo. Obviamente, no consegui.
   Claire ps os alimentos no banquinho e ele provou uma fatia da carne de porco.
   - Ah, molho apimentado. O meu preferido. Voc se lembrou disso?
   No, ela no se lembrara. Mas ficou satisfeita por ter acertado. Talvez isso. o deixasse mais malevel.
   - A maioria dos homens aprecia molho apimentado - comentou ao v-lo devorar outra fatia.
   Com medo de limpar uma gota de molho no canto dos lbios dele, recuou um passo. Pensou em virar-se de costas quando ele lambeu o molho com a ponta da lingua.
   Deus do cu, estava prestando ateno demais em Bernard. Seria melhor falar logo o que precisava e ir embora.
   - Sabe, a nica maneira de voc sair daqui  se retratar com meu pai.
   As sobrancelhas negras arquearam-se.
   - Se est sugerindo que eu me prostre diante dele e, humildemente, retire o pedido da recompensa justa, desista, Claire. Lutei muito e bem para merecer o prmio.
Edgar me disse que Julius est na Itlia. Quando ele volta?
   Ela havia lhe escrito, bem como a Geoffrey e a Jeanne, o outro irmo e irm, mas ainda no recebera respostas.
   - Dentro de quinze dias, espero.
   Bernard olhou em volta e suspirou.
   - Duas semanas.
   Estaria ele pensando em ficar ali na esperana de que Julius o ajudasse? O pai no permitiria que ele apodrecesse na masmorra. Ou seria capaz disso?
   - Bernard, se papai lhe prometeu uma recompensa, por que ele e o bispo Thurstan nunca contaram a ningum?
   - No fao idia. S sei que seu pai me prometeu uma recompensa e eu tenho a inteno de faz-lo cumprir a palavra. No que se refere s terras, claro. Sem elas,
no serei ningum.
   Claire percebeu-lhe a tristeza e a determinao.
   - Duvido muito que papai o atenda. Ele declarou diante de muitas pessoas que no lhe deve nada.
   - Julius me ajudar. Posso esperar.
   - E se ele levar um ms ou mais para chegar?
   Bernard correu o olhar em volta, observando os instrumentos de tortura. Claire percebeu e tentou pression-lo mais.
   - Bernard, voc acredita que meu pai vai deix-lo esperar sem molest-lo? Voc o conhece bem. Ele sempre faz o que quer sem se importar como ou com as conseqncias.
   Bernard tomou um longo gole de vinho.
   - Foi por isso que voc desceu aqui? Para ajud-lo a fazer o que quer? Ele a mandou me ameaar? Ver se detecta algum sinal de fraqueza minha?
   O pai teria um acesso de fria se soubesse de sua vinda  masmorra.
   - Papai no faz idia de que eu esteja aqui. Vim por vontade prpria.
   - Com que inteno? Obviamente, voc acha que no tenho o direito de insistir no cumprimento da palavra dele. Alis, voc no acredita que ele tenha feito a promessa,
no ?
   Nem ela ou ningum mais. Os criados j comentavam que Bernard tinha enlouquecido na Terra Santa, resultado de experincias horrveis com os sarracenos ou por
causa do maldito sol do deserto.
   - Talvez papai tenha lhe prometido algo, eu acho, mas voc o entendeu mal.
   - Foi o que Setton disse. Com toda a honestidade, Claire, eu ouvi e entendi bem.
   Restava apenas uma explicao plausvel.
   - Bernard, no ser possvel que voc tenha sonhado, de maneira vivida, sobre a tal recompensa e concludo tratar-se da realidade? Todos ns temos esse tipo de
sonhos.
   Ele fechou os olhos e ergueu bem a cabea.
   - Sonhei, sim, com braas e braas de terra a perder de vista. Com plantaes de trigo ondulando ao vento. Com a mata cheia de caa para meus ces, pssaros para
meus falces apanhar em pleno vo. Com um solar de pedra em cujo salo o fogo crepitava na lareira.
   Suspirou, abriu os olhos e a fitou.
   - Voc tambm estava l, Claire. As vezes, fiando com um ou dois filhos a seus ps. Ou tangendo a harpa e cantando uma das baladas aprendidas com os trovadors
que nos visitavam. - O olhar tornou-se firme. - Esses sonhos no foram instigados pelo anseio de felicidade, mas pela promessa que me foi feita. Se a memria de
algum falhou, foi a de seu pai, no a minha.
   Os sonhos de Bernard eram lindos e to mais modestos do que os seus. To logo se casasse com Eustace Marshall, passaria a levar uma vida de rainha, servida por
um batalho de criados e rodeada por corteses.
   Como poderia pedir a Bernard para desistir do sonho de levar uma vida melhor? Sabia qual seria a resposta dele, mesmo assim, perguntou:
   - No existe uma outra recompensa que voc possa aceitar? Eu poderia convencer meu pai...
   - No h necessidade de descer aqui outra vez, lady Claire. Edgar no me deixar morrer de fome. Fique fora desta questo. Tratarei dela diretamente com lorde
Setton.
   Tratar com o pai j tinha lhe garantido uma pancada na cabea e um lugar na masmorra.
   - Como est sua cabea?
   - Doendo.
   - timo. Lembre-se da dor quando falar novamente com meu pai.

   CAPITULO 3

   Claire no conseguia esquecer o sonho de Bernard. Pelo resto do dia, enquanto ajudava a me a preparar o salo para o jantar, ela o ouvia descrevendo o solar
e as terras. Deus do cu, chegava quase a visualiz-lo soltando um falco para apanhar uma rola.
   O guerreiro na masmorra sonhava com o lar aconchegante que no tinha desde a juventude.
   Claire lembrava-se da chegada de Bernard a Dasset, um menino tristonho, sentado no fundo de uma carroa. Ela contava sete anos e ficara sabendo que os pais dele
tinham sido mortos num ataque. Por isso, o rfo passaria a morar ali. Sabia pouco a respeito da famlia de Bernard. O pai trabalhava para o seu, mas em qu, ela
ignorava e nunca tivera a curiosidade de perguntar.
   Mas agora, estava intrigada.
   Tambm comeava a imaginar se Bernard no tinha uma ponta de razo na questo da promessa. Teria o pai feito uma e, depois, se esquecido? Ele se encontrava muito
doente na ocasio da partida de Bernard. Ainda duvidava um tanto da histria, mas que razo teria ele para exigir uma recompensa se algo a respeito no tivesse sido
mencionado?
   Durante o jantar inteiro, o pai comemorou o sucesso da caada. Os companheiros o acompanhavam nos copos de vinho. Muitos no conseguiriam chegar at suas enxergas
e dormiriam onde cassem.
   Claire mal tocava na comida, esperando pelo momento em que o pai se mostrasse mais acessvel, quando ele j houvesse ingerido vinho suficiente para no pensar
com clareza, mas antes de se tornar intratvel.
   Bernard tinha lhe dito para no interferir, mas ningum parecia disposto a mediar a questo. Certamente no a me que cuidava de seus afazeres como se o marido
no existisse.
   Quando o pai se reclinou na cadeira com ar satisfeito, Claire resolveu se aproximar. Chamou-lhe a ateno, tocando-o no ombro.
   _Papai, podemos conversar um instante?
   _Sobre o qu?
   Sabendo como ele detestava levantar a cabea para algum, Claire ajoelhou-se ao lado da cadeira.
   _Bernard Fitzgibbons.
   _Sir Bernard - Setton caoou. - Imagine s! Ingrato desgraado. Mas o que tem ele?
   Por que o pai esperava a gratido de Bernard? Por acolh-lo quando ficara rfo ou por mand-lo para as Cruzadas?
   Com uma ponta de simpatia, lembrou-se da partida dele. Montado num pangar usado para arar a terra, Bernard usava uma cota de malha e um elmo grandes demais para
ele, levava uma espada enferrujada e um escudo velho.
   _Sem dvida, ele merece uma reprimenda, mas imagino se  aconselhvel mant-lo na masmorra. - Ao ver o olhar furioso do pai, acrescentou depressa: - Para seu
prprio bem, papai.
   _Meu?!
   _Sim, senhor. Como eu disse antes, a igreja insiste para que qualquer Cruzado seja tratado como heri da f. Ao prender Bernard na masmorra, o senhor pode atrair
a censura do bispo.
   Com o copo de vinho, Setton apontou para o padre Robert que jogava dados com vrios homens.
   _Diga uma coisa, filha, nosso padre parece aborrecido?
   O padre Robert mantinha a posio de sacerdote de Dasset graas  rapidez com que rezava a missa. Ele no se arriscaria a perd-la colocando os assuntos da igreja
acima da vontade de lorde Setton.
   _No estou preocupada com nosso bom padre, e sim com o bispo Walter. Se ele souber da situao de Bernard, poder se ofender muito.
   Setton percorreu os olhos pelo salo e observou a presena de um mascate e de um cavaleiro que haviam pedido abrigo por uma noite. Eles espalhariam a histria.
Mas Claire no se preocupava s com eles. Tanto quanto o pai, sabia que um bom nmero de pessoas viajava, com freqncia, entre Dasset e Durleigh, cavalgada de meio
dia. Logo, todos da regio ficariam a par de tudo.
   _Voc se preocupa demais, Claire.
   _Talvez. Mas papai, no quero que nada interfira em meu casamento com Marshall. Temo que a situao de Bernard possa impedi-lo ou atras-lo. - Claire ps a mo
no brao do pai e apressou-se em apresentar uma soluo, rezando para que ele a achasse razovel. - Algo precisa ser feito depressa. Pensei que o senhor, numa atitude
nobre e caritativa, desse umas braas de terra para Bernard e o mandasse embora.
   O pai fitou-a com os olhos semicerrados.
   _Dar terras ao patife?
   Claire resistiu ao impulso de se afastar.
   _Umas braas apenas. Na parte mais distante de sua propriedade. Bernard ficaria satisfeito e o bispo no se enfureceria, o que permitiria a realizao do casamento
e do torneio, como planejamos.
   Setton jogou a cabea para trs e soltou uma gargalhada, atraindo a ateno geral.
   Mortificada, Claire corou at a raiz dos cabelos.
   _Ah, filha, s voc poderia oferecer uma soluo to idiota para esta confuso. Vou avisar Marshall sobre sua tendncia de se imiscuir em questes que s dizem
respeito a homens.
   Com esforo, Claire controlou a raiva.
   _S tenho em vista justia e sossego para os envolvidos no caso. Reflita um pouco, papai. Se der uma pequena recompensa a Bernard, seu nome ser exaltado. Todos
passaro a consider-lo como um dos lordes mais magnnimos da Inglaterra.
   _Ora, todos me achariam um poltro. Mas num ponto, voc tem razo. Preciso me livrar de Bernard. No se aflija amanh cedo, Bernard no ser mais um empecilho.
Agora, v quanto a qualquer efeito da situao em seu casamento. Agora, v embora.
   Mas Claire no Conseguiu se mexer. Horrorizada com o tom e as palavras do pai, atreveu-se a perguntar:
   _O que o senhor vai fazer?
   - Voc viu hoje como Bernard quase pulou em mim? Se no fosse pela lana de Henry, ele poderia ter me matado. No entanto, tinha acabado de me jurar fidelidade.
Nenhum homem ameaa a vida de seu senhor e escapa do castigo mais severo.
   Virgem Santssima! Ao tentar ajudar Bernard a realizar seu sonho, talvez houvesse lhe provocado um mal maior. Se no agisse depressa, ele poderia estar morto
ao amanhecer.

   Bernard passou o dedo pela algema de ferro. Embora preso por poucas horas, sentia profundamente a humilhao e mais respeito por Hugh de Halwell pela experincia
penosa que sofrera. Tambm compreendia melhor o alivio do amigo ao ver os companheiros chegando para libert-lo da priso na Terra Santa.
   Bernard olhou para a porta da masmorra. Gesto intil. Nenhum dos amigos sabia de sua situao, portanto, no podia esperar que viessem salv-lo.
   Sem dvida, era uma sensao estranha estar por conta prpria, sem ningum para proteger-lhe as costas.
   A porta abriu-se. Algum entrou na masmorra enrolado numa capa escura com capuz. Ele vislumbrou um lampejo vede-esmeralda. Claire, deu-se conta.
   Viu-a pegar um molho de chaves de um gancho ao lado da porta.
   - O que est fazendo? - ele indagou.
   Claire aproximou-se depressa.
   - Soltando-o. Voc sabe que chave abre a algema?
   Ele conhecia todas do tempo em que trabalhava para Setton. Grande tentao, mas no abriria a algema.
   - Pendure o molho de volta no gancho. No quero ser solto.
   Ela parou diante de Bernard. Suas mos tremiam.
   - Voc no tem escolha. Abra a algema e fuja antes que o sino anuncie que o portal ser fechado para a noite.
   - Tenho escolha, sim. Vou permanecer aqui at conceber um plano para convencer seu pai a dar minha recompensa.
   - Se ficar, poder no estar vivo para ver o prximo nascer do sol. Que utilidade, ento, ter a recompensa? No discuta mais e fuja.
   Outra splica, de outro Setton, para ele deixar Dasset. E Claire parecia to ansiosa quanto o pai fora quatro anos atrs.
   Algo tinha acontecido para ela estar ali com a idia de que a vida dele corria perigo. Ou Setton a teria mandado para experimentar-lhe a firmeza?
   - O que aconteceu?
   - Tentei refletir com meu pai em sua defesa, mas s piorei a situao.
   O ecleo era o brinquedo preferido de Setton. Bernard tinha visto homens esticados nele. Uns comeavam a gritar ao ser presos no instrumento, enquanto outros
sofriam em silncio. Completamente subjugados. Ele imaginava at que ponto suportaria a tortura.
   - Bernard, depressa!
   S os covardes fugiam.
   - No posso...
   Ela o esmurrou no peito.
   - Idiota! Voc no entende? Se for preciso, ele o matar para se ver livre de sua teimosia.
   Atrevia-se a acreditar nela, ou no?
   Bernard apanhou o molho de chaves e abriu a algema. Porm, mal dominava a raiva crescente.
   - Que diabos voc disse a ele?
   - Conto pelo caminho. Vamos - disse ela ao virar-se para a porta.
   - Um instante. Algum a viu descer para c?
   - Acho que no. Eu me mantive nas sombras.
   No bastava. Se ia fugir, ele o faria de maneira mais segura.
   - Pendure o molho de chaves e pegue uma tocha. Vamos usar outra sada.
   - Que outra?
   - Os tneis.
   Bernard aproximou-se da parede de pedra, de aspecto slido, atrs do ecleo. Enfiou a mo por entre os chicotes pendurados,  procura de uma alavanca que sabia
estar na altura da cintura dele. Ouviu o rudo das chaves sendo penduradas e o deslizar da tocha pelo suporte. A luz atrs dele aumentou.
   - Fique onde est, Claire. Espere eu abrir isto primeiro.
   Se a masmorra no era lugar para uma dama, os tneis, muito menos. Cavados por um ancestral de Setton, eles permitiam a fuga at o rio caso Dasset sofresse um
ataque inimigo.
   Nas pocas de paz, os senhores do castelo os usavam para outros fins. Contrabando, geralmente.
   Bernard achou a alavanca e pressionou-a com fora. Com um ranger de pedras e um guinchar de roldanas, uma seo da parede abriu-se. Ele s podia ver at um pouco
alm da entrada, mas no havia pilhas de ossos, apenas barro. Tambm no ouviu rudo de ratos. Entrou e virou-se para trs.
   _Venha, Claire, o caminho est livre.
   To logo ela entrou tambm, Bernard fechou a parede. Um barulho ensurdecedor repercutiu pelo tnel estreito, cavado na pedra. Assustada, Claire agarrou-se ao
manto dele.
   _Misericrdia! No existe uma nica me aqui que no ameace trancar os filhos no tnel caso eles no a obedeam.
   _ possvel mesmo perder-se aqui? - ela quis saber.
   Bernard pegou a tocha de sua mo e comeou a andar.
   - Voc nunca entrou no tnel?
   _No - respondeu ela, seguindo-o.
   Como Claire continuasse segurando o manto, o que o incomodava, ele a pegou pela mo. Arrependeu-se. Seus dedos frios esquentaram-se logo, provocando calor alm
dos dele. Tentou se distrair conversando.
   _O tnel principal vai at o rio. Uma ramificao sai dos aposentos do senhor do castelo e uma outra leva ao estbulo - explicou. - Mas o que voc disse a seu
pai para eu ter de fugir to depressa?
   Claire suspirou.
   - Tentei faz-lo ver que prender um heri das Cruzadas...
   _No sou heri.
   _Em minha opinio, . Mas sua priso poderia irritar o bispo e a autoridade judicial de Durleigh. Isso, sem dvida, causaria problemas para meu pai num perodo
em que ele precisa de paz. Ento, sugeri que lhe desse umas braas de terra, distantes daqui, e o mandasse embora.
   Bernard imaginou a reao de Setton.
   _Ele ficou furioso.
   _Nem queira saber como.
   Isso no o surpreendia. Mas no tinha aceitado o julgamento de Claire sobre a situao depressa demais? Parou de andar.
   _S porque seu pai est bravo no quer dizer que queira se livrar de mim.
   Numa voz incerta, Claire contou detalhes da conversa com o pai, como o bispo, zangado, poderia castigar Dasset com uma interdio.
   _A aliana com Marshall  importante para meu pai. Mas em tais condies, ela se tornaria impossvel, pois no haveria casamento.
   Ela ainda no estava casada.
   Ao saber da barganha de Setton com Marshall, tinha deduzido que era fato consumado. Claire estava apenas noiva, portanto, no fora de cogitao. Talvez ainda
houvesse esperana.
   No. Ele dissera a Setton que desistia de Claire. E ao contrrio dele, era homem de palavra.
   A raiva de Bernard tornou a ferver.
   _Ento, sou obrigado a abrir mo de minha recompensa para que seu pai sele a maldita aliana com Marshall e voc se case com ele?
   _Isso no  o pior de tudo. Papai acha que voc tentou mat-lo hoje e merece a pior pena por isso. Ao fugir agora, pelo menos voc salvar a vida.
   Bernard recomeou a andar e depressa.
   _Que vida? No possuo fundos para comprar terras e vou ter de usar a espada a fim de ganhar meu sustento. Por todos os santos, no tenho a mnima vontade de me
tornar mercenrio! Isso, se conseguir comprar minha passagem para o continente.
   - E se oferecesse sua espada a um outro lorde ingls? Muitos ficariam satisfeitos em contar com a fidelidade de um cavaleiro como voc.
   _Recm-chegado, eu seria apenas um guarda domstico. Levaria muitos anos para provar meu valor e ocupar uma posio superior em que uma recompensa em terras pudesse
ser considerada.
   Claire teve um forte acesso de tosse e Bernard diminuiu o passo.
   _Voc est bem?
   _Estou. E o que resta de um resfriado.
   Numa bifurcao, Bernard seguiu pela direita. Ao ver uma escada, Claire perguntou:
   - Ela vai dar nos aposentos de meu pai?
   - Assim me disseram.
   _Agora sei por onde voltar sem ser vista - ela disse, sorrindo.
   Era a primeira vez que ele a via sorrir desde que chegara. Os lbios entreabertos mereciam ser beijados e pertenciam  mulher que deveria ser dele. Contrariando
o bom senso, ele desejava beijar a criatura cuja interferncia o impedia de receber a recompensa.
   O tnel virou num ngulo reto e subiu em direo ao estbulo. Ele no planejara sair de Dasset dessa maneira, de mos vazias e sob a ameaa de morte feita pelo
senhor a quem servira durante anos.
   _Segure isto - pediu, entregando a tocha a Claire. J ia comear a subir a escada quando a ouviu dizer:
   _Sinto muito, Bernard. Se eu no tivesse conversado com meu pai, nada disto estaria acontecendo.
   Claire pedia desculpa. Seria fcil atend-la. Bastaria pronunciar umas poucas palavras. Porm, elas ficaram presas na garganta. Calado, subiu a escada.
   Bem devagar e com um mnimo de barulho, Bernard empurrou alapo no teto do tnel. Uma chuva de terra e palha caiu-lhe no rosto, mas ele continuou a afast-lo
para o lado. Como no ouvisse vozes, subiu mais um pouco e ps a cabea para fora.
   A parca claridade no estbulo mostrava que j anoitecia. Os cavalos, tendo recebido comida e gua, cochilavam nas baias. Peter e os rapazes haviam ido jantar.
Dois retornariam para dormir no paiol de feno.
   Bernard voltou para o tnel.
   - Pode subir, minha lady.
   _Pensei em deix-lo aqui e voltar pela outra escada.
   - Preciso que voc vigie a porta enquanto selo meu cavalo. E o mnimo que pode fazer para compensar os problemas que causou.
   Ela apertou os lbios e Bernard preparou-se para uma discusso. Porm, Claire entregou-lhe a tocha e comeou a subir.
   Um estalo acompanhou seu primeiro passo.
   _No estou gostando disso. Ela no  firme.
   _Todas as escadas estalam. Esta agentou meu peso, no foi?
   _Voc me segura se ela quebrar?
   _Claro. No se aflija.
   Bem devagar, ela foi galgando os degraus. No terceiro, tremia e, no quarto, cambaleou. Penalizado e sem refletir, Berinard a amparou pelas ndegas. Claire ficou
tensa. Apesar das vrias camadas de roupa, ele sentiu a contrao de seus msculos.
   _Ah, muito bom - ouviu-se dizendo.
   _Pode tirar a mo, Bernard. J estou firme.
   _Tem certeza?
   _Um cavaleiro genuno no tiraria tal vantagem de uma dama. Se eu tivesse coragem de esticar minha perna para trs, voc receberia um pontap no peito.
   _Uma mulher que corre o risco de cair, no pode exigir a maneira como  amparada.
   _Bernard!
   Ele tirou a mo.
   _Muito bem. Pode subir o resto sem cair?
   Ela suspirou, mas continuou em frente. Bernard mantinha-se preparado para largar a tocha e segur-la se fosse preciso. De fato, era difcil para ela subir, mas
finalmente, chegou ao ltimo degrau e esgueirou-se pela abertura.
   Na verdade, Claire possua ndegas muito boas. Bernard no podia subir com a tocha acesa. Para evitar o grande perigo de incndio, elas eram proibidas no estbulo.
Por isso, o simples piscar de urna poderia chamar a ateno de algum do lado de fora o que poria em risco a fuga. Encostou-a na parede e subiu a escada bem mais
depressa do que Claire.
   Ela estava perto da porta e, por unia fresta, observava o ptio. Peter, como Bernard pedira, tinha deixado a sela, a cimitarra e a sacola na baia, junto com o
cavalo. Depois de embainhar a arma, ele apressou-se em selar Cabal.
   A idia de fugir ainda o contrariava, mas o que fazer? Morto, no poderia receber a recompensa. Vivo, talvez.
   Aproximou-se de Claire que, ao ouvir-lhe os passos, virou-se.
   _Pronto? - ela indagou.
   _Sim. Como vamos fazer?
   _Papai deve ter mandado abrir outro barrilete de cerveja para comemorar a caada. Quase no h viva alma no ptio. Boa sorte, Bernard. V depressa e para bem
longe.
   Depressa, sim, mas no para longe. Deveria ir para Durleigh, calculou, e planejar o passo seguinte.
   Planejar o qu? Desafiar Setton novamente a cumprir a palavra? Quem, alm de Julius, acreditaria que ele fora injustiado? Era a palavra de Setton contra a dele.
Infelizmente, o bispo Thurstan, a nica testemunha da promessa, estava morto.
   Bernard observou o ptio. De fato, quase no havia ningum por l. Seria fcil atravess-lo num galope e passar pelo portal. Para um plano feito s pressas, Claire
tinha escolhido a melhor hora, de condies perfeitas.
   Fcil demais!
   Tambm estranhava haver ficado preso durante vrias horas e encontrar a sela, a sacola e a cimitarra na baia.
   Bernard no duvidava de que Claire houvesse conversado com o pai. Mas comeava a desconfiar se o relato do que fora dito era verdico. Podia imaginar pai e filha
confabulando para dar fim nele; Odo para salvar a aliana com Marshall, Claire, o casamento.
   Sentiu a raiva ferver enquanto se convencia do esquema dos dois para se livrar do preso inconveniente sem levantar suspeitas. Tinha sido um perfeito idiota ao
dar crdito s splicas falsas de Claire.
   Com ele fora do caminho, os Setton no teriam mais de se preocupar com a realizao dos planos. A nica dvida era se eles pretendiam deix-lo fugir de Dasset
ou se guardas, armados com balistas, aguardavam o prisioneiro fugitivo.
   No conseguiriam peg-lo.
   Ia levar Claire com ele. Temendo ferir a filha do senhor de Dasset, nenhum guarda ousaria atirar flechas ou pedras. Ento, com todos os diabos, ela o ajudaria
a obter as terras.
   Uma troca justa por sua traio.

   CAPTULO 4

   _Solte os cavalos das baias - Bernard mandou antes de dirigir-se ao fundo do estbulo.
   Exasperada, Claire levantou as mos ao ar. Por que Bernard no montava logo e partia? Ele parecia no estar com a mnima pressa! Perdia um tempo precioso quando
j deveria estar galopando rumo ao portal.
   - Por qu? - indagou.
   - A fim de afastar as atenes de ns para os animais - ele explicou e desapareceu na escada para o tnel.
   Havia poucas pessoas no ptio para distrair. Mesmo assim, ela obedeceu, refletindo que a idia fazia sentido. Enquanto tentassem controlar os cavalos, Bernard
no teria de enfrentar ningum. E ela tambm poderia atravessar o ptio e entrar no castelo sem ser notada. Melhor do que descer pela escada perigosa do tnel. Se
ela quebrasse, Bernard no estaria l para socorr-la.
   Claire ainda podia sentir a mo dele amparando-a. Alis, por mais tempo do que o necessrio.
   Mas o que ele fazia l embaixo que no voltava logo?
   Claire tossiu. A cabea comeava a doer e o nariz, a ficar congestionado. Quando tudo isso terminasse, iria para a cama e no se levantaria at de manh. Talvez,
s ao meio-dia.
   Soltou mais um cavalo e viu Bernard voltar, fechar o alapo e empurrar, com o p, palha sobre ele.
   - Terminou?
   - Faltam s dois e o seu - ela respondeu.
   Em instantes, oito cavalos confusos espremiam-se pelo centro do estbulo. Bernard inspecionou a sacola e a cilha da montaria. Vendo-o prestes a montar e soltar
os animais no ptio, Claire postou-se ao lado da porta, fora do caminho deles, mas de onde podia observar tudo e ver o momento oportuno para ir embora.
   Contudo, ele no montou e nem atiou os cavalos para fora. Em vez disso, aproximou-se dela. O que mais queria? Despedir-se? O sino para fechar o portal deveria
soar a qualquer instante. Se Bernard no fugisse depressa, seria apanhado.
   Antes de poder dizer-lhe isso, ele curvou-se, agarrou-a pela cintura e a jogou sobre o ombro. Claire mal podia respirar e, muito menos, protestar. Num movimento
gil, ele montou e a colocou atravessada na frente da sela.
   Quando conseguiu respirar melhor, ela disse:
   - Ficou louco? Deixe eu descer j!
   - De jeito nenhum, minha lady - ele respondeu num tom inflexvel e amedrontador.
   Com as duas mos, ela tentou, em vo, empurrar-lhe o brao que a prendia pela cintura.
   _Exijo que me solte imediatamente!
   _S quando seu pai recuperar o bom senso. Ento, a trarei de volta a Dasset.
   Bernard pretendia us-la como refm a fim de receber a recompensa! Havia libertado-o da masmorra e se tornado sua prisioneira.
   Claire ps-se a espernear, o que levou Bernard a for-la a montar com uma perna de cada lado do garanho. Assustada, ela respirou fundo a fim de se acalmar e
sentiu cheiro de fumaa.
   _Fogo! - murmurou, arregalando os olhos.
   _A escada.
   De volta ao tnel, Bernard tinha posto fogo nela. Logo, as chamas invadiriam o estbulo. Isto sim, distrairia a ateno das pessoas. Ele a mandara soltar os cavalos
apenas para mant-la ocupada, Claire deu-se conta.
   _Bandido traidor!  assim que retribui minha bondade?
   _Eu a avaliarei pela maneira com que nos tratarem no portal.
   O        sino tocou, avisando quem quisesse entrar ou sair para faz-lo logo, pois caso contrrio, s na manh seguinte.
   Bernard tinha esperado demais para fugir. Seria capturado.
   O pai o enforcaria, de manh cedo, por causa da tentativa de seqestro e por incendiar o estbulo. Ela tentara salv-lo, mas o teimoso acabara dando motivos ao
pai para elimin-lo. E a fria dele no passaria com a morte de Bernard. Ela no escaparia de um castigo por haver tomado parte na questo.
   - Segure-se bem! - Bernard gritou ao dar um pontap na anca do cavalo mais prximo que correu para a porta.
   Os outros e Cabal o seguiram de perto.
   Fora do estbulo, os trs apartaram-se dos oito animais e atravessaram o ptio a galope. Claire segurava-se com fora no brao de Bernard, o nico suporte ao
alcance.
   Graas  Providncia, ningum se atreveu a interceptar a passagem do garanho veloz. Na verdade, no seria preciso. O portal comeava a baixar. As pontas de ferro
j podiam ser vistas descendo devagar, mas inexoravelmente. Bernard tinha de virar a montaria bem depressa.
   Ele no o fez, ao contrrio, esporeou-a para que aumentasse a velocidade. Os guardas no portal os viram e prepararam as lanas. Claire ouviu, primeiro, o nome
de Bernard e, depois, o seu entre os gritos deles.
   Com o corao na garganta, ela percebeu que Bernard no pretendia parar. Nunca, em seus pesadelos, ela se vira morrendo esmagada entre um cavaleiro enlouquecido
e um imenso portal de ferro. Fechou os olhos.
   _Ave Maria, gratia plena...
   Bernard riu.
   _Reserve suas preces para quando precisar delas. Abaixe-se!
   Ele no lhe deu escolha, pois curvando-se, dobrou-a em duas sobre o pescoo do animal, alm de prens-la com o peso do corpo. Quase asfixiada e sem ver mais nada,
ela continuou rezando. Apenas atravs dos barulhos, avaliava o progresso que faziam.
   O tropel da montaria na terra, os gritos dos guardas para pararem, o guincho pavoroso do portal quando passaram sob ele e, finalmente, o bater das ferraduras
de Cabal na madeira da ponte levadia.
   Bernard diminuiu a marcha apenas um pouco enquanto se afastavam pela estrada. Endireitou o corpo e ajudou-a a faz-lo tambm. Depois de respirar fundo, Claire
suspirou.
   _Agora, voc deve rezar - ele disse.
   _No parei nem por um instante. Francamente, Bernard, estamos vivos apenas pela graa da Virgem Santssima!
   _Ento, suplique mais proteo. Logo, guardas viro em nosso encalo.
   Claire esperava que sim.

   Bernard forou Cabal a seguir pela estrada at ficar perigoso demais. Sozinho, ele ainda cavalgaria mais um pouco pela escurido. Mas uma coisa era arriscar o
prprio pescoo e outra, o de Claire. O mais aconselhvel seria adentrarem-se um pouco pela mata a fim de dormirem e, ele, decidir o prximo passo a dar.
   Nesse dia, havia tomado duas decises precipitadas. Uma a de fugir e a outra de seqestrar Claire. Ambas tinham sido em reao a fatos sobre os quais ele no
tivera controle. De agora em diante, pretendia ter mais domnio sobre os acontecimentos.
   Como qualquer lugar ao longo da estrada fosse to bom quanto outro, Bernard puxou as rdeas.
   A fria de Claire soltaria fascas se pudesse se materializar. Sentava-se ereta diante dele como se a espinha fosse de ferro. No tinha dito nem mais uma palavra
depois de censur-lo por passar sob o portal que fechava.
   Com o brao em volta de sua cintura, a fim de mant-la segura, ele sentia cada movimento seu. Ela no havia chorado, embora, a certa altura, tivesse deixado escapar
um soluo abafado. Mas tossira em vez de chorar. Talvez para manter-se firme ou por causa do resfriado, ele no sabia. Afrouxou o brao, mas recusou-se a se sentir
culpado.
   Ela agarrava-se  raiva, numa defesa contra o medo. Bernard a admirava por isso, embora de m vontade. A interferncia de Claire na questo com o pai tinha
tomado a fuga de Dasset necessria. Se ela havia agido com boa inteno ou tramado a morte dele ainda era preciso esclarecer.
   Bernard desmontou e tocou o cotovelo de Claire para ajud-la a descer. O olhar que ela lhe dirigiu era bem claro. Apesar de calada, ela o mandava para o inferno.
   No a culpava, especialmente se ela era uma vtima inocente de seu problema com Setton.
   - Tire a mo de mim - ela ordenou em tom rspido.
   Bernard atendeu-a e recuou uns passos. Se queria desmontar sozinha, tudo bem.
   Num movimento rpido, Claire apanhou as rdeas e, com os calcanhares, instigou Cabal a partir. O garanho manteve-se impassvel.
   - Ande, seu desgraado! - ela gritou, tornando a bater nele com os calcanhares.
   Bernard segurou-lhe o p a fim de poupar o animal.
   - Voc deveria saber, Claire, que um corcel obedece apenas a seu cavaleiro. Agora, desa.
   Uma ligeira inclinao de cabea. Um leve suspiro de resignao. Ento, ela inclinou-se para a frente, segurou-se na crina de Cabal e passou a perna do outro
lado por cima dele como se fosse desmontar. Percebendo-lhe a inteno verdadeira, Bernard agarrou sua bota no ar antes que o salto o atingisse no queixo. O esforo
intil fez com que ela batesse com o estmago na sela.
   Pondo-se no lugar de Claire, ele calculou sua tentativa seguinte - fugir a p.
   Na esperana de desencoraj-la, avisou:
   - A noite, h animais mais ferozes do que eu vagando por a. Voc seria uma presa fcil e um jantar delicioso para um lobo.
   - Prefiro lobos a um demnio - resmungou ela.
   Ah, ento agora ele era o tinhoso? Bernard achou graa, mas no a revelou na voz.
   - No posso deix-la  merc dos lobos, Claire. S vou permitir que desmonte se jurar obedecer.
   Ela o encarou.
   - Exigncia de um homem que, ainda esta manh, jurou fidelidade a meu pai. Do que adianta um juramento a algum que no respeita os prprios?
   O bom humor dele evaporou-se.
   - Eu teria mantido minha palavra se seu pai no tivesse quebrado a dele antes.
   _Ser? E seu juramento de cavaleiro de proteger as mulheres? Acho que quebrou esse tambm!
   Teria ele detectado uma ponta de preocupao em sua voz? Talvez Claire no fosse, afinal, to corajosa.
   _Voc estar em segurana comigo. No permitirei que nenhum mal lhe acontea enquanto ficar sob meus cuidados. Prometo ainda no deixar que voc mesma se prejudique.
Como tornar-se a refeio de um lobo - acrescentou em tom de gracejo.
   Ela no respondeu e Bernard sacudiu-lhe a perna.
   _Vai ser bem pouco confortvel dormir a em cima. Mas tenho de admitir que, de onde estou, a vista  excelente, embora imprpria. Voc tem curvas lindssimas,
Claire.
   _Deixe eu descer!
   _Primeiro, o juramento.
   _Desgraado! - Suspirou. - Est bem. Vou desistir de alimentar os lobos. Alm do mais, os homens de meu pai logo nos acharo. At ento, posso tolerar sua companhia.
   Bernard largou-lhe o p e ps as mos em sua cintura.
   Como Claire no se esquivasse e nem lhe desse um pontap, ele a ps no cho. No mesmo instante, ela endireitou a capa e tentou readquirir a dignidade. Quando
levantou a cabea, as feies no exibiam mais raiva, apenas a serenidade de uma mulher da nobreza.
   Com a testa franzida, entre confusa e desapontada, comentou:
   _Ele no mandou ningum em nosso encalo.
   Bernard tambm estranhava o fato. Vrias vezes, durante a cavalgada, tinha olhado para trs, certo de ver uma tropa perseguindo-os. Ao que tudo indicava, no
tinham reaberto o  portal.
   Como j estivesse quase escuro e a neblina comeasse a se condensar, achava que Setton no cometeria a tolice de mandar seus homens procur-los  noite.
   _Com certeza, esto tentando debelar o fogo.
   _Sua artimanha para distra-los. Papai deve estar muito mais furioso com voc por tentar incendiar o castelo. Em que estava pensando, Bernard? Voc continua dando-lhe
motivos para enforc-lo.
   Num ponto, Claire tinha razo, ele admitiu.
   _Imagino que ele no se sinta agradecido por termos soltado os cavalos.
   _No, claro. Quando puser a corda em seu pescoo, no vai se lembrar dos animais e sim do fato de voc haver iniciado o incndio. Francamente, Bernard, no vejo
o que voc espera ganhar com esta loucura.
   O objetivo dele era receber a parte da recompensa de que precisava para sobreviver. Por ela, lutara na Terra Santa e continuava lutando.
   _Terra.
   _Depois do que fez, espera que meu pai lhe d algo?
   _No sou to idiota, Claire. Tambm no quero terras de seu pai. No agentaria ter Odo Setton como meu senhor feudal. Mas vou exigir ouro e prata para poder
comprar uma propriedade em algum outro lugar.
   _Quanto?
   Ele deu de ombros.
   _No pensei ainda. Imagino quanto voc valha para ele.
   _No momento,  capaz de me deixar com voc como castigo por t-lo soltado da masmorra. Talvez essa seja a razo para no ter mandado soldados me procurar.
   Bernard no tinha considerado tal possibilidade e ficou aliviado com suas palavras seguintes.
   _Mas vai me querer de volta. E at, provavelmente, pague parte de meu resgate. Sem mim, no haver casamento e aliana com Marshall.
   No por amor paterno e sim por uma razo prtica, refletiu Bernard. Mas o relacionamento afetivo entre pai e filha nao era problema dele. Desde que Setton pagasse
uma boa soma para ter a filha de volta, o motivo para faz-lo no tinha importncia.
   _Seu pai tem o que eu quero. Eu tenho o que ele precisa. Faremos a troca e, depois, esqueceremos o nome um do outro. Muito simples:
   Bernard sabia que no, mas no podia perder a esperana.
   Estendeu a mo.
   _Venha. Vamos acender uma fogueira e manter os lobos afastados.

   Claire estranhava os rudos da mata feitos por insetos e outros animais notvagos. A noite estava seca e agradvel, mas mesmo assim, ela sentava-se perto da pequena
fogueira, enrolada na capa. Bernard tinha dito que lobos no gostavam das chamas.
   At ento, ela no tinha ouvido nenhum uivo. Mas isso no queria dizer que eles no rondassem por perto. Tambm, segundo ele, Cabal detestava tais animais e relincharia
se um ousasse se aproximar de Cabal. Nome extravagante para um corcel, o do cachorro estimao do lendrio rei Arthur. Mas o garanho, para Bernard, significava
muito mais, pois era o companheiro imprescindvel. Ele, agora, o esfregava com um punhado de capim a fim de tirar o suor e a poeira de seu bem mais valioso.
   Bernard observou-a por sobre o ombro. Tolice. Ela no ia a lugar algum essa noite. No apenas por causa dos lobos, mas tambm porque no enxergaria a estrada
na escurido densa. Passaria a noite na companhia do cavaleiro rude que a privava do conforto de sua cama e do ch quente para aliviar-lhe o resfriado.
   Achava difcil considerar Bernard Fitzgibbons como cavaleiro, apesar de a aparncia dele no deixar dvida alguma. O porte, a cota de malha, o garanho - tudo
confirmava que ele se tornara um durante as Cruzadas..
   No podia negar que ele tivesse ficado um homem atraente que no lhe admirasse as feies bonitas. Isso sem mencionar ombros largos e os braos fortes que a tinham
segurado na cavalgada.
   Bernard tambm havia se tornado um homem teimoso. Continuava insistindo que seu pai lhe devia uma recompensa, a qual ele pretendia receber de uma forma ou de
outra. Claire ainda no estava certa em quem acreditar, mas sabia qual seria a reao do pai  exigncia de seu resgate.
   Ele teria um formidvel acesso de fria.
   Com toda a certeza, pagaria o preo, porm, isso no queria dizer que no lhe desse um bom castigo. Especialmente se o incndio tivesse causado danos que exigissem
reparos dispendiosos.
   Bernard o tinha iniciado, mas tambm garantido a segurana dos animais. Um ato louvvel que ela aprovava.
   Porm, se tivesse lhe dado ouvidos e agido como um cavaleiro corts, ela no estaria sentada ao lado da fogueira, com a cabea latejando e os pensamentos desordenados.
   Claire fechou os olhos e massageou as tmporas. Sentia-se exausta, mas sem esperana de repousar.
   O tinir da cota de malha a avisou da presena de Bernard a suas costas. Porm no a preparou para o contato dos dedos quentes dele em sua cabea.
   _Permita, minha lady - murmurou ele.
   Claire baixou as mos e entregou-se  sensao deliciosa provocada pelos dedos habilidosos. Com uma leve presso e crculos vagarosos, Bernard afastou a dor,
deixando apenas uma insensibilidade agradvel.
   A cabea no foi a nica parte do corpo a reagir  magia das mos dele. O bico dos seios eriavam-se como se esperassem sentir tambm a massagem delicada. Ao
mesmo tempo, uma onda de calor queimava-a por dentro.
   _Melhor? - ele perguntou.
   De jeito nenhum. A dor de cabea passara, mas uma nova aflio atingia lugares que deveriam se manter insensveis. Que Deus a ajudasse, pois estava gostando das
sensaes, da nova percepo do corpo. Pecado mortal desejar um homem que no era seu marido e sim, inimigo.
   De acordo com Bernard, ela lhe fora prometida como parte da recompensa. Deveriam se casar e ela, como esposa, poderia sentir aqueles dedos maravilhosos no corpo
nu.
   Mas no seria a mulher de Bernard e sim a de Eustace Marshall. O toque deste tambm a afetaria to profundamente?
   Bernard limpou a garganta.
   _Claire, voc dormiu?
   _No, mas a dor de cabea passou. Talvez eu consiga dormir agora.
   Caso o resto do corpo permitisse, pensou ela.
   _Faa um esforo. Voc precisa estar descansada para enfrentar o dia de amanh. Teremos de nos esquivar dos soldados que seu pai, certamente, mandar nos procurar
ao raiar do sol.
   A meno ao pai aplacou-lhe o desejo. Que grande tolice alimentar fantasias sensuais com o homem que a tinha seqestrado e exposto ao perigo.
   Curioso no ter considerado os riscos e nem sentido medo.
   Exceto naquele momento em que haviam passado sob o portal quase fechado.
   _Para onde pretende ir? Voc poder escapar dos soldados amanh, mas eles acabaro pegando-o - ela afirmou. Bernard sentou-se a seu lado.
   _S se eu deixar, ou for descuidado. Mas isso no faz parte de meus planos.
   _Voc tem um?
   _Mais ou menos. Primeiro, temos de conseguir alimento e abrigo. Depois, encontrar uma maneira de informar Setton sobre minha exigncia de resgate. Tambm arranjar
um lugar seguro para a troca ser feita. Ento, voc voltar para Dasset e eu irei procurar terras bem longe daqui.
   Incrvel a naturalidade com que ele falava. Bernard pensava que tinha controle da situao, como se seu pai no pudesse frustrar-lhe o esquema.
   _No vai ser assim to fcil, Bernard.
   _Eu sei. Mas planos simples so mais fceis de sofrer alteraes.
   _Ou de fracassar. Veja o que aconteceu hoje.
   Ao v-lo arquear as sobrancelhas, ela prosseguiu:
   _No planejei completamente sua fuga. Deveria ter considerado os detalhes. Pensei apenas em solt-lo e em mais nada alm disso.
   _Voc no falhou. Estou livre.
   _Mas eu me tornei sua prisioneira. Uma de suas alteraes que no previ.
   _Nem poderia, pois s tive a idia quando j estvamos no estbulo.
   _A mais azarenta de que j ouvi falar.
   _Veremos.
   Claire no disse mais nada. O que Bernard pretendia fazer no dia seguinte no lhe dizia respeito. Tinha os prprios planos. No se sujeitaria a passar vrios
dias vagando pela mata com ele.
   Como dissera, os soldados do pai apareceriam ao raiar do sol. Ela os estaria esperando na estrada. Se planejava acordar antes do clarear do dia, o melhor seria
dormir logo.
   Claire deitou-se onde estava, encolhida dentro da capa e com o capuz forrando-lhe o rosto.
   Mal tinha fechado os olhos quando ouviu a cota de malha de Bernard, mas no sabia dizer se ele havia se levantado. Espiou e o viu tirar o manto de seda. Depois,
dobr-lo vrias vezes at formar um quadrado que lhe entregou.
   _Para sua cabea.
   Ela o pegou e ps sob o rosto, mas arrependeu-se por aceitar a gentileza. No queria pensar bem sobre Bernard. E tambm no fazia idia de corno conseguiria adormecer
com o odor dele provocando-lhe os sentidos.

   No devia t-la tocado e nem se aproximado dela. Mas ao v-la massageando as tmporas, ele esquecera o bom senso.
   Claire estava doente e ele a tinha tirado de Dasset sem considerar a possibilidade de uma piora de seu estado. Ele sabia cuidar de ferimentos feitos numa batalha
e aliviar uma dor de cabea, mas ignorava como tratar um resfriado.
   No tnel, ela havia dito que estava quase boa. Apenas restava um pouco da tosse. A noite passada ao ar livre no lhe faria bem e, caso piorasse, ele teria de
lev-la a algum lugar onde houvesse tratamento. Em Durleigh, poderiam encontrar um fsico ou um ervanrio. Ou ir a uma abadia qualquer. O velho monge que lhe cuidara
da perna entendia de curas.
   Com os dedos, havia sentido o leve pulsar em suas tmporas, o que lhe acelerara o corao. Seu suspiro de alvio tinha lhe parecido quase como um de desejo.
   Deveria ter se afastado naquele momento, mas os polegares haviam roado a rede que prendia seus cabelos, permitindo que ele, por um instante, tocasse os caracis
sedosos. Ento, a imaginao alara vo.
   Desejar Claire era um grande erro. Ele no podia t-la. Apenas se desistisse do resgate.
   O melhor seria avaliar seu valor para o pai.
   Em ouro.
   E ento, descobrir a maneira de pr as mos nele.

   CAPTULO 5

   A tosse de Claire vinha do fundo do peito e ameaava sufoc-la. Pelo menos, era a impresso de Bernard.
   Depois do dia exaustivo, ele havia tirado a cota de malha e vestido uma tnica marrom, de mangas compridas. Adormecera quase depois de fechar os olhos, mas acordara
com a tosse de Claire. No estava gostando do rudo dela e, muito menos, de sua respirao ofegante.
   Levantou-se e remexeu na sacola at encontrar a capa. Em seguida, ajoelhou-se a seu lado.
   _Sente-se - disse, ajudando-a a faz-lo.
   Enrolou a capa em cima da sua e observou-a. Ela continuava a tossir. Seu rosto estava vermelho, e lgrimas corriam por suas faces. Como no tivesse nada que pudesse
alivi-la, ele comeou a massagear-lhe as costas. Devagar, a tosse passou.
   _Melhor? - indagou ele.
   Claire assentiu com um gesto de cabea.
   _Voc no disse que o resfriado tinha passado?
   Ela pigarreou e olhou em volta.
   _Sim, mas piorou com este ar frio.
   No precisava acus-lo da recada. Ele sabia que era responsvel por sua sade e se esforaria para restabelec-la. Mas como fazer isso sem revelar o paradeiro
deles?
   Ir a Durleigh, logo aps terem fugido, seria arriscado demais. Setton mandaria uma patrulha  cidade para procur-los. Poderia levar Claire  abadia perto de
York, mas ele preferia fluo se afastar muito de Dasset. Alm disso, ela precisava de um alvio mais imediato. Por enquanto, a manteria aquecida.
   Talvez, se dormisse com o peito meio erguido, no tossisse tanto. Resignado a passar a noite em claro, Bernard a levantou do cho.
   _O que est fazendo? _ ela indagou, segurando-se com os braos em volta do pescoo dele.
   Seu rosto ficou to perto que Bernard sentia-lhe a respirao na pele.
   _Vou mud-la de lugar. Poupe sua voz.
   Sem grande dificuldade, ele sentou-se no cho, com as costas apoiadas no tronco de uma rvore. Claire ficou bem acomodada entre os joelhos levantados dele. Alis,
bem demais. Seu corpo aquecia a parte interna das coxas dele e, de l, o calor espalhava-se como lnguas de fogo. Bernard lutou contra a luxria que qualquer homem
sentiria, tendo uma mulher aconchegada entre as pernas.
   Sem dvida, no passava de luxria.
   Ao perceber onde ele pretendia que dormisse, Claire o tocou no peito.
   _Ah, Bernard, eu no...
   _Consegue respirar melhor nessa posio?
   _Sim, mas no acho...
   _Eu tambm no, mas no posso imaginar outra soluo para aliviar sua tosse.
   Os olhos cor de mbar perscrutaram as feies dele em busca de respostas s perguntas que ela no ousava fazer.
   _No vou lhe causar mal algum, Claire. Nem tomar liberdades. Preciso que voc durma para podermos enfrentar o dia de amanh.
   _O que acontecer? _ ela sussurrou.
   Bernard deu de ombros e sorriu.
   _Depende de quantos homens seu pai mandar para nos procurar e se for muito cedo. Eles podero at nos apanhar aqui dormindo.
   Ela arregalou os olhos, fazendo-o rir. Puxou-a de encontro ao peito. Sua cabea apoiou-se no ombro dele e ficou ali. Num gesto inconsciente, ele rodeou-lhe o
corpo com os braos.
   _No esquea que preciso de voc viva e saudvel quando a entregar a seu pai. A fim de receber minha recompensa, sou obrigado a cuidar bem de voc.
   _ Muito corts de sua parte _ ela comentou em tom seco. Enrolou-se bem nas capas e puxou os capuzes sobre o rosto. Bernard no deu ateno s suas palavras, preferindo
concentrar-se na soluo do problema imediato.
   Dormiria muito pouco com Claire junto a ele. Tinha prometido que no tiraria vantagem da situao, mas homem algum deixaria de imaginar qual seria a reao daquela
mulher adorvel se ele a beijasse. Ou caso a tocasse num dos muitos lugares sensveis de uma mulher. Conhecia-os bem graas a uma mulher rabe que exigia prazeres
to intensos quanto os dele.
   Havia aprendido as maneiras de satisfazer uma mulher pensando em us-las na que, um dia, seria sua esposa. Claire. A mulher que, confiante, dormia com a cabea
em seu ombro, sem imaginar o que se passava na dele. Seria mais fcil controlar-se se ela estivesse casada e no apenas noiva.
   Fechou os olhos e esforou-se para manter o controle. No importava o quanto a tentao fosse grande, ele no podia sucumbir.
   Para a prpria sanidade, tinha de pensar em Claire como filha de Setton e no sua antiga prometida. Atravs dela, ganharia a parte importante da recompensa. Mas
precisava se preocupar em devolv-la com boa sade.
   Se estivesse sozinho, poderia vagar pela mata durante dias, dormir no cho e alimentar-se com o que encontrasse. Mas Claire precisava de abrigo. Estava acostumada
a dormir numa cama macia, a ter refeies regulares e roupas secas e limpas.
   Tambm era urgente encontrar um alivio para sua tosse.
   Bernard sabia onde havia um abrigo e uma ervanria no muito longe dali. Caso o solar ainda existisse e a curandeira fosse viva. E se ele tivesse coragem de rever
o lar de sua infncia.
   Jamais voltara a Faxton depois do ataque que ceifara a vida dos pas. Revoltado e numa tristeza profunda, tinha obedecido  ordem de Odo Setton de ir para Dasset,
mas s aps lhe garantirem que a morte dos pais seria vingada, os bandidos capturados e enforcados.
   Estaria ele preparado para enfrentar o passado? Talvez no. Mas pelo bem de Claire, deveria.

   Lorde Odo Setton andava de um Lado para o outro no passadio da muralha, maldizendo a neblina cerrada que impedia a busca de Claire e Fitzgibbons. A manh inteira,
os soldados tinham percorrido a estrada e a mata sem encontrar sinal dos dois.
   Do ptio, Miles, o administrador, o chamou:
   _ Meu senhor, os homens que foram ao velho moinho j voltaram. Devo mand-los a Durleigh?
   Outro fracasso. Ele os odiava.
   _ Diga-lhes para ir ao salo. Quero falar com eles primeiro. Antes de descer, Setton tornou a olhar para os campos, cobertos de neblina, em volta do castelo
de Dasset.
   Os homens que fossem a Durleigh tinham de ser muito cautelosos e no revelar ao bispo e  autoridade judicial o propsito deles. Claire estava certa ao se preocupar
com os dois homens.
   Ora, se a filha houvesse tido juzo para deix-lo agir como queria... bem, no tivera. Da maneira mais afrontosa, ela se imiscura na questo. Agora, os dois,
Claire e o encrenqueiro Fitzgibbons, estavam soltos, criando mais problemas.
   O desgraado tinha atentado contra a vida de seu senhor, seqestrado-lhe a filha e incendiado o estbulo. Por qualquer um desses crimes, ele merecia a forca.
   E por ajudar a fuga de Bernard, Claire tambm. Ele no resistiria  tentao de passar-lhe a corda no pescoo se no fosse a necessidade de cas-la com Marshall.
   A culpa toda cabia ao bispo Thurstan. Quatro anos atrs, quando ele estava muito doente e em pnico, Thurstan tinha lhe negado absolvio se no cumprisse a penitncia:
mandar um cavaleiro s Cruzadas e ressarcir Bernard Fitzgibbons.
   Odo julgava ter agido com a maior esperteza possvel ao mandar o rapaz s Cruzadas. No era um cavaleiro e, como campons, no seria capaz de apontar a lana
sem cair do cavalo, ou de brandir a espada com coragem suficiente para amedrontar algum. Mas Thurstan no tinha feito objeo alguma sobre a escolha, especialmente
quando Setton havia prometido e especificado uma recompensa.
   Essa ltima parte ainda o exasperava. Ningum, em seu juzo perfeito, teria imaginado que Fitzgibbons sobreviveria e voltaria para cobrar a recompensa prometida
e que Setton jamais planejara pagar.
   O rapaz era impertinente como o pai.
   Mais uma vez, Setton atribuiu a morte dos pais de Bernard a um golpe infeliz do destino. Acontecera anos atrs e ele no tinha a mnima inteno de pagar mais
pelo erro.
   Afinal, ele havia cuidado do rfo, dando-lhe casa, comida e roupa. De que mais um rapaz precisava? Na verdade, Fitzgibbons devia ser grato por contar com uma
enxerga no salo seu senhor e no precisar cuidar de si mesmo.
   Nem uma nica vez, durante todos aqueles anos, Bernard tinha demonstrado reconhecimento. Saberia ele, esse tempo todo, o que acontecera no dia em que perdera
os pais? Setton achava que no e no tinha se preocupado com a possibilidade de o rapaz descobrir. At a vspera.
   Fitzgibbons havia mudado. Tornara-se homem. Cavaleiro. Uma ameaa.
   Setton abandonou o passadio da muralha, de onde no via nada, e desceu rumo ao salo.
   Ultimamente, ele tinha sido muito condescendente com Claire. Influenciado pelo maneirismo de Marshall, sem dvida. E a filha se aproveitara disso. Agora, punha
em risco a aliana dele com a poderosa famlia Marshall.
   Quando pusesse as mos nela, lhe mostraria a quem devia obrigao em primeiro lugar.

   _Onde estamos? _ Claire perguntou.
   _No Jardim do den _ Bernard respondeu.
   Ela reprimiu a vontade de rir.
   Havia passado quase a noite inteira entre os braos de Bernard e, agora, sentava-se  frente dele na sela. Para vergonha sua, no se sentia mais amedrontada
e nem com a vontade premente de escapar dele.
   Na verdade, sentia-se segura com Bernard. Insensato, sem dvida. No deveria ficar to  vontade com o homem que a tinha seqestrado a ponto de querer rir das
brincadeiras dele. Esse sossego no duraria muito, pois os soldados do pai os encontrariam e os levariam de volta a Dasset.
   Porm, por poucas horas, poderia apreciar a paz da mata e a companhia do homem de quem ela no esperara gostar tanto.
   Mesmo assim, queria saber para onde se dirigiam. Tinham se levantado muito cedo, comido pezinhos de aveia que Bernard trazia na sacola e, depois, cavalgado
devagar, durante horas, pela mata. Estava perdida e achava que Bernard tambm.
   _ Diga a verdade _ ela pediu.
   _ Voc no acreditou em mim?
   _ Ora, se o Jardim do den fosse to perto do castelo de Dasset, eu saberia. Ento, onde estamos?
   _ Ao sul de Dasset, norte de York e oeste de Durleigh.
   _ Voc est perdido.
   _ De jeito nenhum. Com esta neblina,  dificil saber, com exatido, onde nos encontramos.
   Ou distinguir leste do oeste e norte do sul, ela pensou. A neblina tambm atrapalharia a busca do pai.
   _ Estamos indo para algum destino certo?
   Aps um longo silncio, ele respondeu:
   _ Para casa.
   Era a ltima coisa que ela esperava ouvir.
   _ Voc est me levando de volta a Dasset?!
   _ No. Eu me referi a minha casa. O lugar onde meus pais viveram e morreram. Deve ter sobrado alguma parte do solar de Faxton, espero.
   Claire nunca tinha ouvido esse nome. Estranho. Achava que sabia todos da regio. Mas se fora a casa dos pais de Bernard, ele devia existir.
   _ Voc nunca mais esteve l?
   _ No tinha uma boa razo para voltar.
   _ Por que agora? Sua antiga casa no seria o lugar orde meu pai o procuraria logo?
   _ Preocupada comigo, Claire?
   Estava, sim, e isso a desagradava. Afinal, tinha tentado lhe fazer um grande favor e ele retribuira colocando ambos numa situao perigosa. Caso Bernard insistisse
em dar motivos para seu pai enforc-lo, ela no poderia salv-lo outra vez. Se pretendia ir a um lugar onde o pai certamente o procuraria, da no faria objees.
   Na verdade, deveria tentar escapar dele em vez de ficar apreciando a cavalgada atravs da neblina.
   _Claro que no estou preocupada _ mentiu. _ Onde fica Faxton? Nunca ouvi falar desse lugar, acho.
   Em tom divertido, ele repetiu:
   _Ao sul de Dasset, norte de York e oeste de Durleigh.
   Dessa vez, ela riu.
   _Ah!
   _L perto, morava uma ervanria, a sra. Morgan. Espero que ainda esteja viva e tenha um remdio para sua tosse.
   _Est e tem _ Claire afirmou ao reconhecer-lhe o nome. _Minha me sempre usa seus chs.
   _ mesmo? No me lembro de ter visto a sra. Morgan em Dasset.
   _Que eu saiba, ela nunca esteve l. Mame manda um mensageiro buscar o que precisa. Mas essa viva mora num lugar chamado Fallenwood e no Faxton.
   _E onde fica? _ indagou ele, provocando-lhe um sono.
   _Ao sul de Dasset, norte de York e oeste de Durleigh. Poderia Faxton ser, agora, Fallenwood, Bernard? Teria meu pai, por alguma razo, mudado o nome?
   Ela o sentiu dar de ombros e algo mais. Uma tenso que Bernard no demonstrara antes.
   _ possvel _ respondeu ele.
   _Quantos anos voc tinha quando saiu de l?
   _Quase doze.
   Ele ainda era uma criana quando perdera os pais. Se no lhe falhava a memria, eles tinham sido mortos num assalto. Ele havia sido feliz em Faxton? Existia amor
no seio da pequena famlia?
   Claire no tinha coragem de perguntar, pois no desejava provocar lembranas tristes apenas para satisfazer a curiosidade. No seria uma intrusa.
   Ela notou que a neblina comeava a se dissipar e viu uma lagoa a uma certa distncia. Bernard cavalgou at ela e parou na margem.
   _Eu costumava pescar truta e perca nestas guas _ ele contou.
   _Agora, esto cheias de enguias _ Claire disse, descobrindo que se encontravam num lugar conhecido por ela como Fallenwood. _ Meu pai no gosta de perca, por
isso a criao de peixes da lagoa mudou.
   _ Hum _ ele resmungou.
   Continuaram em frente e, logo depois, Bernard parou a montaria na frente de uma casa de taipa e telhado de sap. Num dos lados, havia uma horta quase s de ervas.
De um dos cantos, dois enormes gansos cinzentos aproximaram-se batendo as asas e grasnando o descontentamento.
   _ Fomos anunciados _ Bernard disse, sorrindo.
   _ E a casa da Sra. Morgan?
   _ Espero que sim.
   Uma senhora idosa apareceu  porta. Arregalou os olhos e persignou-se.
   _ Que os santos me protejam! Bernard?
   _ Sim, sou eu. Por que todos se espantam ao me ver?
   Um largo sorriso iluminou o rosto da mulher ao dar uns passos para a frente.
   _ Ah, meu rapaz, impossvel no reconhec-lo! Apeie para que uma velha mulher possa v-lo bem.
   Mal Bernard ps os ps no cho, a ervanria o abraou com fora. Sem se constranger, ele retribuiu a demonstrao de afeto. Quando ela se afastou, tinha os olhos
marejados de lgrimas.
   _Voc demorou muito para voltar, Bernard Fitzgibbons. Como  bom v-lo aqui outra vez. _ A viva levantou a cabea para Claire, que continuava montada. _ Como
est seu resfriado?
   Enquanto Claire soltava uma exclamao de surpresa, Bernard respondeu:
   _ Foi por causa dele que viemos procur-la, Lillian. A tosse dela espanta at os passarinhos dos ninhos.
   _ Ento, tire-a da sela, Bernard. Depois, esconda o cavalo atrs da casa e venha para dentro.
   _ Ela  incrvel _ Claire comentou ao firmar as mos nos ombros de Bernard.
   _ Sem dvida. E muito bom ver que algumas coisas no mudaram.
   Com um desembarao que Claire ainda achava desconcertante, ele a ps no cho.
   _ Venham, venham _ Lillian chamou.
   _ V entrando enquanto levo Cabal l para trs _ disse Bernard.
   Claire acompanhou a sra. Morgan, Lillian como Bernard a chamava, e sentou-se na cadeira, perto do fogo, que ela apontava.
   _ Ento restou a tosse? _ a ervanria perguntou com suavidade.
   _ Como sabe de meu resfriado?
   Lillian riu enquanto remexia numa caixa grande de madeira.
   _ Minha menina, venho preparando seus chs desde que voc era do tamanho de meus gansos. Acha que eu no saberia de seu resfriado destes ltimos dias?
   Ainda confusa, Claire perguntou:
   _ Ento, sabe quem eu sou?
   _ Claro. Lady Claire. Quando sua me manda buscar alguma coisa sempre avisa para quem . Os chs que preparo para voc so diferentes dos outros. Aprendi logo
que voc no podia usar certas ervas. _ Ps algumas folhas e ptalas de flores na mesa. _ Sabe, fiquei muito aliviada quando sua me parou de pedir ungentos para
voc.
   Claire ficou tensa ao lembrar onde eles eram aplicados, como lhe aliviavam a dor e cicatrizavam as equimoses. Percebendo sua reao, a viva rodeou a mesa e segurou-lhe
as mos.
   _ Acho que a constrangi. Por favor, no me leve a mal. Fui sincera no que disse.
   Claire sentiu-se melhor e sorriu. Mas continuava sem entender como havia sido identificada por algum que nunca a tinha visto.
   _ Como sabia que era eu na sela com Bernard? _ indagou.
   _ Ah, esta manh est sendo bem interessante...
   _ Imagino _ Bernard disse da porta.
   Alarmada, Claire olhou para ele. H quanto tempo estava ali? O que tinha ouvido? Ou entendido?
   _ Os homens de seu pai estiveram aqui _ ele informou.
   _Notei marcas recentes de cascos de cavalos na frente da casa. Por isso, Lillian sabia que voc estava comigo. S no entendo como me reconheceu to depressa.
Fiquei longe daqui tantos anos.
   Ela apertou e largou as mos de Claire a fim de ir para a frente de Bernard.
   _Voc  a imagem de seu pai. Qualquer pessoa que tenha conhecido Granville saberia que voc  filho dele se o visse, Bernard. _ Cruzou os braos. _ Mas resta
saber se voc herdou o carter e a fora moral dele.
   _Como assim?
   _De quanto voc se lembra do dia em que seus pais morreram?
   _De cada grito _ respondeu to baixo que Claire mal o ouviu.
   _timo. Ento, com um pouco de ajuda, talvez Fallenwood volte a ser Faxton.

   CAPTULO 6

   Bernard tentou afastar as lembranas do assalto e calcular o que Lillian poderia querer dele. Requisitar a posse de Faxton. Gostaria de ter esse direito.
   O pai, Granville Fitzgibbons, o mantinha, pagando a Odo Setton o salrio de um cavaleiro e vinte barris de peixe salgado por ano. Setton, por sua vez, o fazia
ao bispo de Durleigh, mas quanto pagava, Bernard ignorava.
   Com a morte de Granville, as terras tinham voltado para as mos de Setton. Quando tambm morresse, a propriedade retornaria ao bispo. Se o falecido deixasse um
filho, este poderia herdar os privilgios e os deveres do pai.
   No caso de Bernard, Setton tinha preferido ficar com Faxton e dar abrigo ao filho de seu cavaleiro falecido. Era um direito seu como senhor feudal.
   Lillian devia saber disso, mas o fitava como se esperasse que ele, com fora de vontade e a espada, revertesse Fallenwood para Faxton.
   _No posso exigir o que no  meu. E na situao existente entre mim e Setton, no espero que venha a poder _ Bernard declarou.
   _Bernard...
   No querendo ouvir mais nada, ele a interrompeu.
   _Trouxe Claire at aqui apenas para lhe pedir uma poo para sua tosse. To logo ela a tenha, iremos embora. No vou exp-la, Lillian, e ao povo de meu pai, a
nenhum perigo.
   _ Voc ouviu o que acabou de dizer? O povo de seu pai. Como filho dele, voc deveria morar no solar.
   _Ele continua de p?
   _ Precisa de umas reformas. Mas seu pai o construiu para durar a vida dele e a sua. Com um pouco de esforo, voc poderia torn-lo habitvel novamente.
   Bernard sacudiu a cabea.
   _ Por favor, d a poo a Claire.
   Ao ver Lillian disposta a insistir, ele foi para fora. No adiantava discutir. Ela pedia o impossvel.
   _ Teimoso. Exatamente como sir Granville _ ele a ouviu dizer.
   A comparao o fez sorrir. De fato, o pai era teimoso e queria tudo a sua maneira. Mas tambm tinha sido um homem justo e amoroso. Por isso, seu modo de agir
beneficiava as pessoas e provocava o orgulho do filho e de Alice, a mulher.
   Bernard olhou para a estrada, na direo onde a casa de sua infncia prometia abrigo para aquela noite. Entre as paredes de pedra do solar, que os pais tinham
amado e defendido com a prpria vida, as lembranas seriam alegres e pesarosas ao mesmo tempo.
   Nunca havia se perdoado por ter sobrevivido ao ataque que os vitimara, embora soubesse que o sentimento de culpa fosse injustificvel. Mas o corao jamais deixara
de perguntar: "Por qu?" No poderia mudar-se para l. Apenas passar aquela noite. Talvez, duas. Os homens de Setton voltariam.
   Ele apanharia um coelho ou uma enguia para o jantar. Claire teria um teto sobre a cabea.
   Ele e Claire. Num solar de pedra. Compartilhando uma refeio. Sacudiu a cabea ao perceber que a fantasia, sonhada tantas vezes, seria realidade por uma noite.
   Desde o dia em que Setton lhe prometera a recompensa, ele se via como o proprietrio de vrias braas de terra, nas quais erguia-se um solar de pedra. Seria tolice
negar que havia baseado os sonhos na casa de sua infncia.
   Na vspera, at tinha pensado em pedir a Setton para inclui-lo na recompensa. Mas fora preso na masmorra. E solto por Claire.
   Por qu? Compaixo? Para irritar o pai? Por ordem dele?
   Bernard caminhou entre os canteiros da horta. Abaixou-se e arrancou um matinho de salsa.
   Quando menino, ia ali com freqncia. A ltima vez fora numa noite clara de vero, com a ardncia de fumaa no peito e o eco da morte nos ouvidos. O pai lhe havia
dito para fugir e ele obedecera.
   E voc ainda est fugindo.
   Talvez no. Quem sabe tinha parado na Terra Santa. L, os pensamentos concentravam-se todos no solar que havia abandonado anos atrs. At imaginara Claire ao
lado da lareira onde a me costumava sentar-se. E filhos a seus ps. Ela sempre estivera no recndito de sua mente. E agora estava prestes a lev-la ao lugar onde
costumava visualiz-la como esposa, amante e me de seus filhos. Insensatez.
   Porm, estariam seguros l. Melhor do que passar outra noite ao relento. E nas seguintes?
   Impossvel ficar no solar muito tempo. Seriam descobertos.
   Tambm, ele precisava ir a Durleigh a fim de arranjar um mensageiro para levar o pedido de regaste a Dasset. Na cidade, precisaria tomar cuidado. Soldados de
Setton deveriam estar l procurando-o e at poderiam dar queixa  autoridade judicial. Simon ficaria surpreso e bravo com o que ele tinha feito.
   Mas alm de arranjar um mensageiro, ele precisava vender unia relquia ou duas a fim de ter dinheiro para comprar comida. Teria coragem de entrar na Catedral?
Como seria o novo bispo?
   Aquela questo do resgate no ia ser to fcil como tinha imaginado.

   _ Ento, o que acha de nosso Bernard? _ Lillian perguntou enquanto esmagava folhas e ptalas de flores numa tigelinha de madeira. - Claire notou-lhe o tom de
orgulho e lembrou-se de sua efusivdade ao receber Bemnard.
   _Nosso? Ele  seu parente?
   _Bem, eu o ajudei a nascer, por isso me sinto um tanto maternal em relao a ele. Bernard vinha sempre aqui. Quando estava preocupado, ocupava-se em tirar matinhos
de meus canteiros. Eu no ficaria surpresa se ele estivesse fazendo isso agora.
   Claire resistiu  tentao de ir verificar. Os problemas de Bernard no mais lhe diziam respeito. Tinha de se preocupar com sua volta para Dasset. Lillian poderia
ajud-la?
   _ Os soldados de meu pai contaram por que estavam nos procurando?
   Lllian largou a tigelinha na mesa e foi at a lareira, onde encheu uma caneca com a gua que fervia na chaleira.
   _ Eles disseram apenas que Bernard tinha escapado da masmorra e pegado voc quando fugia do castelo. Um golpe de sorte sua, eu acho.
   _ Sorte? Ele me seqestrou!
   Rindo, Lillian voltou para perto da mesa.
   _ Por que Setton o prendeu na masmorra?
   Claire irritou-se com a falta de simpatia da ervanria por sua situao. Num tom seco, respondeu:
   _ Por ter ido s Cruzadas, Bernard exigiu uma recompensa que, segundo ele, meu pai tinha lhe prometido. Meu pai negou e ficou bravo quando Bernard insistiu.
   Lillian ps parte da mistura esmagada na gua fumegante da caneca.
   _ Ah, ele devia estar fantstico! Bernard, quero dizer.
   Claire aceitou a caneca que Lillian lhe oferecia e tomou um gole. A infuso desceu pela garganta, dando-lhe uma sensao de bem-estar. Sem dvida, a mulher executava
milagres com suas ervas. Porm, a tolerncia com a atitude de Bernard a desagradava.
   _ Bernard empurrou dois guardas, deu um passo ameaador para meu pai e fez meno de desembainhar a espada. Por causa disso, levou uma pancada na cabea e foi
parar na masmorra.
   _ Sempre considerei nosso Bernard audacioso e seguro de si. Eu gostaria de ter visto a cena.
   _ Audacioso? O Bernard Fitzgibbons que eu conhecia jamais teria ameaado meu pai. Ser que estamos falando do mesmo homem?
   _ Eu me refiro ao menino antes de ele ir morar em Dasset. A morte dos pais o afetou profundamente. Sempre rezei para que ele recuperasse a ndole corajosa. Parece
que conseguiu.
   Disposio de esprito. Era o que faltava ao Bernard que ela conhecia. Ele sempre obedecia s ordens sem reclamar e lhe dava a impresso de ser solitrio.
   Se aquela mulher sabia da tristeza de Bernard e afirmava ter afeto materno por ele, por que nunca tinha ido v-lo em Dasset? Alis, Claire no se lembrava de
ter visto algum ido procurar Bernard em Dasset. Conhecia muitas pessoas das propriedades do pai, mas ningum de Fallenwood.
   _Por que as pessoas daqui nunca foram visitar Bernard?
   Lillian sacudiu a cabea.
   _Seu pai no permitia. Afirmava que, ao nos ver, o menino ficaria mais triste ainda. No acreditvamos, mas no tnhamos escolha. Como est sua garganta?
   A irritao tinha passado.
   _Muito melhor, obrigada.
   Lillian tornou a mexer na caixa de madeira e tirou dela uma sacolinha de couro onde ps o resto das folhas e ptalas esmagadas.
   _Se a tosse voltar, ponha um pouco disto num caldo de carne quente.
   Claire guardou a sacolinha no bolso interno da capa. S poderia obedecer s instrues se estivesse em casa, pensou. Mas conversar sobre a infncia de Bernard
com Lillian no a estava ajudando a conseguir uma maneira de voltar para l.
   _Sra. Morgan, eu...
   _Ah, por favor, me chame de Lillian como todo mundo.
   _Est bem. Lllian, compreendo seu afeto por Bernard e no quero que ele seja capturado e levado de volta para Dasset. Mas eu preciso voltar o mais depressa possvel
e...
   _Para qu? A meu ver, voc deveria se considerar feliz por estar longe de seu pai. Para algum que aprecia o romantismo e o refinamento da corte de Eleanor de
Aquitaine, voc deveria estar gostando desta aventura.
   Claire sentiu as faces queimarem. Todos conheciam seu fascnio juvenil por Eleanor?
   _Como sabe disso?
   _Ora, Claire, voc  a caula e a filha mais teimosa de lorde e lady Setton. No deve ignorar que histrias a seu respeito so muitas e correm por a.
   _Voc quer dizer maledicncia, no ?
   _Como queira.
   _Bernard me tirou de Dasset contra minha vontade e pretende me trocar por um bom resgate. Isso no  romntico!
   _ Sua famosa Eleanor no foi capturada por um lorde que exigia o pagamento de resgate?
   No exatamente. Eleanor tinha sido presa em castelos por lordes poderosos, geralmente a pedido de seu marido a fim de impedi-la de se imiscuir nos negcios dele.
Jamais haviam pedido regaste para solt-la. Apenas a morte do marido a tinha salvado.
   Clare levantou-se.
   _ No. Ela nunca foi libertada atravs de regastes. Lillian, preciso voltar logo a Dasset. Voc me ajudar?
   _ Ah, minha menina! O que uma velha mulher pode fazer contra um homem determinado a obter uma recompensa?
   _ Sei. No vou esquecer sua m vontade em me ajudar, era. Morgan.
   A velha senhora sorriu com expresso triste.
   _ Acredito, Claire. Lembre-se de pr as ervas num caldo quente. Elas so mais eficientes dessa forma.
   Com a cabea erguida, Claire saiu da casa.
   De fato, Bernard estava ajoelhado na horta.
   Claire levantou a saia e correu na direo oposta.
   _ Claire, pare!
   Bernard no se surpreendeu por ela ignorar a ordem. Pelo menos, estava correndo no rumo certo. Cabal no teria de suportar o peso de duas pessoas pela metade
do caminho ao solar.
   _ Sinto muito, Bernard, eu a aborreci. Ela ficou brava comigo por no ajud-la a voltar para Dasset. Cuide dela _ Lillian recomendou.
   Ele inclinou-se e a beijou no rosto.
   _ Cuidarei, sim. -Ela levou algo para a tosse?
   _ Sim. Misture as ervas a caldo de carne quente. Para onde vocs vo?
   _ Passaremos esta noite no solar. De l? _ Deu de ombros.
   _Talvez a Durleigh ou York. Pea a um homem daqui para apagar estas marcas de casco de cavalo.
   _ No se preocupe. Volte quando puder.
   _ Tirei os matinhos do canteiro de salsa. O de manjerico precisa ser limpo.
   Lillian riu.
   _ V embora antes que Claire se afaste muito. Bernard seguiu pela estrada num passo moderado. Observava as pegadas de Clare na terra ao mesmo tempo que lutava
contra as lembranas que ameaavam domin-lo  medida que chegava mais perto do solar.
   Ele havia estranhado o fato de Claire no fugir de manhzinha. Algo a tinha impedido. Talvez a neblina. Era preciso faz-la acreditar que ele no lhe faria mal
algum. E, to logo o pai cedesse, ela voltaria para o castelo. Quanto mais depressa o negcio fosse feito, melhor para ambos.
   Avistou poeira adiante na estrada. Claire. Encetou um galope.
   Ao vencer uma curva, ele a viu. Corria depressa. Sem dvida, ela o ouviu, pois olhou para trs. Virou-se  direita e entrou na mata.
   No lugar onde suas pegadas terminavam, Bernard desmontou e amarrou Cabal ao galho de uma rvore. Sem dificuldade  alguma, comeou a seguir seus sinais, percebidos
com os olhos pelos ouvidos.
   _Claire! No adianta fugir!
   Ele no ouviu resposta, exceto o estalar de mais galhos secos. Quando a viu, gritou:
   _Claire, pare! Vai se machucar ou piorar a tosse!
   _V embora e me deixe em paz! _ ela respondeu, apressando mais os passos.
   Bernard conseguiu segurar-lhe a capa quando ela se curvou fim de passar por baixo de um galho. Ela se retorceu, tentando escapar, mas o movimento abrupto o fez
perder o equilbrio e cair, puxando-a junto. Bernard prendeu-lhe as pernas com as dele e segurou seus pulsos.
   Claire arfava. O peito subia e descia. Negava-se a fit-lo, mas ele no podia desviar os olhos de seu corpo. Magnfico, pensou ele, encantado com o ritmo de sua
respirao e notando como os seios, a cada inalao do ar, foravam seda verde de seu vestido. Um caberia bem na mo dele, e palma ansiava para provar a conjetura.
   Se abrisse sua capa no decote, ela poderia respirar melhor. Bernard o fez, roando os dedos na pele macia de seu pescoo.
   O desejo, profundo e ardente, o invadiu. Ela respirava com lbios entreabertos, tentando-o a captur-los e roubar-lhe resto do flego.
   _Claire _ murmurou numa voz rouca.
   Ela virou-se e o fitou, indignada, os olhos cor de mbar faiscando de fria.
   _Eu te odeio.
   _No  verdade _ ele afirmou sem muita convico.
   _Odeio, sim.
   Bernard recusava-se a acreditar que a mulher a quem aconchegara entre os braos durante a noite o odiasse. Na verdade, achava que Claire seria incapaz de tal
sentimento.
   _Admito que voc esteja muito zangada comigo, mas duvido que me odeie.
   _Pois pode ter certeza disso _ ela garantiu, mas j num tom menos rancoroso.
   Tambm j respirava melhor.
   Ele deveria se levantar, mas no se mexeu.
   _Voc quer ir para casa. Por isso, diria e faria qualquer coisa para me forar a lev-la at l.
   _Talvez.
   Bernard chegou mais perto e tirou uma folha de seus cabelos. Gostaria de tirar tambm a rede que os prendia e v-los cados nos ombros.
   _Mesmo se quisesse, Lillian no poderia t-la ajudado. Eu no permitiria _ ele declarou.
   _Ela nem tentou. Sou filha de seu senhor feudal e ela preferiu ser leal a voc e no a mim.
   Claire, como filha de Setton, esperava obedincia de qualquer vassalo do pai.
   _Lillian ocupa um lugar muito especial em meu coraao, como eu, no seu. Ela jamais trairia minha confiana.
   _Seu afeto foi mal empregado. Ela alegou que tinha amor materno por voc, mas nunca se deu ao trabalho de ir a Dasset para v-lo. Ningum de Faxton foi. Eles
o abandonaram.
   Bernard percebeu sua estratgia, mas negava-se a ficar contra os bons amigos dos pas.
   _Antes de Setton me levar para Dasset, Lillan me disse que, se eu jamais precisasse dela ou de algum de Faxton, bastaria vir at aqui e tirar os matinhos de
sua horta. Eu nunca apareci. Portanto, eles podem afirmar que eu os abandonei tambm.
   _ Voc era apenas um menino.
   _ Uma pessoa que diz me odiar no deveria inventar desculpas para meu comportamento.
   Ela ergueu a mo e roou-o no queixo.
   _ Voc era um menino.
   No mais, e sim um homem cujo corpo queimava. Claire faria idia do que lhe provocava ao toc-lo? Ou da tentao terrvel que oferecia, com as roupas desalinhadas,
ali no cho da mata? At onde estaria disposta a ir a fim de conseguir o que queria?
   E ele, at que ponto a deixaria ir para convenc-lo, sem que perdesse a sanidade? Um beijo? Um abrao? Mais? Quanto?
   Ps a mo sobre seu corpo, abaixo dos seios que desejava acariciar levemente, mas com presso suficiente para excitar os mamilos. Ela no recuou e nem afastou
a mo do queixo dele.
   Uma indagao surgiu-lhe nos olhos cor de mbar. Ele respondeu com um roar de lbios. Claire estremeceu e levou a mo do queixo para trs da cabea dele.
   Um a leve presso na nuca foi todo o encorajamento de que ele precisava. Beijou-a longa e profundamente. Sua falta de jeito inicial mostrava a inexperincia.
Mas enquanto Bernard tentava se controlar, ela retribua o beijo completamente. Quando a sentiu arquear o corpo, ele se atreveu a fazer a carcia que a mo tinha
suplicado. To firme. To amplo.
   Bernard cedeu ao xtase do beijo de Claire, sem se importar com suas razes para oferec-lo. Tambm no se indagava por que ela pressionava o seio contra a mo
dele, o incendiava com o beijo apaixonante e o seduzia.
   Com a ponta da lngua, tentou entrar em sua boca. Ao ser aceito, ele no pensou em mais nada.
   Claire sabia que estava no cho da mata, sendo beijada por Bernard, cujas mos a acariciavam onde no deveriam. Contudo, no existia nenhum outro lugar em que
desejasse estar a no ser ao lado do homem de quem fugira.
   Teria perdido o juzo? Sua raiva fora aplacada pelo fogo da luxria, sobre o qual havia sido avisada, mas que lhe despertava a curiosidade? Sem dvida, tratava-se
de uma fora poderosa, capaz de transformar um santo em pecador. Ou de impedir uma mulher a dizer no a um homem e suplicar pela preservao de sua honra. S uma
libertina aceitava prazerosamente as liberdades ntimas de um homem.
   Ento, ela era urna, embora nunca houvesse suspeitado. Ou o beijo de Bernard podia tentar uma mulher a abandonar a honra. Mas Claire no se importava que ele
lhe houvesse mostrado tal poder. Alis, sentia-se satisfeita, pois, caso contrrio, nunca o descobriria.
   Porm, no podia ignorar a voz que lhe suplicava para refletir. Estava noiva e prestes a se casar. Eustace Marshall se horrorizaria se a visse ali, ofegante e
deliciando-se com a invaso da boca por Bernard.
   Aquilo no estava certo. No fazia sentido. Tinha de parar.
   Ele abandonou-lhe o seio e, depois de tirar a rede, embrenhou os dedos em seus cabelos.
   Claire empurrou-o pelo peito at interromper o beijo.
   _ Bernard, eu no posso... _ comeou, mas foi interrompida pela tosse.
   Ele recuou. O olhar esgazeado de desejo desapareceu. Novamente preocupado, a fez sentar-se e massageou suas costas at o acesso passar.
   _ Ah, pacincia. Talvez da prxima vez _ disse ele.
   _ No haver outra. No permitirei que voc me seduza.
   _ Seduzi-la? Discordo, minha lady. Voc no s provocou meu beijo como tambm no mostrou repulsa. Desejava tanto quanto eu.
   _ De forma alguma o provoquei. E voc passou dos limites de um simples beijo.
   _ Diga que no gostou.
   Honestamente, ela no podia. Apanhou a rede e prendeu os cabelos.
   _ Sou quase uma mulher casada. Um homem corts respeitaria meu noivado.
   _  por causa de seu casamento com Eustace Marshall que quer tanto voltar para casa _ Bernard afirmou ao levantar-se e limpar a roupa. _ Ele pode t-la, mas
s depois de eu receber minha recompensa. Em vez de tentar me seduzir, a fim de que a leve de volta a Dasset, acho melhor empregar suas energias refletindo sobre
a melhor maneira de o resgate passar para minhas mos.
   _ Eu no o seduzi! Foi voc quem me seduziu _ Claire declarou, erguendo-se tambm.
   _ Foi mesmo?
   Ele lhe segurou o rosto entre as mos e beijou-a outra vez.
   Inflexvel. Exigente. Claire esqueceu-se de tudo e sentiu as pernas fraquejar. Ouviu-se suspirar quando Bernard, de maneira abrupta, terminou o beijo e a empurrou
para trs.
   _ Se eu, alguma vez, tentar seduzi-la, o farei de maneira to completa que nem sua tosse me interromper. Voc me suplicar pelos prazeres de uma unio absoluta.
Prometo.
   Apontou para a estrada numa ordem para que ela retrocedesse., Clare obedeceu com pernas trmulas, a promessa
repercutindo em sua mente.
   Como temia, o beijo de Bernard a fazia esquecer quem era e onde estava. No poderia deixar que ele a beijasse outra vez. Mas se ele quisesse e a tocasse, como
poderia impedi-lo?

   CAPITULO 7

   Mais uma vez cavalgando, Claire conjeturou como escapar daquela confuso. Precisava voltar depressa para casa, mas a insinuao de Lillian, para ficar fora do
alcance do pai, a preocupava.
   Sem dvida, ele estava furioso com sua audcia de soltar Bernard no dia anterior. Teria sido apenas na vspera?
   Porm, a necessidade de voltar se tomara urgente depois do beijo de Bernard. Ficar ao alcance dele era quase to perigoso, embora por motivos diferentes, quanto
o retomo para Dasset.
   _Precisamos fazer um pacto, Claire - ele sugeriu s suas costas. - No posso vigi-la o tempo inteiro, e voc necessita se sentir menos oprimida. Se chegarmos
a um acordo, talvez voc desista de escapar.
   Desconfiada de que tal pacto no Lhe fosse favorvel, ela indagou:
   _Quais seriam os termos?
   _Aqueles geralmente estabelecidos entre um refm por quem se pede um resgate e seu captor. Eu lhe prometo proteo e um tratamento digno de sua condio social.
Em troca, voc dar sua palavra de que ficar comigo at eu receber o ouro.
   _Voc est brincando.
   _De jeito nenhum. Lembre-se de sua Eleanor. Quando o filho, o Valoroso, foi aprisionado ao voltar das Cruzadas, ela no levantou os fundos para pagar o resgate?
   _Implorou  Inglaterra inteira - Claire concordou, percebendo aonde Bernard queria chegar.
   _O rei Richard fez um pacto com seu captor. No tentaria fugir se fosse bem tratado. Durante meses, ele gozou a hospitalidade do castelo do lorde alemo. Enquanto
isso, a me angariava, entre nobres e plebeus, os fundos para o resgate. Quando este foi pago, os dois se separaram como amigos.
   _O rei, ento, veio viver na Inglaterra. Certo?
   _Sim.
   _Percebeu a vantagem de fazermos um acordo? Receberei meu dinheiro e voc voltar para casa. S precisamos da cooperao de lorde Setton.
   Esse era o ponto crucial. O pai.
   _A diferena  que Eleanor e a Inglaterra queriam a volta do rei Richard. No estou muito segura da vontade de meu pai de me ver novamente.
   _Ele no quer muito a tal aliana com Eustace Marshall?
   _Verdade.
   Por essa nica razo, o pai seria capaz de concordar com a exigncia de Bernard. Ao facilitar os interesses dos filhos, Odo Setton conseguiria prestgio e dinheiro
suficientes para freqentar a corte e o crculo da nobreza como achava merecer.
   _A aliana com Marshall vai ajudar meu pai a obter um alto comissionamento para Julus na corte e uma posio semelhante para Geofrey na igreja.
   _Ento, no prprio interesse, lorde Setton pagar o resgate, a ter de volta e ficar livre de mim.
   Caso ele pudesse levantar a quantia sem onerar Dasset. E se ela chegasse a tempo para se casar com Marshall, Claire refletiu.
   _Quanto voc vai pedir? - ela quis saber.
   _Pensei que seu peso em ouro seria uma boa soma.
   _Seu peso?
   Claire avaliou a reao furiosa do pai.
   _No acha isso um tanto exorbitante?
   _De jeito nenhum. Bem apropriado.
   _No vai ser fcil para meu pai juntar tantas moedas de ouro.
   _Umas duas semanas, calculo. Se ficar faltando um pouco, farei um abatimento.
   No era muito tempo, mas Bernard estava certo. Podia ser feito.
   A quantia no tinha importncia, pois o pai no ia querer pagar nada. E se o fizesse, tentaria reaver tudo depois. Talvez dela. Em contuses e sangue.
   Por que no voltar s aps Bernard receber o resgate? Adiaria o castigo.
   Na verdade, ele merecia uma recompensa pelos anos em que lutara nas Cruzadas, o pai tendo ou no, prometido uma. Ao se casar com Marshall, ela tambm teria uma.
   Se mantivesse sua parte do pacto, Bernard tambm o faria? Provavelmente. Se no a devolvesse ao pai, ele no receberia o resgate.
   Claire quase riu ao perceber que tanto o pai quanto Bernard precisavam dela para realizar seus planos.
   A proposta de Bernard era plausvel, exceto pelo fato de ter de passar duas semanas na companhia dele.
   Sentia-se atrada por ele como jamais acontecera com homem algum. Embora ela no tivesse provocado o beijo, no podia negar a reao rpida e forte do corpo.
Ou a perda do bom senso e a vontade de toc-lo.
   Duas semanas. Conseguiria passar esse tempo ao lado dele sem ceder  tentao de acarici-lo? Ele evitaria beij-la outra vez? Isso era mais importante para sua
paz de esprito. Se Bernard a apanhasse distrada e lhe desse outro beijo estimulante, seria capaz de repudi-lo ou, como ele prometera, suplicaria por uma unio
absoluta?
   S de pensar nisso, Claire foi invadida por uma onda de calor.
   _Bernard, sua proteo, em troca de minha promessa de no fugir, ser tambm contra voc?
   _Contra mim?!
   _Quero a garantia de que voc no tentar me seduzir outra vez.
   _Nada de beijos?
   _Nenhum.
   _E deitar no cho da mata?
   Ora, o tolo a estava provocando!
   _Nem fale nisso. No sou uma rameira para ser tratada levianamente.
   Suas palavras o fizeram vacilar.
   _Est bem. Vou me esforar se voc prometer no me tentar alm de minha capacidade de autocontrole.
   Quanto a isso, Bernard no precisava se preocupar. Ela no fazia idia de como tentar um homem a beij-la e, muito menos, a perder o controle.
   _ Eu lhe dou minha palavra, Bernard Fitzgibbons.
   _ Ento, temos um pacto, lady Claire. Bem a tempo, pois estamos chegando.
   Ela prestou mais ateno ao lugar. Um pouco adiante, via um solar de pedra. Pelo tamanho, calculou que tinha apenas um cmodo. Trepadeiras espalhavam-se pelas
pedras e quase cobriam a porta de entrada. Ningum passava por ela havia muito tempo, talvez anos.
   O telhado estava num estado deplorvel.
   Um pouco afastado, ficava um poo no que deveria ter sido um ptio agradvel. De longe em longe, via-se uma flor acima do matagal.
   Bernard parou Cabal perto da porta.
   _ Bem-vinda ao solar de Faxton, minha lady - ele disse numa voz desprovida de emoo.
   Ele havia temido lembranas do fogo. Ou da noite de caos. Em vez disso, mentalmente via a me sorrindo-lhe da porta e o pai acenando de perto do poo.
   No uma apario fantasmagrica. Apenas recordaes das duas pessoas que mais amara no mundo, num dia normal. Mesmo assim, a tristeza confrangia-lhe o corao.
   _ E um solar muito bonito, Bernard.
   Ela mostrava-se gentil. Uma pena que no o tivesse visto quando o telhado estava inteiro, e o ptio, florido.
   Desmontou e levantou os braos para ajud-la. Seus olhos cor de mbar o fitaram com uma certa hesitao.
   _ Bernard, voc est bem?
   O que poderia lhe dizer se as palavras passassem pela garganta contrada? Que ouvia as vozes e o riso de crianas brincando, filhos dos arrendatrios que vinham
ajudar os pais? As mulheres, dentro de casa, teciam, batiam manteiga ou trocavam a palha do cho. Os homens, no campo, aravam, semeavam ou colhiam, dependendo da
estao.
   Alice Fitzgibbons orientava as mulheres, Granville, os homens. A vida fora muito boa para um menino crescer sob os cuidados e o amor deles.
   Bernard ps Claire no cho e afirmou:
   _ Ficarei bem.
   Percebeu que estava certo. A tristeza continuava profunda, mas em vez de pensar nos acontecimentos terrveis, como fazia antes, passara a lembrar-se dos bons.
   Bernard observou a casa e viu que precisava arrancar parte das trepadeiras para poder abrir a porta. Cutucou as paredes de pedra e lugares onde a argamassa tinha
se soltado. De um modo geral, a casa continuava slida, construda para geraes, como Lillian afirmara.
   Na parte de trs, ele tocou a pedra enegrecida. Ali, os bandidos tinham posto fogo numa pilha de palha e galhos secos a fim de atrair sir Granville para fora.
Tinham conseguido.
   Quem seria o chefe deles? Que bens sir Granville possua para que tirassem a vida de duas pessoas?
   Setton havia lhe dito que os bandidos tinham sido capturados e enforcados, mas no revelara detalhe algum. Criana ainda, e muito triste, Bernard no havia feito
pergunta alguma. Agora, gostaria de faz-las, mas no teria oportunidade.
   Uma leve presso na mo o fez olhar para ela e ver a de Claire. Fazia tempo que a segurava? No se lembrava de t-la pegado. Levantou o olhar e deparou-se com
seu sorriso.
   _ Veja as rosas, Bernard - disse ela, apontando para o poo. Pequenas e amarelas, do tipo trepadeira, das haviam tomado conta de um dos lados do poo.
   Ele riu e levou Claire ao antigo jardim da me.
   _ Papai gostava de provocar mame por causa das rosas. Ela se desdobrava em cuidados, mas as roseiras no davam mais do que trs flores por ano. Agora, veja como
esto.
   _ Talvez por causa disso, tenham ficado fortes e sobrevivido -  Claire comentou ao apontar para um canto do jardim. - Havia uma trelia ali?
   Aproximaram-se do que restava da armao de madeira e ela afastou o mato em volta.
   _O que estava plantado aqui?
   _Sei l, Claire, faz tanto tempo. Era uma trepadeira que dava uma flor azul e pequena, mas no lembro do nome.
   _ Ah! - ela exclamou, curvando-se e apanhando uma. Bernard a pegou e prendeu-a na rede de seus cabelos.
   _Vamos entrar? - ele convidou ao tomar sua mo e beijar a ponta dos dedos.
   Um gesto gentil ao qual ela no poderia fazer objeo.
   _Muito obrigado pela distrao - ele murmurou. - Agora, vou tirar um pouco das trepadeiras da porta.
   _Voc estava com ar triste e eu no sabia como ajud-lo.
   _No entendo por que voc queria fazer isso.
   Claire deu de ombros.
   _Acho que est se tomando um hbito. Impedi Henry de lhe dar o segundo golpe e depois ajudei-o a fugir da masmorra. J salvei sua vida duas vezes - acrescentou
sorrindo.
   _Quer dizer que estou em dbito com voc?
   Ela o fitou com olhar matreiro.
   _Ser que no mereo minha prpria recompensa?
   Bernard espalmou as mos no ar.
   _Minha lady, no passo de um pobre cavaleiro sem nada de valor para lhe oferecer.
   Exceto o presente de casamento que lhe trouxera, lembrou-se.
   Na sacola, alm de roupas, apetrechos de viagem e as relquias, Bernard trazia dois presentes. Um para Julius, que ele julgara ser seu novo senhor feudal, O
outro para Claire, que pretendera dar no dia do casamento.
   Deveria entreg-lo? No iriam mais se casar, mas no havia motivo para Claire no receber o presente comprado especialmente para ela.
   Bernard baixou as mos.
   _Na verdade, tenho algo para voc. Um presente que comprei no Egito.
   O olhar matreiro de Claire foi substitudo pelo de espanto.
   _ mesmo? L no Egito?
   _Sim.
   _Mas por qu?
   Eu queria que voc o usasse para mim.
   Idia desgraada, refletiu ao virar-se e ir para a porta do solar. Tinha comprado o presente pensando em Claire tanto quanto em si mesmo.
   Bernard agarrou um punhado da trepadeira, mas no chegou a arranc-lo. Seria melhor no mexer muito na planta para que ningum suspeitasse da entrada de pessoas
na casa.
   _Bernard?
   Ele tinha sido indelicado ao se afastar sem uma explicao. Deveria se desculpar.
   _Sinto muito insistir, mas calculei a resposta para minha pergunta e quero saber se acertei. Era para ser meu presente de casamento, no era?
   Ele suspirou.
   _Planejei como tal. Mas desde que cheguei, nada saiu como eu imaginava. Com a recompensa, voc ou aqui. Perdoe-me por minhas maneiras rudes, Claire. Ando muito
nervoso para me lembrar de ser atencioso.
   Claire ergueu os ombros e a cabea, assumindo uma postura rgia.
   _Avaliando tudo, voc tem se sado bem. - A expresso matreira voltou. - Bem, nem tudo. Considero meu seqestro uma grande falta de considerao. Entretanto,
estou disposta a ser condescendente e compreensiva se receber uma recompensa. Ah, Bernard, voc pode dar meu presente? Por favor?
   Ela pediu com tanta graa que Bernard no resistiu.
   _Est bem. To logo estejamos acomodados l dentro, voc receber seu pacote.
   _Maravilhoso! O que posso fazer para ajudar?
   Juntos, comearam a afastar os ramos ordenadamente. Era um trabalho vagaroso, mas Bernard achava que valia a pena.
   _ Acho que j podemos abrir a porta - Claire disse depois de algum tempo.
   _ Ainda no. Voc e eu conseguiremos passar, mas Cabal no.
   _ Cabal?! - ela exclamou, franzindo o nariz.
   _ Ele no pode ficar aqui fora.
   _ Mas lev-lo l para dentro?
   _ Trata-se apenas de um cavalo, e por uma nica noite. Pense nos arrendatrios de seu pai que abrigam bois, carneiros e galinhas em seus casebres. Sua experincia
no vai ser muito ruim, Claire.
   Ela lhe dirigiu um olhar incrdulo, mas continuou trabalhando.
   Quando a porta ficou livre, Bernard levantou a tranca e abriu-a.
   Passar por ela foi quase como voltar ao passado. Parte do telhado se fora, e algum tinha tirado o dossel e as cobertas da cama. Uma panela de ferro estava ao
lado da lareira. Utenslios de madeira e de cermica espalhavam-se pelo cho. A mesa e os dois bancos continuavam no mesmo lugar, bem como a vassoura usada pela
me. No console da lareira estava o caneco de estanho, com tampa, do pai.
   Bernard atravessou o aposento e apanhou do cho uma caneca de folha amassada. Depois de quatorze anos, o solar deveria estar vazio. Muitas coisas tinham sido
levadas, mas ele no esperava ver nem os poucos objetos restantes.
   _ Posso ir ver se o poo tem gua? - Claire perguntou de perto da lareira, com um balde velho na mo.
   Num piscar de olhos, a vida passada e os sonhos do futuro colidiram-se no presente. Quantas vezes ele no tinha visualizado Claire exatamente assim? Ao lado da
lareira de um solar de pedra. Tentou no se importar ao v-la movimentando-se pela casa que poderia ser deles se lorde Setton no tivesse quebrado a palavra empenhada.
   _ Enquanto voc faz isso, vou cuidar de Cabal. Depois, tentarei apanhar uns dois coelhos - ele disse.
   _ timo. Imagino que a caixa de especiarias de sua me no exista mais.
   _ Duvido - ele conseguiu murmurar antes de escapar para fora.

   Claire sabia como estava sendo difcil para Bernard voltar ao solar depois de tantos anos e ver outra mulher que no a me lidando na casa.
   Mesmo depois de terem comido, a tenso dele continuava perceptvel. Ela havia desistido de faz-lo relaxar. Se lhe perguntava algo, ele respondia com monosslabos.
   Bernard ainda no tinha lhe dado o presente, e ela no o pedira outra vez.
   Claire tomou o caldo quente com as ervas enquanto ele desembaraava a crina de Cabal. Era estranho compartilhar espao com um animal. Mas por uma noite, ela
se sujeitaria.
   Quando terminou, Bernard ps a sacola no banco onde ela se sentava. Com esforo, Claire refreou a curiosidade ao v-lo tirar um saco grande de couro que colocou
na mesa.
   _ Precisamos ir a Durleigh. Tenho pouco dinheiro e preciso vender uma relquia ou duas. Talvez isto d - disse ele ao tirar do saco uma caixinha ornamentada
que cabia na palma da mo.
   _ O que ?
   Bernard abriu o fecho de bronze e a colocou na mesa. Sobre o forro de seda vermelha, havia um punhado de cabelos brancos.
   _ Dizem que eram de So Pedro.
   Mexeu mais nas relquias e pegou uma pequena lasca de madeira escura.
   _A igreja deu a cada Cruzado um pedao da Real Cruz de Cristo. Muitos o mandaram incrustar no cabo da espada. Eu considerei blasfmia coloc-lo na minha cimitarra,
por isso o guardei.
   Claire tocou a lasca. Relquias santas eram muito valorizadas pelo clrigo e pela nobreza. Toda igreja tinha uma ou duas no altar. Muitos nobres tambm as possuam,
no s por causa das bnos que proporcionavam  famlia como tambm para us-las em juramentos solenes.
   O pai guardava as relquias pertencentes ao castelo de Dasset num cofre de bronze, numa de suas arcas de roupa.
   _ Voc precisa abrir mo disto? E um tesouro raro e valioso.
   _ Tenho outros mais raros, mas no sei o valor deles.
   Bernard tirou mais caixinhas e pequenos embrulhos em oleado. Havia um osso de dedo de um santo de quem Claire nunca ouvira falar, um retalho de tecido da roupa
usada pela Virgem Santssima no dia da crucificao e um caco de cermica de um jarro de vinho, das bodas de Can.
   _ Como voc conseguiu tudo isto? - Claire perguntou, admirada.
   _ No foi difcil. Bastava deixar saber que se queria comprar relquias para os sarracenos aparecerem com elas.
   _ Sarracenos?! Voc fazia negcios com o inimigo?
   _ Sim. Aqueles que moravam nas cidades ocupadas por ns esforavam-se para agradar os conquistadores. Voc ficaria admirada ao ver o relacionamento entre cristos
e sarracenos quando no se esperava uma batalha. Em cada cidade, havia mercadores de pases cristos que no faziam parte das Cruzadas. Cuidavam apenas de negcios
e chegavam a lucrar bastante.
   _ Isso me parece sacrilgio.
   _ Onde existe demanda, algum trata de supri-la - Bernard disse ao abrir um embrulho maior. - Esta, eu acho,  a mais valiosa.
   A relquia, uma obra de arte, constava de mo e antebrao de prata, envoltos num manto dourado de bispo e enfeitado com jias.
   _Ah, Bernard,  maravilhoso!
   _Dizem que contm os ossos do brao de So Babylas. Minha inteno era dar para Julius.
   Surpresa, ela o fitou.
   _Por que para meu irmo?
   _Pensei que seu pai tivesse morrido logo aps minha partida. Nesse caso, eu receberia a recompensa de Julius e, na ocasio, lhe daria isto. - Agora... - Bernard
deu de ombros. _Talvez o bispo de Durleigh queira comprar a relquia. Voc sabe algo sobre ele?
   _O nome  Walter de Folke. Ouvi dizer que  um homem de altos princpios - Claire contou ao tocar a relquia. - Voc a comprou de um sarraceno? Com o salrio
de Cruzado?
   Ele riu um pouco.
   _No. Eu a ganhei num jogo de dados.
   _Dados?! - ela exclamou.
   _Eu lhe falei sobre nosso relacionamento com o inimigo - ele a lembrou ao guardar a relquia.
   _Voc vai vend-la ao bispo?
   _Talvez eu teste a honestidade dele com algo menos valioso, como os cabelos de So Pedro. Isto  para voc - acrescentou, entregando-lhe um embrulho maior em
oleado.
   Claire o pegou e fitou Bernard. Ele ocupava-se em guardar as relquias.
   Bem devagar, ela o abriu.
   _Oh! - murmurou, fascinada pelo tecido vermelho, to delicado e transparente que podia ver a mo sob ele. Uma barra dourada, bordada com linha vermelha, rodeava
a pea inteira. - Nunca vi nada igual!
   _ um vu como os usados pelas mulheres do harm de um sulto - Bernard contou.
   Claire ouvira histrias sobre sultes rabes, seus harns e vrias esposas. O vu era muito extico e tentadoramente imprprio. Ao pensar em como Bernard tinha
conseguido um, usado pela mulher de um sulto, ela vacilou.
   _Voc tambm ganhou isto num jogo de dados? - indagou com uma ponta de esperana.
   _No. Comprei de um mercador em Damietta com meu salrio de Cruzado.
   Aliviada, ela ergueu o vu e tentou coloc-lo na cabea.
   _Assim - Bernard disse, ao ajud-la e puxar uma parte sobre seu rosto. - As mulheres rabes cobrem a face. Os nicos homens que podem v-la so o marido e os
parentes chegados.
   As palavras de agradecimento entalaram em sua garganta. A expresso de desejo dele a abalou. Percebeu que Bernard pretendera v-la com o vu na noite de casamento.
Mas no teria a oportunidade de tir-lo.
   Deus misericordioso! Podia visualiz-lo removendo-o delicadamente, beijando-a com paixo e despindo-a. Apesar da reao do corpo, ela tirou o vu. No podia
ficar com ele.
   _Voc deve guard-lo, Bernard, e dar para a mulher com quem se casar.
   Ele fez um gesto negativo com a cabea.
   _No. Foi comprado para voc. Faa com ele o que quiser - disse e afastou-se.
   Claire dobrou, embrulhou o vu cuidadosamente e o guardou no bolso interno da capa.
   Se Bernard no o aceitava de volta, ela o guardaria como lembrana sua. S esperava que no morresse, enforcado pelo pai, por t-la seqestrado.

   CAPTULO 8

   Na manh seguinte, Bernard trancou a porta, rearrumou a trepadeira e, depois de montar atrs de Claire, foi embora sem olhar para trs. No podia mudar o passado
e precisava cuidar do futuro.
   O sucesso deste dependia do resgate que Setton pagaria por Claire. Cuidar dela, durante duas semanas, significava vender uma ou duas relquias. O mais aconselhvel
seria procurar o bispo de Durleigh, Walter de Folke, e esperar que ele ainda ignorasse o seqestro de Claire.
   Pelo menos, ela parecia conformada. Pensara a mesma coisa na vspera, de manh, antes que ela fugisse para a mata.
   Onde haviam se beijado.
   Se ele no esquecesse o que tinha sentido, enlouqueceria. Claire havia prometido no seduzi-lo, e ele, no toc-la. Na noite anterior, tinham mantido a palavra,
dormindo em cantos opostos do solar.
   Porm, ele tinha de ajud-la a subir e a descer de Cabal. E para mant-la firme na sela, precisava passar o brao por sua cintura, como fazia agora.
   Para aumentar-lhe a aflio, o dia estava quente e Claire no usava a capa. Ela tambm relaxara a postura e apoiava-se no peito dele. Embora presos pela rede,
seus cabelos roavam no queixo dele.
   O contato e o odor feminino o excitavam. Concentrava-se ao mximo para controlar o desejo. Mal conseguia controlar Cabal. Graas ao bom Deus, a estrada para Durleigh
era quase reta e poucos viajantes passavam por ela. At ento, tinha evitado ser visto, entrando na mata quando avistava sinal de algum.
   Duvidava que o reconhecessem. Tinha mudado muito enquanto estivera fora. Claire, entretanto, era filha de um lorde, e mesmo os que no a conheciam poderiam identific-la
e estranhar sua companhia na sela.
   Seria melhor se ela pusesse a capa e puxasse o capuz para o rosto antes de entrarem em Durleigh.
   A maior preocupao de Bernard era encontrar uma tropa de Setton. Cabal era um cavalo de guerra forte e, por um percurso curto, podia correr como o vento. Mas
qualquer corcel perderia uma corrida longa, especialmente com peso extra.
   _ Vamos diretamente  catedral? - ela perguntou, quebrando o silncio mantido at ento.
   Na vspera, ele havia decidido no levar Claire  presena do bispo. Era arriscado demais.
   _ No. Voc se importaria se eu a deixasse no quarto de uma hospedaria enquanto vou procurar o bispo? E no escapar de l?
   _ Fizemos um pacto, lembra-se? No precisa se preocupar comigo. Que hospedaria?
   _ Quer recomendar alguma?
   _ Conheo duas, mas prefiro a Royal Oak Tavern.
   _ Os proprietrios a conhecem?
   _ Claro. Os Selwyn so pessoas boas e... ah, isso quer dizer que voc no pode me deixar l, no ?
   Moa esperta. Bernard tambm notou que Claire comeava a pensar mais como parceira no esquema do que como refm. Sinal de que ela confiava no acordo.
   Porm, ele suspeitava que havia algo mais. De alguma forma, Claire tinha mudado. No era mais a pessoa to ansiosa para voltar a Dasset. Por qu?
   _ Eu gostaria de saber se seu pai alertou algum na cidade. Caso no o tenha feito, poderamos inventar uma histria plausvel para os Selwyn. Assim, voc esperaria
por mim num lugar confortvel.
   Claire ficou calada por uns instantes. Depois, disse:
   _ Duvido que meu pai j tenha avisado algum. Vai tentar nos encontrar primeiro. Talvez, daqui a alguns dias, ele se veja forado a alertar a autoridade judicial.
Mas isso no quer dizer que a notcia de meu seqestro no tenha chegado  cidade. Muitas pessoas viajam entre Dasset e Durleigh.
   _ A no ser que ele conserve o portal fechado, abrindo-o apenas para a sada e entrada das patrulhas. Medida extrema, sem dvida, mas ele pode fazer isso por
uns dias.
   _ Ah, Bernard, que raciocnio brilhante! - ela exclamou, rindo. - Meu pai  bem capaz disso. Pense um pouco. Ele sabe que, se a autoridade judicial se envolver
na questo, esta se tomar da alada do rei, o que o far perder o direito de julgar e condenar voc. Enquanto puder, ele no abrir mo desse direito.
   _ Ento, provavelmente estaremos seguros por uns dias em Durleigh.
   _ Se meu pai no mandar uma patrulha  cidade.
   Bernard no conteve o riso.
   _ Ora Claire, voc me d esperana num momento e, no seguinte, a tira!
   _ Desculpe, mas voc pediu minha opinio.
   Ele notou seu tom irritado e, num pedido de desculpa, apertou o brao em sua cintura.
   _ Tem razo. Pedi e voc me esclareceu bem. Agora s preciso resolver como agir.
   Claire apontou para a estrada.
   _ Algum vem vindo.
   Bernard levou Cabal para a mata e parou de onde podia ver sem ser visto.
   Como em todas as vezes que saam da estrada, Claire ficou imvel e Bernard apurou os ouvidos. Logo o tropel de cavalos e vozes tornaram-se ntidos.
   Ele sorriu quando os reconheceu. Simon Blackstone cavalgava ao lado de uma mulher lindssima que devia ser Linnet, sua esposa.
   Em outras circunstncias, Bernard correria ao encontro do casal, pois ainda no conhecia Linnet pessoalmente e gostaria de trocar umas palavras com o amigo. Mas
Simon era, agora, a autoridade judicial de Durleigh, e ele no queria preocup-lo com seus problemas se no fosse necessrio.
   A ltima vez que o tinha visto, Simon recomendara a ele e a Nicholas Hendry para no se meterem em encrencas. No ficaria satisfeito ao saber que Bernard no
o obedecera.
   Murmurou ao ouvido de Claire:
   _No precisamos nos preocupar. Aquele ...
   Calou-se ao ver Simon virar a cabea como se o tivesse ouvido.
   Que instinto desgraado o de Simon! A habilidade dele em perceber algo errado, qualidade que os tinha salvado muitas vezes na Terra Santa, agora representava
uma ameaa.
   Continue em frente, meu amigo.
   Bernard ouviu Linnet perguntar:
   _Algo errado, amor?
   _Por um momento, pensei... - Simon sacudiu a cabea.
   _No, deve ter sido o vento. Voc dizia?
   Aliviado, Bernard os viu instigar o passo das montarias, mas esperou mais do que o necessrio antes de falar outra vez.
   _Aquele  Simon. Parece estar passeando.
   _Quem  a mulher?
   _Linnet, a esposa dele, eu acho. Por qu?
   _Curioso. Eles pareciam to satisfeitos com a companhia mtua.
   Verdade, Bernard reconheceu, contente. Simon merecia toda a felicidade do mundo.
   Levou Cabal de volta  estrada e, vendo-a livre, reencetou a viagem.
   _Acho que vamos experimentar a Royal Oak Tavern e talvez at passemos a noite l. Se no encontrarmos soldados de seu pai, estaremos seguros - disse a Claire.
   _Voc tem dinheiro?
   _Duas moedas.
   _timo. A Sra. Selwyn prepara uma comida deliciosa.
   _No gostou do coelho ontem?
   _Gostei, mas calculo que, nas prximas duas semanas, ser nossa nica alimentao.
   Claire tinha razo. Depois daquela noite, ele precisava encontrar um lugar para se esconderem pelas duas semanas. Um abrigo com acesso a comida e seguro contra
os soldados de Setton.
   Gostaria muito de ter uma idia onde encontrar tal refgio.

   Claire puxou o capuz da capa para o rosto quando se aproximavam da Royal Oak Tavern. Felizmente, o ch de Lillian tinha aliviado bem sua tosse, pois um acesso
chamaria muita ateno. Um guarda domstico do pai postava-se  porta. Porm, entretinha-se em flertar com uma criada da taberna e no prestava ateno em mais
nada.
   Atrs dela, Bernard ficou tenso, mas no apressou a montaria. Uma eternidade se passou antes que sassem da rua principal e seguissem por uma transversal.
   _Sinto muito por voc perder sua refeio.
   Claire soltou um suspiro de alivio.
   _Posso sobreviver com ensopado de coelho, O que fazer agora?
   _Visitar o bispo.
   _Ser seguro?
   _Podemos rezar para que seja.
   Claro, ela pensou ao faz-lo mentalmente enquanto seguiam pelas ruas tortuosas e estreitas de Durleigh, at chegarem  alta muralha de pedra que rodeava a catedral
e o palcio episcopal. Um monge os saudou da guarita.
   Bernard desmontou e aproximou-se.
   _Tenho negcios para tratar com o bispo. Ele encontra-se no palcio?
   O monge observou o belo corcel e mal olhou para Claire. O animal indicava que o homem era um cavaleiro de alta categoria e, portanto, merecia deferncia.
   _O bispo Walter est, sim. Mas  um homem muito ocupado. Na entrada do castelo, o senhor deve requisitar uma audincia. No espere ser atendido hoje. Deixe a
montaria e a arma com o encarregado do estbulo.
   Bernard sorriu.
   _A arma  uma cimitarra trazida da Terra Santa.
   O monge arregalou os olhos.
   _O senhor  Cruzado?!
   _Sim, e acabo de retornar.
   O outro no disfarou a admirao. Em tom reverente, murmurou:
   _Um heri da f. Certamente o bispo Walter o receber. Por acaso o senhor no seria Cavaleiro da Rosa Preta?
   _Sou - Bernard respondeu, orgulhoso.
   _Ento, sem dvida alguma Sua Reverendssima gostar de conhec-lo e eu me sinto muito honrado com a oportunidade de o receber aqui. Por favor, mencione sua posio
social ao secretrio do bispo, o irmo Oliver.
   _Muito obrigado - Bernard disse e, em seguida, levou Cabal ao estbulo.
   Um rapazinho apanhou as rdeas enquanto ele ajudava Claire a descer.
   _No posso ir visitar o bispo com voc. Ele me viu uma vez e pode se lembrar de mim - ela avisou baixinho.
   _Voc no quer entrar na catedral e acender uma vela? Quando eu terminar meu negcio com o bispo, irei busc-la _Bernard sugeriu. Plano sensato.
   _Cuidado - ela recomendou.
   Com apenas um relancear de olhos para o palcio de pedra, de quatro andares, ela procurou refgio no templo.
   Embora andasse devagar, seus passos, no cho de pedra, repercutiam pelo espao imenso. Quando alcanou o altar lateral, dedicado  Me Santssima, acendeu duas
velas votivas, uma em seu nome, outra no de Bernard.
   Se esperava por um momento oportuno para fugir, ele havia chegado. Bastaria pedir ajuda a um dos padres que andavam por ali, ou correr para os guardas do pai
na Royal Oak Tavern.
   Bernard devia saber que poderia escapar e, em sua opinio, ele estava confiante demais no pacto para deix-la fora da vista e do alcance dele.
   Teria certeza de que ela no quebraria a palavra empenhada? Confiaria em sua noo de comportamento honrado? E qual seria este? Voltar para o pai ou cumprir
a promessa feita a Bernard, o homem que a tinha seqestrado mas acreditava nela?
   Tudo resumia-se  questo de saber, ao certo, se o pai havia falhado em recompensar Bernard. A resposta, afirmativa ou no, deixara de ter importncia. J tinha
desistido de conquistar o amor e a aprovao do pai.
   Ela havia tentado, a vida inteira, agrad-lo. Nada fazia a mnima diferena. At o noivado com Eustace Marshall. Ento, o pai passara a valoriz-la um pouco.
   O casamento se realizaria, claro. Os compromissos tinham sido assumidos e testemunhados. Aos olhos da igreja, era como se j estivesse casada com Marshall, um
homem a quem ela considerara agradvel em sua curta visita a Huntingdon.
   Em duas semanas, o pai deveria conseguir o ouro e pagar o resgate. Ela estaria em casa a tempo de se preparar para o casamento que a libertaria de Dasset e daria
a Odo Setton a aliana cobiada.
   Por esta, o pai teria feito qualquer coisa, inclusive no cumprir o prometido a Bernard Fitzgbbons. Ele jamais daria a filha a um cavaleiro sem terras, ainda
mais tendo de desistir da aliana com uma das famlias mais poderosas da Inglaterra.
   Mesmo assim, ela no podia entender a exigncia de Bernard e a convico dele de estar certo, embora no tivesse provas.
   Portanto, tinha de decidir logo em quem acreditar. Para surpresa sua, tanto o corao quanto a cabea inclinavam-se para o lado de Bernard.
   Isso queria dizer que, se ele houvesse voltado das Cruzadas meses atrs, antes de o pai a ter barganhado com Marshall, ela estaria, agora, casada com Bernard
e no noiva de Eustace. Curioso. Quanto mais conhecia e gostava de Bernard, menos ela considerava absurdo tal destino.
   Os dois teriam se dado bem, refletiu. No s seu corpo reagia deliciosamente aos beijos e s carcias dele como sentia-se estimulada mentalmente quando ele pedia
suas opinies e as considerava boas. Uma qualidade rara e surpreendente num homem e quase to cativante quanto o senso de humor dele.
   Bernard tambm possua a tendncia de fazer julgamentos apressados e de agir sem refletir muito, como seu seqestro. Duvidava que ele houvesse previsto as dificuldades
para mant-la segura e alimentada, muito menos o peso extra na montaria ou a aflio perturbadora da atrao fsica entre ambos.
   Mesmo a deciso de ir para as Cruzadas devia ter sido tomada s pressas. Provavelmente, Bernard no tinha imaginado que seu senhor feudal no cumpriria a promessa.
   Claire ajoelhou-se e fez o sinal da cruz. Fitou a imagem, mas no encontrou a resposta para seu dilema na face linda, de porcelana, da Me Santssima. Na verdade,
no esperava, pois sabia que a soluo tinha de surgir de sua mente.
   Com uma crescente sensao de paz, Claire concentrou os pensamentos. Na vspera, tinha certeza de que a deciso mais sensata seria a de voltar para Dasset o mais
depressa possvel. Talvez ainda fosse, mas seria a justa?
   Bernard tinha dado quatro anos da vida a servio de lorde Setton. Apenas por isso, merecia uma recompensa. Se no fosse casar-se com ela ou as terras prometidas,
ento, o ouro do resgate. Precisava dele para recomear a vida em outro lugar.
   Em comparao aos quatro anos e o risco de vida, duas semanas eram uni tempo curtssimo e quase sem perigo algum. Eles tinham feito um pacto, da mesma forma que
Bernard fizera um com seu pai no passado. -
   Um Setton j havia falhado com Bernard. Ela no seria a segunda a tra-lo. Ele a encontraria ali quando viesse procur-la.
   Claire levantou o olhar e rezou para que houvesse tomado a deciso certa.
   No segundo andar do palcio, Bernard andava de um lado para o outro no vestbulo dos aposentos do bispo. Nas mos, segurava duas relquias.
   Sabia estar correndo um grande risco por haver deixado Claire sozinha. Mas no tivera escolha. Se a visse, o bispo poderia reconhec-la e indagar por que ela
o acompanhava.
   As largas portas de bronze abriram-se. Bernard observou o homem, com a esplndida roupa, que acompanhava o secretrio. Calvo, de meia-idade e magro, o bispo
Walter aproximou-se com a postura de um homem seguro de sua posio. Os olhos castanhos e perscrutadores avaliaram o visitante. O sorriso no rosto fino era animador.
   Bernard tomou a mo que ele Lhe estendia e beijou o anel com um imenso rubi.
   _Reverendssima, agradeo-lhe por me conceder esta audincia.
   _No, meu filho. Sou eu quem deve ser grato por vir me procurar. O irmo Oliver me disse que  Bernard Fitzgibbons. Mas eu o teria reconhecido. Sua descrio
feita por Simon Blackstone foi perfeita.
   Bernard sentiu uma certa preocupao. A quem mais Simon o teria descrito com preciso? Ele e Claire corriam mais perigo de ser descobertos em Durleigh do que
havia imaginado?
   _        Simon falou a meu respeito?
   _        Bem como de todos os Cavaleiros da Rosa Preta que retornaram. Espero conhecer os demais. Vamos passar para a sala onde o senhor poder me dizer a que
veio.
   Bernard o acompanhou ao aposento luxuoso, notando os tapetes grossos no cho e as tapearias trabalhadas que decoravam as paredes caiadas de branco. O bispo
Walter acomodou-se numa cadeira que lembrava um trono, atrs de uma imensa escrivaninha de madeira escura e entalhada. Apontou para outra bem mais modesta enquanto
dizia:
   _        Sente-se, sir Bernard. Disponho de poucos momentos para lhe dispensar, mas os usaremos da melhor maneira possvel.
   Bernard assentiu com a cabea e ignorou a cadeira.
   _        O irmo Oliver me avisou a esse respeito. Portanto, e no querendo ser rude, posso ir direto ao assunto, Reverendssima?
   O sorriso do bispo diminuiu um pouco. Claro, meu filho.
   Bernard ps a caixinha e o saquinho na escrivaninha, notando o interesse imediato do bispo. Abriu a primeira e explicou:
   _        Em Damietta, consegui adquirir vrias relquias. Esta, segundo me afirmaram,  um punhado dos cabelos de So Pedro. A outra, uma lasca da Real Cruz de
Cristo. Sei que  verdadeira porque cada cavaleiro daqui a recebeu do bispo Thurstan. Que Deus o tenha.
   O bispo Walter persignou-se depressa e tocou a madeixa.
   _Uma relquia excelente - comentou, admirado. - Acredita na honestidade de sua fonte?
   _Sim. Sei de um rei e de um prncipe que adquiriram relquias mais valiosas do mesmo mercador.
   O bispo fechou a caixinha e recostou-se na cadeira.
   _E sua inteno do-las  catedral em agradecimento por seu retorno?
   Indagao natural, pois muitos Cruzados, ao voltar, faziam tais ofertas. Mas Bernard sacudiu a cabea.
   _Gostaria de fazer isso, Reverendssima, porm, no posso. Minha situao financeira no permite tal generosidade.
   _Quer, ento, vend-las?
   _No tenho escolha.
   Com ar pensativo, o bispo indagou:
   _O senhor no  o cavaleiro que voltou a fim de receber uma recompensa de seu senhor?
   Outra informao de Simon, Bernard desconfiou.
   _Meu senhor e eu discordamos sobre o pagamento da recompensa. At que resolvamos a questo, no tenho do que viver.
   O bispo levantou-se, pegou as relquias e foi a um outro aposento.
   Impaciente, Bernard dirigiu-se  janela. Dela, podia ver a rea da catedral, Durleigh, o rio Dur e a muralha que rodeava a cidade. Tambm avistava Market Square,
onde se podia comprar quase qualquer coisa, desde uma saca de cereal at a armadura de um cavaleiro.
   Dependendo da generosidade do bispo, ele iria ao mercado depois de apanhar Claire.
   O bispo voltou, exibindo novamente o largo sorriso. Entregou-lhe o saquinho com a lasca de madeira.
   _Guarde isso, sir Bernard. E sua proteo contra os males deste mundo. - Ps vrias moedas de prata e ouro em sua outra mo. - Nenhum Cavaleiro da Rosa Preta
deve sofrer privaes. Estou lhe pagando a outra relquia e agradeo por me dar a oportunidade de compr-la. O senhor tem mais?
   Bernard olhou para as moedas. O bispo Walter tinha pago quase cinco vezes o preo cobrado pelo mercador de Damietta. Isso explicava por que tantos faziam a longa
viagem entre a Terra Santa, o continente e a Inglaterra. Como seriam lucrativos os negcios com o clrigo e a nobreza.
   _Mais umas poucas - Bernard respondeu, pensando na relquia mais cara em sua sacola. - Se um punhado dos cabelos de So Pedro valia tanto, quanto no obteria
com o antebrao e a mo de So Babylas, emoldurados por prata, ouro e jias?
   _Caso precise vend-las, posso esperar que venha me procurar novamente?
   _Com toda certeza, Reverendssima - Bernard respondeu, retribuindo-lhe o sorriso.
   _Muito bem. Agora tenho de rezar uma missa e imagino que o senhor precise cuidar de seus afazeres. Prometa que vir me visitar quando pudermos conversar bastante.
Simon me descreveu vrias de suas aventuras e eu gostaria de conhec-las sob seu ponto de vista.
   _Ser um prazer. Tambm posso fazer um pedido? Eu preferia que Simon no ficasse sabendo da dificuldade com meu senhor feudal. Talvez ele queira interferir em
nome da amizade.
   O bispo riu.
   _Compreendo. Fique tranqilo, pois no cometerei indiscrio alguma. Mas caso precise de assistncia, venha me procurar. Em nome da amizade.
   O bispo o acompanhou at a porta, mas Bernard lembrou-se de uma pergunta que gostaria de fazer.
   _Reverendssima, se um homem quisesse arrendar terras pertencentes  igreja, a quem deveria procurar?
   _O bispo ou o arcebispo da diocese  qual elas pertencem.
   _Foi o que pensei. Muito obrigado, Reverendssima, por seu tempo e moedas.
   Bernard afastou-se com o esprito leve e teve de se controlar para no correr pelas escadas e corredores. Mal podia esperar para contar a Claire sobre a generosidade
do bispo. Agora podiam ir ao mercado e comprar o necessrio para sustent-los por duas semanas.
   Diminuiu os passos ao se aproximar da porta da catedral.
   Ela havia ficado ou fugido?
   Bernard entrou e parou junto  porta. Ignorou o esplendor feito pelo homem em honra a Deus enquanto o olhar procurava uma mulher sozinha. L, diante do altar
Lateral, estava Claire, ajoelhada.
   Havia ficado, cumprido a palavra.
   Ela virou a cabea como se o tivesse ouvido cham-la. O corao dele bateu mais forte ao v-la se levantar e vir para a porta.
   _Voc parece satisfeito. Pelo que vejo, obteve sucesso.
   _Sim. Homem simptico o bispo Walter.
   _Foi o que ouvi dizer. Pronto para ir embora?
   Sim. J podia mostrar  mulher que confiava nele como ia cumprir sua parte do pacto. Ele a manteria segura, abrigada, alimentada, e controlaria o desejo, at
que se separassem. Sabia bem qual seria a parte do pacto mais difcil de ser cumprida.

   CAPTULO 9

   Claire admirou-se com a rapidez de Bernard para convencer um peregrino, que visitava  a catedral, a lhe vender sua mula. Satisfeitos, rumaram ao Market Square.
   Embora fizesse calor, ela continuava enrolada na capa e com o capuz puxado sobre o rosto.
   Bernard ia de vendedor em vendedor. Comprou tortas de carne, pombos assados e vrias formas de po. O tempo todo, ele mantinha o olhar atento, temendo encontrar
os soldados de Setton. Ao final das compras, deu a Claire um pastel recheado de ma.
   Ela saboreava o ltimo bocado quando j alcanavam Michelgate. Ouviu um homem gritar para que Bernard parasse e o sentiu virar-se a fim de olhar para trs.
   _Maldio! - ele praguejou e instigou Cabal a apressar o passo.
   Claire no precisou olhar para saber quem os perseguia.
   _Vamos conseguir cavalgar mais depressa do que Henry?
   _So quatro guardas de seu pai e nenhum deles est montado. Mas a mula no corre muito. Segure-se bem.
   Ele esporeou Cabal por Michelgate e para fora da cidade. No campo e num lugar mais largo da estrada, puxou as rdeas e parou. Claire no entendeu por qu. Seriam
apanhados.
   _No deveramos continuar em frente?
   _No - respondeu Bernard ao desmontar. - J tenho meus mensageiros. Quem melhor do que os soldados de seu pai para levar o pedido de resgate?
   Ela podia ouvi-los aproximando-se numa carreira desabalada e aos gritos~ Sentiu-se apavorada.
   _Bernard, os homens de meu pai no vm em nosso encalo com o propsito de barganhar.
   Bernard desembainhou a cimitarra.
   _Ento, conversaremos depois.
   _        So quatro.
   _timo. Assim, tm uma chance de sobreviver. Fique com Cabal.
   Virou-se para enfrentar os atacantes.
   Tudo acabado, Claire pensou. Nenhum homem conseguiria lutar contra quatro. Embora soubesse que Bernard havia tomado parte em batalhas ferrenhas na Terra Santa
e sobrevivido, ela apenas o tinha visto empunhar armas durante os exerccios no ptio de Dasset. Era de uma inaptido imensa. Estava perdido.
   Os soldados pararam a poucos passos de onde Bernard postava-se com as pernas abertas e a cimitarra segura ao lado do corpo.
   Claire os conhecia, claro. Henry, o guarda que tinha golpeado a cabea de Bernard no salo de Dasset, falou pelo grupo:
   _No pretendemos lhe fazer mal algum, Bernard. Renda-se.
   _De jeito nenhum, Henry - ele respondeu ao mesmo tempo em que fazia um crculo horizontal com a cimitarra, atraindo olhares, para a arma estranha. - Abaixem as
espadas a fim de chegarmos a um acordo.
   Henry deu um passo  frente.
   _Acordo?! Nossas ordens so para resgatar lady Claire e lev-lo de volta a Dasset. Se precisarmos transportar seu corpo na montaria, pacincia.
   Bernard o encarou com ar de zombaria.
   _Se esto determinados, agentem. A escolha foi sua.
   No tinham nenhuma, Claire sabia. Os soldados no podiam chegar em Dasset e relatar ter visto Bernard e o deixado ir embora ileso. O castigo para negligncia
em servio era severssimo.
   Henry a fitou.
   - Desa, lady Claire, e venha para trs de ns onde ficar em segurana.
   - No! Continue onde est - Bernard ordenou. - Para chegar a voc, eles tero de passar por mim.
   Com olhar furioso, Henry atacou. Claire agarrou-se  crina de Cabal. Ao ouvir o estalar de espada contra cimitarra, seu corao disparou. No instante seguinte,
Bernard fez Henry recuar e prendeu-lhe a espada com a curva da arma pag. A espada voou para o outro lado da estrada e Henry caiu,
segiurando o brao ensangentado.
   Se Claire houvesse piscado, no teria testemunhado a cena.
   Este no era o Bernard dos velhos tempos.
   Como se quisesse provar isso, ele afastou-se de Henry e desafiou os outros. Os trs avanaram juntos.
   Claire virou o rosto e fechou os olhos. O peso no corao a sufocava enquanto esperava que Bernard sucumbisse. Mas o grito de dor que ouviu no era dele.
   Tinha de olhar, mas no acreditou no que via. Outro soldado do pai, Theo, estava caldo e imvel. Bernard provocou Roger e .Louis, fazendo-os recuar pela
estrada.
   Claire mal ousava respirar. Bernard movia-se com a graa de um felino e no demonstrava a mnima tenso. As feies revelavam apenas a concentrao enquanto
rebatia os golpes.
   Ento, Roger caiu com um corte abaixo de um dos joelhos.
   _E voc, Louis, quer tambm experimentar o fio de minha lmina? - Bernard perguntou ao quarto soldado que recuava.
   Louis baixou a espada e olhou para os companheiros feridos no cho.
   _No - respondeu.
   Quando Claire imaginou que ele ia embainhar a arma, Louis virou-se e correu em sua direo.
   _Cabal! Aqui! - Bernard gritou.
   O animal retesou os msculos e Claire agarrou-se  crina. Ele correu enquanto a pobre mula, presa por uma longa corda  sela, teve de acompanh-lo. O corcel bem
treinado rodeou os trs soldados cados e parou ao lado de Bernard.
   _Diabos, Louis! Vou ter de matar um de vocs a fim de convencer Setton de que tentaram cumprir o dever?
   Claire olhou para Theo que, com o rosto para baixo,' ainda no se mexera. Estaria morto?
   _E falhamos! - Henry gritou, furioso e ainda segurando o brao ferido. - Voc acha que Setton vai se importar se morrermos ou no? Ele s tomar conhecimento
de que ns quatro lutamos contra um nico homem e perdemos.
   _Muito bem. Espanquem-se at perderem os sentidos se acharem que isso os ajudar. Tambm podem se esvair em sangue. Prefiro no matar nenhum de vocs, a no ser
que insistam.
   Louis levantou a espada como se fosse fazer uma ltima tentativa.
   _No seja idiota - Bernard o advertiu ao brandir a cimitarra.
   O soldado olhou para a prpria arma, blasfemou e atirou-a longe.
   _Homem sensato. Veja se pode fazer Theo recobrar os sentidos - Bernard ordenou e virou-se para Roger: - Ser capaz de ficar em p?
   _Talvez com a ajuda de uma atadura.
   _Para que se dar ao trabalho? - Henry reclamou. - Acho que vou seguir sua sugesto, Bernard. Ficar sentado aqui at me esvair em sangue. Onde voc aprendeu a
lutar dessa forma? Por Deus, eu nem via de onde os golpes vinham.
   Bernard sorriu.
   _Reconhece o nome Hugh de Halewell?
   _Um lutador de torneios, no ?
   _Isso mesmo. O melhor. Lutei ao lado dele na Terra Santa. Tenho uma toalha em minha bagagem. Precisamos enrolar esses ferimentos.
   Incrdula, Claire olhava de um homem para outro. Henry e Roger estavam feridos. Theo sentava-se ajudado por Louis. Segurava a cabea e tinha uma enorme esfoladura
na testa. Poucos momentos atrs, os quatro lutavam contra Bernard e, agora, os cinco conversavam.
   Naturalmente, eram velhos companheiros. Bernard conhecia bem o estilo de luta de cada um e seus pontos fortes e fracos.
   E eles no tinham imaginado que Bernard houvesse adquirido uma Percia invejvel.
   _Pode descer agora, se quiser - ele lhe disse depois de tirar a. toalha de linho da sacola.
   Ao v-la largar a crina de Cabal, encostou a cimitarra no animal a fim de ajud-la. Segurou-a pela cintura e ela praticamente flutuou para o cho, graas  fora
que sempre a surpreendia.
   _Cuidado, Lotus - ele recomendou ao pegar novamente a cimitarra.
   Claire tirou a toalha da mo dele, rasgou-a em duas e deu-lhe um pedao.
   _Vou cuidar de Henry - avisou.
   O soldado estava plido e, obviamente, sofria dores.
   _Falhamos, lady Claire. Quando vimos Bernard parar, pensamos que a livraramos dele num piscar de olhos.
   _No se culpe, Henry. Bernard surpreendeu a todos ns. Afaste a mo do ferimento para eu poder enfaix-lo.
   O corte era longo e profundo, mas cicatrizaria com cuidados adequados.
   _Quando voltar a Durleigh, tome providncias para que dem uns pontos nele.
   _A senhora est bem? - Henry indagou.
   _Sim - Claire garantiu enquanto enrolava-lhe o brao com uma tira da toalha.
   Deu um n cego com as pontas e ajudou-o a se levantar. Juntos, foram para perto de Bernard e Theo, que viam Louis enfaixar a perna de Roger. Quando terminou,
Bernard disse:
   _Agora, podemos tratar da questo de maneira mais civilizada. A mim no importa como vo contar nosso encontro a Setton. Digam-lhe o que for preciso para manter
suas cabeas nos ombros.
   _Ele no vai mostrar a mnima compaixo. Acabaremos na masmorra com Edgar - Louis afirmou.
   Aflita, Claire indagou:
   _Por que Edgar est na masmorra?
   _Setton acusou-o de no fechar a algema de Bernard a chave, permitindo que ele escapasse. Edgar nega isso, mas...
   _Edgar fechou, a chave, a algema de Bernard - Claire protestou, brava com o fato de o pai ter - prendido o guarda por algo que ele no havia feito. - Meu pai
no ps Edgar no ecleo, espero - acrescentou, empalidecendo.
   Bernard tocou-a no ombro.
   _        Calma, Claire - disse e, depois, perguntou a Louis: - Edgar est bem?
   _        Est, mas muito aborrecido por usar a algema que voc abandonou. Lady Claire, a senhora soltou Bernard?
   _        Soltei.
   _        Ns suspeitvamos, mas no nos atrevemos a sugerir a possibilidade a lorde Setton depois de ele haver culpado Edgar. Achamos melhor para seu prprio
bem - Henry explicou.
   _        No se enganem. Meu pai sabe quem ajudou Bernard a fugir. No entendo por que ele culpou Edgar.
   _        Por que suspeitavam de Claire? - indagou Bernard.
   _        Durante as ausncias de Julius, muitas vezes lady Claire tentava corrigir os excessos do pai. As pessoas de Dasset admiram sua coragem ao desafiar Setton
por causa delas.
   Claire enrubesceu e Bernard sentiu-se aliviado. Uma de suas dvidas fora esclarecida. Agora, sabia que ela no havia conspirado com o pai para que fugisse. Ela
o soltara por compaixo ou senso de dever.
   _        Ouviu isso, Claire? Voc  uma herona. Eu, no - Bernard comentou.
   Henry sacudiu a cabea.
   _        Ela pode ser herona para muitos, mas no para Setton. Lady Claire, a senhora no deveria ter me impedido de golpear a cabea de Bernard outra vez. Se
ele estivesse sem foras para fugir, nada disto teria acontecido. -
   Louis levou a conjetura mais adiante.
   _        Se Bernard no tivesse feito aquela exigncia ridcula, nada disto teria acontecido.
   _No exigi nada que Setton no tivesse me prometido, acreditem ou no. E no acabamos de bater espadas por causa da volta de Claire a Dasset? Se vocs tivessem
vencido no a levariam para enfrentar o pai, sabendo que isso seria pssimo para ela?
   _        Se pudssemos atir-lo aos ps de Setton para distra-lo,
   Bernard, ele descarregaria o dio em voc e deixaria lady Claire em paz - Henry argumentou.
   Os soldados, caso encontrassem uma maneira, estavam dispostos a sacrific-lo a fim de beneficiar Claire.
   _        Todas essas suposies no ajudam Edgar. Nem sei o que faria se meu pai o pusesse no ecleo - Claire declarou.
   Edgar no seria torturado se Henry e os outros concordassem com o plano que Bernard comeava a traar.
   _Henry, voc poderia ajudar Edgar a fugir?
   _        Claro, mas ento, Setton culparia algum por isso e...
   _        No se ele' pensasse que entrei furtivamente em Dasset e fiz isso. Tenho um elmo velho em minha bagagem. Leve-o e o deixe no lugar de Edgar. Se bem me
lembro, ele tem uma irm que mora perto de Londres. Talvez deva lhe fazer uma longa visita.
   _        Setton saber que o elmo  seu?
   _        Sem dvida. Era dele. Ganhei aquela velharia no dia em que ele me mandou para as Cruzadas. Esta  uma boa maneira para devolv-la. Melhor do que qualquer
outra.
   Henry refletiu por alguns instantes. Depois, disse:
   _        Seu plano pode dar certo, mas  necessrio que nos entregue lady Claire. Deixe que a levemos para casa. Voc ter sua liberdade.
   _        Claire fica comigo. Quando chegarem a Dasset, avisem Setton que ela est em meu poder, mas ser devolvida se ele me pagar um resgate para substituir
a recompensa prometida e, depois, negada.
   _        Por Deus, homem! Voc j no causou problemas suficientes? - Henry protestou.
   _        Voc perdeu - Bernard declarou, apontando para o brao ferido.
   _        Difcil acreditar que Setton recompense um simples campons com terras e a mo da filha - Louis comentou em tom de desdm.
   _Pois prometeu. Se o bispo Thurstan estivesse vivo, seria minha testemunha. Eu ento, teria braas e braas de terra para me abrigar com Claire como minha esposa.
- Uma indagao ocorreu a Bernard. - Claire, seu noivado foi contratado antes ou depois da morte do bispo Thurstan?
   _        Depois. Papai j vinha conversando com Marshall. Dois dias aps o funeral do bispo Thurstan, ele nos levou, mame e eu, a Huntingdon.
   Bernard no se surpreendeu. Se ele tivesse voltado diretamente a Dasset, enquanto o bispo Thurstan ainda vivia, agora teria as terras e estaria casado com Claire.
Maldito Setton!
   _        Henry, informe Setton que exijo o peso de Claire em ouro como seu resgate. Diga-lhe para pr tudo em duas sacas e me entreg-las no Market Square de
Durleigh, no momento em que o carrilho tocar, no dia... quinze de agosto. Receberei meu ouro e ele, Claire.  bem menos do que mereo.
   Os quatro soldados entreolharam-se e Louis disse:
   _        Antes de concordarmos, queremos ter certeza do bem-estar de lady Claire. Ser muito difcil mant-la escondida e bem cuidada durante duas semanas.
   Bernard sentiu admirao pelos soldados. Temiam por Claire e seriam capazes de empunhar as espadas e recomear a lutar.
   _        Juro que a tratarei e protegerei muito bem. Ela no correr perigo algum enquanto estiver sob meus cuidados.
   Louis no se convenceu.
   _        Lady Claire, a senhora falou pouco sobre a questo. A uma palavra sua, mandaremos Bernard para o inferno.
   De cabea erguida, ela respondeu:
   _Dem a mensagem de Bernard a meu pai. E ajudem Edgar a fugir.
   _        Ser um milagre se conseguirmos fazer as duas coisas e conservar nossas cabeas - Henry declarou.
   Depois de entregar o elmo velho a Henry, Bernard pastou-se  frente de Claire enquanto os soldados apanhavam as espadas do cho e as embainhavam. Quando j seguiam
pela estrada de Durleigh, ela perguntou:
   _        Eles podero fazer isso?
   _        Sim. Amanh, a estas horas, Edgar j estar livre e seu pai, empenhado em arranjar o ouro.
   _        E ns? Onde estaremos?
   Boa pergunta e para a qual ele gostaria de ter uma boa resposta.
   _        Escondidos - disse ao coloc-la de volta em Cabal.

   Odo Setton atirou o elmo pela masmorra. Ele bateu no ecleo e caiu na entrada aberta do tnel.
   Edgar escapara, libertado pelo mesmo desgraado que agora exigia o peso de Claire em ouro pelo seu retorno.
   Se no fosse pela aliana com Marshall, Fitzgibbons poderia ficar com ela.
   Durante trs dias, os soldados tinham vasculhado as terras de Dasset, Durleigh e ido at York. Exceto pelo nico encontro com Henry e os outros trs, fora de
Durleigh, ningum tinha visto Fitzgibbons e Claire. Os dois soldados feridos ardiam em febre no alojamento, sob os cuidados de Setton no sabia o quanto acreditar
na histria dos homens. Roger, delirando, falava de um demnio que, sado do inferno, tentara decepar-lhe a perna com uma cimitarra gigantesca. Henry estava mais
lcido, mas Setton imaginava se ele lembrava corretamente a quantia exigida para o resgate de Claire.
   Provavelmente, no. Nenhuma mulher valia seu peso em ouro. Ainda mais a filha, depois de t-lo desafiado e libertado Fitzgibbons.
   Portanto, conclua que Henry estava enganado. Fitzgibbons exigia apenas a metade. Isso no tinha importncia, pois ele no lhe pagaria nada.
   Naturalmente, iria encontr-lo no Market Square em Durleigh. Mas no com ouro nas mos.
   Setton foi  entrada do tnel e apanhou o elmo. Diabo! Nunca tinha imaginado ver Fitzgibbons outra vez, muito menos esse elmo. Por que o desgraado no morrera?
   Ao receber a notcia da morte dele, no outono passado, havia ficado satisfeitssimo por se ver livre da deplorvel promessa, testemunhada pelo bispo Thurstan.
Logo, comeara a procurar um marido para Claire. Sabia que no poderia ser muito exigente sobre a escolha. Afinal, a filha j tinha passado da idade de se casar.
   Por acaso, descobrira que Marshall cobiava umas braas de mata, no limite norte de Dasset e ao longo de outras dele, onde a caa era farta.
   Eustace Marshall levava uma vida requintada em seu palcio em Huntingdon, ao sul da Inglaterra, ocupava um cargo importante na corte, caava com ces e falces
e era considerado um dos melhores combatentes de torneios da Inglaterra.
   Tal homem era bom demais para Claire e poderia selecionar uma esposa de melhor categoria e de dote mais valioso.
   Uma vez casada, a filha seria problema do marido. Ele poderia fazer o que entendesse com a criatura impertinente. Bendito o dia em que Claire no se intrometesse
mais nas questes de Dasset.
   Mas o melhor era o fato de ganhar um genro com acesso ao rei, cuja alta posio lhe proporcionaria favores e, eventualmente, recompensas materiais.
   Entretanto, havia chegado a mensagem de York, comunicando que Fitzgibbons estava vivo e voltando para casa. A barganha acertada com Marshall teria dado em nada
se o bispo Thurstan no houvesse morrido envenenado. O assassino fizera um grande favor a Setton, no momento mais oportuno. Ficara a palavra dele contra a de Fitzgibbons,
de que nenhuma recompensa tinha sido prometida.
   Setton baixou a alavanca para fechar o tnel.
   Se Fitzgibbons tinha libertado Edgar, ainda deveria estar na rea. Enfurecia-se ao saber que o canalha havia andado to perto e no fora achado. Onde Claire
teria ficado enquanto Fitzgibbons percorria o tnel e entrava na masmorra? Sem dvida, a filha voluntariosa ajudara o prprio seqestrador.
   Deveria ordenar uma busca pelas imediaes. Para qu? Seus homens estavam exaustos e Fitzgibbons j devia ir longe.
   Setton pensou em contratar mercenrios para mat-lo, mas descartou a idia. Eles exigiam pagamento alto e, como aprendera de maneira lamentvel, no seguiam
as instrues.
   Tambm no avisaria a autoridade judicial. Ele mesmo cuidaria de Fitzgibbons sem a interferncia de um homem cuja simpatia poderia pender para um Cavaleiro da
Rosa Negra.
   Alm do mais, Setton sabia onde encontrar Bernard e Claire no dia quinze de agosto. Traria a filha para casa a tempo de ela se casar com Marshall e veria a cabea
de Bernard espetada na ponta de uma lana antes que o dia terminasse.

   CAPTULO 10

   Claire encolheu-se ao ver Bernard passar pela viga mestra do telhado do solar que tentava consertar. Cada vez que ele fazia isso, a madeira vergava e estalava.
Temia que ele casse de l.
   Dois dias atrs, tinham voltado a Faxton. Bernard negava-se a chamar o lugar de Fallenwood. Embora Claire achasse perigoso esconderem-se sob o nariz do pai,
ele pensava que as patrulhas no passariam mais por ali. At ento, acertara.
   A tempestade da noite anterior e as imensas goteiras o tinham feito subir ao telhado nessa manh.
   Um estalar mais forte a assustou.
   _Bernard?
   _Aqui em cima! - foi a resposta, como se ela no soubesse.
   Claire ergueu o olhar e o viu esticado na viga.
   _Voc vai acabar caindo. Desa da!
   _O qu? - indagou ele ao sentar-se.
   Ela arregalou os olhos. Bernard havia tirado a tnica e pedacinhos de sap grudavam-lhe no peito de msculos esculturais e luzidio de transpirao. Seus dedos
gostariam bem de remov-los um a um. Grande tentao. Ainda bem que ele estava no telhado, fora do alcance de suas mos.
   Por todos os santos, ele era magnfico. Os cabelos negros emolduravam as feies viris e atraentes, o corpo forte era o de um guerreiro. Mas apesar do tamanho,
ele movia-se com a elegncia de um corteso. Todas as vezes que a tocava era com delicadeza.
   Este heri das Cruzadas a lembrava daqueles cujas histrias romnticas os trovadores cantavam. Ele poderia matar um drago de manh, enfrentar bandidos  tarde
e satisfazer plenamente uma dama  noite.
   Ela no podia enrubescer quando imaginava a percia dele na cama. O calor que a queimava por dentro alvoroava sua feminilidade. Conhecia Bernard desde criana,
mas nunca o tinha notado como homem at ele voltar e reivindic-la como parte da recompensa. Agora, torturava seu corpo com o desejo e provocava-lhe a imaginao
com pensamentos pecaminosos.
   Atravs dos sermes do padre Robert, sabia o que era uma unio carnal e a me tinha lhe dado uma breve explicao sobre a submisso do corpo a um homem. Porm,
havia aprendido bastante sobre o assunto ao apanhar o irmo Julius com uma criada na horta do castelo. Ele tinha a cala abaixada e ela, a saia levantada.
   A moa no parecia submissa e nem preocupada com o pecado. Pelo contrrio, dava a impresso de estar gostando bastante, pois quando terminaram, suplicou a Julius
para repetir tudo.
   Dentro de poucas semanas, se casaria com Eustace e iria para a cama com ele. Porm, ao beij-la, ele no a excitaria como Bernard. Com Eustace, seria a submisso
e com Bernard, o xtase apreciado pela criada.
   Alm disso, sentia-se cada vez mais apegada a Bernard. Ele a fazia sorrir e se esforava ao mximo para que se alimentasse e dormisse bem. Ser que fazia idia
de sua vontade de pux-lo para a enxerga improvisada por ele com palha e cobertores?
   Claire sabia que no era linda, mas estava longe de ser feia. Possua as curvas certas de um corpo de mulher, embora um pouco amplas. Bernard no as achava repulsivas,
pois a tinha beijado e acariciado. Conseguiria ela seduzi-lo a abra-la at que suplicasse pela unio absoluta?
   Porm, no tinha noo de como agir sem se expor ao ridculo. E caso o fizesse, como explicar a falta de virgindade a Eustace?
   Sem dvida, o casamento com ele se realizaria. To logo o resgate fosse pago, Bernard a entregaria ao pai e iria cuidar da vida. Ela no o veria mais. Em nome
do dever, se casaria com outro e lhe daria filhos.
   Seria errado desejar algo alm de beijos impostos pelo dever e de unies submissas? Ansiar pela paixo e pelo xtase proporcionados pelo homem que poderia ter
sido seu marido, caso houvesse voltado antes?
   _        Claire?
   Seu nome, pronunciado por Bernard, tinha um som adorvel. Ele o gritaria ao unir o corpo ao seu? Ou o murmuraria quando, exaurido pela consumao do desejo,
no tivesse foras para falar?
   Meretriz, a mente a acusou. Pois que seja, o corao respondeu.
   _        Voc  um cavaleiro, Bernard, no carpinteiro e nem entende de telhado de sap. A viga estala como se fosse quebrar. Desa.
   Venha me abraar.
   Ele sorriu.
   _        Acho que a o barulho  pior do que aqui. - Ficou em p na viga e balanou. - Veja, est firme.
   Claire sentiu o corao disparar.
   _        Voc tambm no  equilibrista.
   _        Prometi cuidar de seu bem-estar. Se houver outra tempestade como a desta noite e voc se molhar, ficar resfriada outra vez. J faz dois dias que no
tosse e eu gosto desse silncio.
   _        Se voc cair e quebrar a perna outra vez, ou pior, o pescoo, quem cuidar de meu conforto?
   Cuidadosamente, ele sentou-se na viga.
   _        Tenho pensado nisso. A escaramua com os soldados de seu pai me alertou sobre o perigo de morrer, ou ficar ferido e incapaz de executar meu plano.
   Claire estremeceu.
   _        Daquela vez, voc se defendeu bem.
   Ele deu de ombros.
   _        J vi homens sucumbir a golpes rpidos de espada e a ataques imprevisveis. No sou invencvel. Eu me preocupo com sua situao caso algo me acontea.
Voc seria capaz de ir daqui a Huntingdon?
   Bernard preferia que ela procurasse proteo com Marshall, Claire percebeu. Tentou fazer pouco da ansiedade e da preferncia dele, e do medo que a corroa ao
pensar nele morto ou ferido.
   _        Nada vai lhe acontecer, exceto cair desse telhado se no descer j.
   _        No brinque, Claire. Essa  uma possibilidade que voc precisa considerar.
   Ela suspirou. Bernard no mudaria de assunto se no recebesse uma resposta.
   _Se eu tentasse encontrar o caminho de Huntingdon, ao sul, acabaria na Esccia, ao norte - disse, provocando um sorriso nele. - Alm do mais, Marshall j deve
estar a caminho de Dasset. E um trajeto longo e ele viaja sempre com uma grande comitiva. Tambm, dever parar em Westminster por dois dias a fim de visitar o rei.
Calculamos que chegar a Dasset... - Claire sorriu da coincidncia - ...um dia depois de o resgate ser pago.
   _        Por que est vindo vrios dias antes do casamento?
   Claire no queria falar sobre Marshall, o casamento ou o resgate. Desejava Bernard fora do telhado, a seu lado para poder toc-lo e fazer algo mais.
   _        Bernard, se vamos conversar, desa. Meu pescoo est doendo por eu ficar olhando a para cima.
   _Ento, conversaremos mais tarde. Estou quase terminando. Homem teimoso. Determinado a consertar o telhado, nada o distrairia. Ela at poderia ficar nua ali que
ele nem notaria. Impossvel. Afinal, era um homem saudvel e com necessidades fsicas. As vezes, cavalgando  frente dele na sela, podia sentir a evidncia delas
nas costas.
   Na verdade, ela no era to corajosa a ponto de se despir s para chamar-lhe a ateno. Devia haver uma maneira mais sutil para fazer isso.
   Claire tirou a rede dos cabelos, lembrando-se de como ele o fizera na mata quando a tinha beijado e acariciado. Passou os dedos por eles a fim de desembara-los
e, depois, sacudiu a cabea. Eles caram pelos ombros, parte sobre o busto, cobrindo os seios.
   Bernard notou. Ficou sentado imvel na viga, observando-a. Ela quase riu de alegria ao constatar que um gesto to pequeno surtia o resultado desejado.
   Ento, ele levantou o olhar para o topo das rvores.
   _        Fumaa! - exclamou ao apontar para a estrada e descer finalmente.
   Bernard sentiu o corao disparar. Se estivesse certo, a fumaa densa e negra vinha do chal de Lillian. Depois de vestir a tnica, soltou Cabal de uma rvore.
Levou-o para a frente do solar e entregou a corda a Claire.
   _Segure aqui - pediu-lhe.
   Recuou bastante para, em seguida, correr e pular no lombo do animal sem sela. Estendeu a mo para pegar a corda, mas Claire ergueu os braos.
   _Voc fica aqui - ele determinou.
   _Se no me levar, irei correndo atrs de voc.
   _J cavalgou em plo?  difcil.
   _Para tudo, existe uma primeira vez. Vamos, me pegue.
   Apenas uns momentos atrs, ele imaginava se no haveria uma primeira vez para os dois. Juntos numa enxerga no solar, os cabelos de Claire cados tentadoramente
sobre os seios. O desejo ainda no tinha passado.
   S no fosse ter avistado a fumaa...
   Inclinou-se para o lado, Claire pulou e, no instante seguinte, acomodava-se entre as coxas acolhedoras dele, levemente prensando-lhe o membro excitado.
   Ela no pde deixar de perceber o que Bernard pensava l no telhado ao v-la soltar os cabelos.
   _Aperte as pernas com fora - ele recomendou, desejando loucamente estar sobre Claire.
   Quase perdeu a cabea quando ela obedeceu, requebrando-se um pouco para melhor se firmar em Cabal.
   _Assim? - ela indagou em voz suave.
   _Isso mesmo - murmurou ele a seu ouvido, ao passar o brao sob seus seios a fim de segur-la.
   O contato com o arredondado de suas formas femininas era delicioso.
   Prensou os joelhos em Cabal e logo seguiam pela estrada. Pouco depois, chegavam ao chal de Lillian.
   Eles a encontraram do lado de fora, abanando os braos perto de uma panela. Esta exalava fumaa densa, mas j esbranquiada.
   Aliviado por no encontrar o chal queimado com a dona dentro, Bernard desmontou e ps Claire no cho.
   _Como nos velhos tempos. Um Fitzgibbons veio me socorrer - Lillian comentou, sorrindo.
   _O que aconteceu? - ele indagou.
   _Descuido meu. As chamas estavam muito altas e o pano que eu usava para segurar a panela pegou fogo. Num instante, o leo dentro dela incendiou-se. Bem, consegui
traz-la aqui para fora antes que o mal fosse maior.
   Um rudo vindo da mata fez Bernard procurar a cimitarra. Estava sem ela. Mesmo assim, posicionou-se em frente das mulheres.
   Dois homens surgiram correndo, mas ao v-lo, pararam aturdidos.
   O mais velho persignou-se.
   _Santa Me de Deus! - exclamou, arregalando os olhos. _Voc estava certa, Lillian. Um galho crescido reto e idntico ao tronco.
   Lembranas boas, sobre esse homem e o filho, inundaram a mente de Bernard. De Wat, que cuidava dos peixes da lagoa de Faxton, e do rapaz, Garth, amigo de infncia.
   O  sorriso deste animou-o.
   _ muito bom v-lo de volta, meu senhor. Seja bem-vindo a Faxton.
   Meu senhor?
   Granville Fitzgibbons tinha sido o senhor dali. Natural, portanto, que Garth cometesse o engano.
   _Senhor, no - corrigiu-o ao estender a mo. - Sou eu, Bernard, meus amigos. Como vai a lagoa?
   Wat respondeu com desdm:
   _Cheia de enguias e nem uma nica perca. Mas pe comida na mesa.
   Cutucou o filho e curvou-se diante de Claire. Garth seguiu-lhe o exemplo.
   _E uma honra, lady Claire.
   Ela fez um gesto rgio de cabea, mas dirigiu-lhes um sorriso simptico.
   Mais rudos na mata. Hob e a mulher, Mary, apareceram correndo. Em pouco tempo, dez pessoas rodeavam Bernard. Ele conhecia a maioria, exceto algumas, mas todas
o cumprimentaram com afabilidade e unia ponta de espanto. Tambm curvaram-se diante de Claire que, sorridente, retribuiu as saudaes.
   Naturalmente, tinham sentido o cheiro de fumaa e largado seus afazeres a fim de vir socorrer Lillian. Numa pequena propriedade, era hbito um vizinho ajudar
o outro, lembrou-se Bernard. O povo de seu pai, quatorze anos atrs, tinha feito isso, mas no chegara a tempo.
   Apesar do prazer em rever os arrendatrios do pai, ele indagava-se se no seria melhor abandonar o solar. Pessoas demais sabiam onde ele estava e a informao
de seu esconderijo poderia chegar facilmente a Dasset.
   Voltou para o lado de Claire enquanto os arrendatrios comentavam o ocorrido e aconselhavam Lillian a ser mais cuidadosa. Logo depois, foram embora, mas Wat e
Garth ficaram.
   _O fogo estragou a lareira, Lllian? - Garth indagou.
   _No creio.
   _Vou verificar antes de ir embora.
   _Eu tambm tenho de voltar - disse Wat. - Vai ficar no solar por algum tempo, Bernard?
   Ele imaginou o quanto os moradores de Faxton sabiam do que acontecera em Dasset e do seqestro de Claire. Achava que os soldados de Setton os tinham informado
de tudo. Alm de Lillian. Pela reao de Wat ao v-lo, os dois haviam comentado sua visita anterior.
   _Gostaria de ficar, mas preciso manter Claire escondida por algum tempo ainda. Pessoas demais j sabem que estamos aqui e vai ser difcil algum no revelar nosso
segredo. Tambm no quero expor as pessoas de Faxton ao perigo. Ser melhor irmos embora.
   _E seguro ficar. Ningum daqui revelar seu paradeiro. Qualquer um de ns os esconderia em sua prpria casa se fosse necessrio - Wat argumentou. - Alis, se
voc decidir reivindicar a posse de Faxton, estaremos de seu lado.
   _Foi isso que tentei dizer a ele - Lillian aparteou.
   Comovido, Bernard sacudiu a cabea.
   _Agradeo muito a oferta, mas eu no poderia pedir isso a vocs. Se os soldados de Setton surgirem...
   _No faro isso. Setton desistiu da busca. Enquanto seus homens os procuravam, o castelo de Dasset tornava-se vulnervel. Embora estejamos em tempos de paz, nenhum
senhor pode enfraquecer suas defesas ou cansar seus homens por muito tempo.
   _Setton abriu o portal de Dasset? - Bernard indagou.
   _Ontem - respondeu Wat, rindo. - Quando fiquei sabendo, levei dois barris de enguias. O lugar ferve com as histrias de como voc fugiu e est exigindo um resgate
para devolver lady Claire. Dizem que os guardas, com quem voc lutou perto de Durleigh, tremem ao ouvir seu nome. E com a fuga sbita de Edgar... Ora, voc est
se tornando um personagem famoso, Bernard.
   _Tolice.
   _Ao contrrio. At o velho Peter, de certa forma, o admira. Ele est triste com a perda do estbulo, mas grato pelo seu bom senso de soltar os cavalos antes de
incendiar o lugar.
   _Um verdadeiro heri - Claire comentou, sorrindo.
   _Exatamente - Lillian concordou.
   Da porta do chal, Garth disse:
   _Pense um pouco, Bernard, voc desafiou lorde Setton como ningum o fez em muitos anos. Nem mesmo lorde Julius ou lady Claire. No incio, muitos o consideraram
louco, mas j esperam que voc vena a disputa.
   _E verdade. O ltimo a enfrentar lorde Setton foi nosso Granville. Seu pai era um homem querido. Muitas pessoas, alm das de Faxton, o seguiriam at o inferno
se ele pedisse. E faro por voc caso resolva reivindicar o lugar a que tem direito - Wat afirmou.
   O        n na garganta de Bernard ameaava sufoc-lo.
   _No posso fazer isso. To logo receba o resgate por Claire, terei de partir. Mesmo se eu comprasse o direito a Faxton do bispo de Durleigh, lorde Setton no
me deixaria em paz. -Wat inclinou a cabea.
   _O que aconteceu a seu pai. Ele falava em fazer isso antes...
   De morrer. De os bandidos lhes roubarem a vida.
   _Eu no sabia que ele queria comprar o direito.
   _Chegou a conversar com o bispo - Lillian disse. - Sua me me contou.
   _Granville conversou tambm com lorde Setton, que no ficou nada satisfeito - Wat acrescentou. - Mas ento, seus pais foram assassinados e voc, levado para Dasset.
Nada mais foi dito sobre o assunto. Sempre me intrigou o fato de Setton tir-lo daqui, mas nenhum de ns pde impedi-lo. S nos restou sepultar seus pais na igreja.
   Bernard sabia que Granville e Alice Fitzgibbons descansavam ao lado do altar da igreja St. Michael, onde haviam se casado, assistido a missas e batizado o filho.
Setton lhe contara isso ao garantir que os criminosos tinham sido encontrados e enforcados pelo crime cometido. Ele ainda no havia visitado o tmulo e talvez o
fizesse antes de partir.
   _Eu me sinto aliviado com o fato de os bandidos no terem escapado da justia. Pelo menos, esse favor devo a Setton.
   Silncio. Watt e Lillian trocaram olhares e Bernard sentiu um calafrio ao longo da espinha.
   _Vocs viram o enforcamento, no viram?
   _Que eu saiba, eles nunca foram encontrados - Lillian disse.
   A fria de Bernard quase o dominou. Lutou para control-la.
   _Lorde Setton me garantiu ter capturado os criminosos e os enforcado diante dos habitantes de Faxton. Assim, vocs saberiam que a justia fora feita. Ele mentiu
para mim!
   _Temo que ele haja feito algo mais, Bernard, mas no tenho provas. Tambm no quero fazer acusaes erradas diante de lady Claire - Wat disse.
   _Ela sabe que o pai no  santo e Bernard precisa ser informado de suas suspeitas - afirmou Lillian.
   _Por favor, Wat, no esconda nada - Claire pediu.
   _Est bem. Muitas coisas aconteceram na noite do assassinato. Mas s depois de alguns dias, algumas delas me pareceram estranhas. Se os bandidos tinham atacado
o solar, por que no tiraram nada alm da vida de seus pais? No roubaram nem o cofre com as moedas de Granville, das quais Setton se apossou. E ele chegou aqui,
acompanhado de guardas, logo aps o ocorrido. Ningum tinha ido cham-lo. Era como se soubesse que o solar seria atacado. Simplesmente apareceu, apanhou os objetos
de valor de seus pais e seu bem mais precioso, voc.
   Bernard queria gritar, negando as palavras de Wat. O que ele sugeria era horroroso demais para ser verdade.
   _Est insinuando que meus pais foram assassinados por ordem de Setton?
   _No. Duvido que ele lhes desejasse a morte. Queria apenas lhes ensinar uma lio porque seu pai o desafiava. Cheguei  concluso de que os bandidos eram mercenrios
contratados por Setton para assustar seu pai. Algo deu errado e eles foram mortos. Mas como eu disse, no tenho provas.
   Claire estava Lvida.
   _Ser que os mercenrios agiram por conta prpria e meu pai, sabendo das intenes deles, veio tentar impedi-los?
   _Com que propsito, lady Claire? Mercenrios s lutam a troco de moedas. No teriam atacado se j no houvessem sido pagos. Sei que, depois desse dia, nenhum
deles voltou a ser contratado por Dasset.
   _Deus misericordioso - Claire murmurou.
   Bernard notou-lhe a angstia quase to profunda quanto  dele. Se Wat estivesse certo, a falsidade de Setton com o vassalo fora imperdovel.
   _Wat, voc sabe por que meu pai tentou tratar diretamente com o bispo de Durleigh?
   _Seu pai e Setton divergiam em muitos pontos, e Granville queria que voc herdasse Faxton aps sua morte. Setton no concordava. O bispo, sim.


   CAPTULO 11

   A pequena igreja de pedra, de St. Michael, orgulhava-se do tom de seu sino no alto da torre quadrada, de estilo normando. A luz filtrava-se no trio atravs de
dois vitrais, ambos presentes de Granville Fitzgibbons, lorde de Faxton. Um por ocasio de seu casamento com Alice e o outro na do nascimento do filho.
   Uma placa de bronze, do tamanho de um homem, marcava o lugar onde o casal fora sepultado. Ficava ao lado do altar em que haviam se casado. Bernard achava apropriado.
   Ele passou os dedos pelas letras salientes de seus nomes, esperando que descansassem em paz. O mesmo no aconteceria a ele se no descobrisse a verdade sobre
suas mortes. Infelizmente, as nicas pessoas que a conheciam encontravam-se sob a placa... alm de Odo Setton.
   _Talvez Wat esteja enganado - Claire murmurou s costas dele.
   Bernard duvidava e Claire tambm, ele achava. Ambos estavam horrorizados com as suspeitas de Wat. Queriam respostas. Ela, porm, por razes diferentes das suas.
   Claire ajoelhou-se ao lado, sem toc-lo ou falar.
   Ele tentou, em vo, rezar. Pensava em vingana. Mas a igreja no era o lugar para isso.
   _Devemos voltar ao solar - sugeriu.
   Mas levou alguns instantes para criar coragem e se levantar.
   J estavam quase chegando quando Claire perguntou:
   _Como vamos descobrir a verdade? Quem mais, alm de meu pai, deve sab-la?
   _O bispo Thurstan, caso estivesse vivo.
   _Isso deixa os bandidos ou mercenrios - ela disse e respirou fundo. - E voc.
   Ele no acreditou no que ouvira.
   _Eu?
   _Voc estava l. Lamento muito, Bernard, por tudo que aconteceu e pelo quanto est sofrendo. Mas voc estava l e parece saber detalhes significativos, nos quais
nunca mais pensou desde aquela noite.
   Ele odiava a possibilidade de Claire estar certa. Havia enterrado as lembranas depressa e bem no fundo da mente. Sofreria se as revivesse. E duvidava ser capaz
de se lembrar de detalhes pequenos, pois mal suportava pensar nos fatos proeminentes.
   Ele jamais contara a histria toda a algum. Nem mesmo aos cavaleiros que considerava mais como irmos do que amigos. Pedacinhos tinham vindo  tona, especialmente
em noites de tdio e de muito vinho, quando se sentavam no deserto e comparavam as maneiras de como a malha das Cruzadas os apanhara.
   _Isto no vai ser fcil - confessou.
   Ela acariciou-lhe o brao que a mantinha firme na sela.
   _Eu sei. Gostaria que existisse uma maneira menos dolorosa para voc desenterrar as lembranas.
   Tambm seria difcil para ela. Enquanto Bernard procurasse provas para acusar seu pai, ela tentaria encontr-las para inocent-lo. Sabia que ele era mau, mas
filho algum haveria de querer um pai to cruel.
   _Claire, quanto das terras de seu pai so arrendadas do bispo de Durleigh?
   _Quase a metade.
   _E ele tem o direito de pass-las para os herdeiros?
   _Creio que sim.
   Seu pai j cedeu alguma a um cavaleiro fundirio?
   _No.
   Ento, Granville Fitzgibbons fora o rebelde. Se houvesse vencido, outros teriam procurado o bispo. Setton, ento, perderia fontes de renda e o controle de muitas
terras.
   Suficiente para matar? Talvez.
   De volta ao solar, Bernard prendeu Cabal  rvore. Determinado a refletir sobre o problema, foi para trs da casa. Seria mais fcil comear por l. Claire o acompanhou.
   _Eles puseram fogo ali - Bernard contou, apontando para as pedras enegrecidas no canto do solar. - Mame e eu j dormamos quando papai sentiu cheiro de fumaa
e nos acordou. Ns nos vestimos depressa, pegamos baldes e corremos para o poo.
   Bernard revia o fogo e ouvia o estalar das chamas.
   _A pilha no era grande, mas feita de madeira seca e palha, provocava uma fogueira alta. Mame tirava a gua do poo enquanto eu e papai corramos de um lugar
para o outro. O maior temor dele era que o sap do telhado pegasse fogo. Por isso, o primeiro balde de gua que jogou foi para umedec-lo um pouco. Tentei atirar
o meu no alto das chamas.
   O        calor era terrvel e o fizera recuar depressa.
   _Meu pai e eu sabamos que algum tinha premeditado aquilo. Enquanto lutvamos para apagar o fogo, ele observava os arredores  procura do culpado que poderia
estar nos vigiando.
   Bernard lembrou-se da dor nos braos e nas pernas, provocada pelo esforo.
   _Ns estvamos exaustos, molhados e sujos de fuligem quando terminamos. Meu pai tinha queimado a mo ao puxar uma acha para longe da parede. Ele me mandou buscar
um ltimo balde para apagar umas brasas restantes. Eu me afastei, pensando que o perigo tinha passado.
   A mo de Claire segurou a dele. Um elo com o presente. Ele a apertou enquanto o passado voltava a envolv-lo. A. ida no tinha contado o pior.
   Com o fogo apagado, a escurido e o silncio retornaram. Mal consegui encontrar o caminho at o poo. Entreguei o balde a mame e disse: "S mais um." Ela afagou
meus cabelos e afirmou que os braos s agentariam puxar aquele. Depois riu, prometendo tirar mais um para papai e eu nos lavarmos, pois no queria que sujssemos
os cobertores.
   Bernard desviou o olhar para alm do poo e fixou-o no lugar de onde os atacantes tinham surgido da mata. O tropel dos cavalos ecoou em seus ouvidos, o pavor
de um menino apertou-lhe o corao.
   _Eu j voltava para perto de meu pai quando os ouvi se aproximando. Quatro sombras imensas e negras saram da mata. Fiquei to aturdido que no consegui me mexer.
Nem mesmo quando um me puxou para cima da montaria.- Ento, mame gritou.
   Numa voz alta e estridente, ela havia chamado seu nome, num pedido de socorro. O pavor da me tinha penetrado-lhe o medo, fazendo-o recobrar os movimentos. Tarde
demais.
   _Dei pontaps e murros como se tive se enlouquecido. Acho que acertei um no queixo do bandido, mas ele me segurou com fora. Assegurou que se eu ficasse quieto,
nada me aconteceria. No dei ouvidos e continuei a lutar. Tinha de socorrer minha me.
   Bernard no havia conseguido chegar ao lado dela e, muito menos, ajud-la. Quatorze anos tinham se passado desde que ele fracassara. Nada que fizesse ou dissesse
mudaria sua reao daquela noite. Talvez ainda pudesse fazer justia.
   _Ca junto com o homem que me segurava. Meu pai nos puxara da montaria. Rolei pelo capim e percebi que os dois lutavam. Um instante depois, meu pai me ajudava
a ficar em p e mandava que eu corresse em busca de socorro. A ltima vez que o vi, ele tinha arrancado a espada do bandido e corria em direo a minha me.
   _Ah, Bernard - Claire murmurou ao abra-lo pela cintura.
   Ele encostou a face em seus cabelos e lutou contra as lgrimas.
   _Corri at a igreja de St. Michael e toquei o sino. Trs badaladas e uma pausa, dezenas de vezes. Os vizinhos conheciam o sinal. Correram ao solar. Tarde demais.
Quando cheguei, os quatro homens e suas montarias tinham sumido. Pessoas andavam de um lado para o outro, mulheres choravam. Fui direto ao poo.
   Antes de chegar l, Bernard viu os pais cados e percebeu, pela imobilidade deles, que estavam mortos. Sentiu o cheiro de sangue e as mos de Wat nos ombros,
puxando-o para trs.
   _Meu pai tinha alcanado minha me. Podia-se ver por onde ele correra sobre os canteiros. As mos deles se tocavam.
   _No conte mais - Claire pediu entre soluos.
   Abraou-o pelo pescoo e encostou a face molhada de lgrimas na dele. Bernard estreitou-a com fora, virou-se um pouco e encontrou seus lbios esperando pelos
dele.
   Beijou-a com avidez. Sua boca mida tinha o sabor das lgrimas salgadas misturado ao de mel. Como se tomasse um vinho adocicado, o efeito intoxicante o dominou.
   Ele oferecia ou recebia consolo? A mente atordoada no sabia. Ento, o beijo mudou de confortador para apaixonado.
   Claire segurava-se a ele e o retribuia com ardor. Estava ofegante e o corao trovejava. Ele poderia possu-la ali mesmo, no capim atrs do solar. Assim seu corpo
afirmava.
   Bernard conhecia os sinais de desejo numa mulher. Claire tambm? Saberia ela pelo que seu beijo e seu corpo suplicavam? Ou, emocionada, se perdera? Ela o desejava
ou tentava consol-lo?
   Interrompeu o beijo.
   _No quero e nem preciso de sua piedade, Claire.
   _Ento, sinta um pouco por mim. Afaste a tristeza, Bernard e nos leve aonde no existe sofrimento, apenas prazer inconseqente.
   Ela ignorava que tambm existia dor no prazer, uma to intensa que os levaria  loucura. Poderia possu-la, mas apenas pelas razes certas.
   Afagou-a nos cabelos e lembrou-se de quando ela os soltara.
   _Hoje de manh, voc tirou a rede. Por qu?
   Esperava seu rubor, mas deparou-se com um olhar cintilante.
   _Foi uma tentativa frgil para seduzi-lo e o forar a descer do telhado.
   Ele quase havia despencado l de cima.
   _E se tivesse conseguido?
   Determinada, ela no desviou o olhar.
   _Eu o teria arrastado at minha enxerga.
   Ora, piedade. Sua franqueza o assombrava. Se ele no houvesse visto a fumaa no chal de Lillian, mas respondido ao canto de sereia de Claire, j teriam feito
amor.
   A agitao provocada pela narrativa dele comeava a se dissipar. Vises de fogo e sangue esmaeciam. A dor passava. Se ele se perdesse em Claire tudo desapareceria?
   Egosmo puro, reconheceu. Mas Claire parecia disposta e ele necessitava tanto de seu aconchego.
   Beijou-a nas sobrancelhas, na testa e atrs da orelha.
   _Sua enxerga, ? Tenciona dormir?
   _Ah, no - respondeu ela meio sem flego outra vez. - Pelo menos no antes de nos pormos  vontade.
   A viso de tal intimidade quase o desnorteou. Percebeu que ambos se imaginavam nus e em unio absoluta.
   No podia esperar mais. Ergueu-a no colo e rumou para o interior do solar. Ele a levaria quele lugar de prazer inconseqente, lhe proporcionaria o xtase que
havia pedido. E de que ele precisava.
   Bernard caiu na enxerga com Claire entre os braos. Beijou-a at quase ficar insano. Acariciou-a at no suportar mais o contato com a seda e ansiar por sentir
a maciez e o calor de sua pele.
   O lao de seu vestido cedeu com facilidade. Ele afastou o decote expondo-lhe os ombros. A pele tinha a tonalidade de creme e um sabor muito melhor. Os lbios
estavam midos e os olhos, cintilantes de desejo. Uma libertina disfarada de mulher recatada.
   _E quando estivermos  vontade, o qu, minha lady?
   Ele a provocava, mas Claire notou a carncia escondida na indagao. No ignorava aonde ia uma certa parte do homem. Se no tivesse visto na horta do castelo,
teria certeza de que algo precisaria alcanar-lhe a nsia ntima e alivi-la. Pela salincia no calo de Bernard, sabia que ele a satisfaria sem se importar em
mostrar-lhe como era feito.
   _Sei o que acontece, mas no como. Dependo de voc para aprender.
   Bernard afastou-lhe os cabelos do rosto e refletiu sobre sua confisso de ignorncia.
   _Ah, Claire, eu no deveria. Estamos violando o pacto.
   Ela no fugiria e prometera no seduzi-lo; ele a protegeria e jurara no toc-la.
   _Ento, precisamos fazer um novo pacto. Enquanto estivermos juntos, no fugirei e voc cuidar de mim. Seremos amantes. Vamos fazer amor, Bernard.
   _Minha doce Claire, eu a quero tanto que poderia expirar de ansiedade. Voc tem certeza?
   _Sei que nosso comportamento ter conseqncias, mas se voc no unir seu corpo ao meu, talvez eu tambm morra.
   _E se isso acontecer, serei acusado de no ter cuidado bem de voc, no ?
   _Sem dvida alguma.
   Claire sentiu um puxo na saia. Depois, a mo de Bernard na perna. Fechou os olhos quando os dedos roaram-lhe os joelhos.
   _Pronta para aprender? - ele murmurou.
   _Ansiosa - ela respondeu ao sentir a carcia nas coxas.
   Afastou as pernas para que ele prosseguisse. O toque dos dedos naquele ponto quente e mido fez seu corpo arquear numa splica de contato maior. Pensou que morreria
ao ser atendida, mas protestou quando ele afastou a mo.
   _Mulher vida! - ele acusou.
   _Isso  mau?
   _No! Eu tambm posso ser. Erga o corpo.
   Ajudou-a a se ajoelhar e, depressa, tirou-lhe o vestido. Coberta apenas pela camisa fina, ela sentiu-se exposta, vulnervel, mas poderosa. Jamais algum a tinha
admirado dessa forma, como se fosse lindssima, um tesouro cobiado. Claire sentiu-se uma Vnus, uma deusa.
   _Olhe para voc - Bernard murmurou, certo de no existir outra mulher de formas to perfeitas como as de Claire.
   Do arredondado dos ombros, aos mamilos rosados,  cintura, aos quadris e s pernas bem torneadas, Claire era de uma beleza mpar.
   Os bicos dos seios, excitados, foravam o tecido fino da camisa. Ele os roou com a palma das mos, numa tnue idia do que faria depois. Claire estremeceu. To
sensvel. To rara.
   Bem devagar, Bernard tirou-lhe a camisa, tocando a curva dos quadris, da cintura e o lado dos seios. Ao mesmo tempo, beijava-a.
   Claire foi bem menos paciente com a tnica dele. Levantou a bainha e, com as mos sob ela, tirou-a num piscar de olhos. Mas quando tocou o cinto, ele segurou-lhe
as mos.
   _Ainda no.
   Ela o fitou com olhar confuso.
   _Se voc est pronta para apreciar o prazer, tenho de controlar o meu - Bernard explicou.
   _Ah! Quando estiver preparado, me avise para eu tirar seu calo.
   Uma ordem que seria obedecida de bom grado. Mais tarde.
   Pele na pele, boca na boca, Bernard deitou Claire na enxerga e a reverenciou. Sem pressa alguma, descobriu os lugares em que ela gostava de ser tocada. Saboreou
seus beijos e as carcias exploradoras de seus dedos inexperientes.
   Ela aprendia depressa, inflamando-lhe a paixo e quase impedindo-o de se controlar.
   Claire encantava-se com os murmrios e os gemidos dele. Cada vez que o tocava no peito, ele revelava a satisfao. Se percorria os dedos ao longo do brao, os
msculos dele fremiam. E se fosse na barriga, ele estremecia.
   Mas quando suas mos chegavam perto do cinto, Bernard recuava. Porm, cada vez para menos longe.
   O que ele lhe fazia era inacreditvel. Este homem imenso possua a fora de um urso e a docilidade de um cordeiro. As mos de dedos longos, que empunhavam a cimitarra
com firmeza, a acariciavam delicadamente como se tangessem as cordas de uma harpa.
   Sem dvida, ele fizera isso muitas vezes antes. Claire no se ressentia, pois beneficiava-se da experincia dele. Bernard sabia onde tocar ou beijar.
   Como se ouvisse seus pensamentos, ele baixou a cabea e tomou um dos mamilos na boca. A Lngua envolveu o bico, enlouquecendo-a.
   Ela se consumia de aflio em partes suas que, at ento, ignorava possuir. Mais uma vez, tocou o cinto e ele no recuou. O momento chegara.
   _Erga-se um pouco - pediu ela.
   Juntos, ajoelharam-se novamente. Com dedos trmulos, ela soltou o cinto e baixou-lhe o calo.
   _Magnfico! - exclamou ao ver a parte que, esperava, coubesse dentro dela.
   _Voc acha? - Bernard perguntou.
   _Sem sombra de dvida!
   _Cuidado, Claire!
   _Di?
   _Uma dor deliciosa.
   Como as suas no mago.
   Apressado, Bernard descalou as botas a fim de acabar de tirar o calo. Em seguida, livrou Claire dos sapatos e das meias. Voltaram a se deitar e ele, mais uma
vez, estimulou-lhe a paixo.
   Ela exultou com a meiguice e a delicadeza dele, embora se mostrasse afoito. Com sua determinao tpica, Bernard provava a virilidade.
   A combinao de guerreiro intrpido e corteso atencioso era irresistvel. Intoxicante.
   Ela retribuiu como sabia. Com carcias e beijos, igualou-se a ele. Quando o viu soerguer-se com olhar ansioso e corpo tenso, abriu-se para receb-lo e consumar
a unio absoluta. Sem o mnimo receio no corao ou na mente.
   Bernard iniciou a penetrao com o maior controle possvel. Nunca tinha gasto tanto tempo e cuidado para preparar uma mulher. Apenas para esta, que o recebia
em sua virgindade, demonstrava pacincia.
   Apenas para Claire.
   Aos poucos, foi penetrando at encontrar a barreira esperada, mas na qual no pensara muito.
   Poderia recuar. Deix-la intacta. Havia outras maneiras para lhe proporcionar prazer, ou para ele se satisfazer. Com o arquear do corpo e um impulso dos quadris,
Claire tomou a deciso por ele. Uma exclamao abafada. Uma sombra de sorriso.
   Ela era sua.
   Com impulsos longos, ele a estimulou profunda e completamente. Observava-lhe as feies e a tenso crescente. Na iminncia de seu xtase, investiu e parou, segurando-a
no limite do apogeu.
   _Bernard! - ela gritou.
   Ainda ouvindo-a, levou-a  exploso do prazer e perdeu-se com ela.
   As ondas de seu climax misturaram-se ao pulsar do dele. Perfeito. Magnfico. Apenas com Claire.
   Encostou o rosto em seu pescoo. Sentia seu corao disparado de encontro ao peito e deliciava-se com seus dedos entre os cabelos. Tinha sido conquistado pela
dama libertina de quem no queria se separar.
   Resignado, ergueu-se para deix-la respirar melhor. Ela o puxou de volta.
   _Podemos fazer outra vez? -
   Para espanto dele, a pontada do desejo se fez sentir como se houvesse recebido uma ordem que no permitia recusa.
   _Mulher insacivel.
   _Pelo que vejo, voc tambm .
   Dessa segunda vez, seus quadris acompanharam o ritmo crescente dos impulsos vigorosos. Havia mais sensualidade ardente, mais instinto do que amor. Focalizavam-se
mais na sensao da unio homem e mulher.
   Dessa vez, ele foi o conquistador.
   Mas enquanto se deliciava com a vitria, sentiu uma ponta de dvida. A mulher que havia pedido uma segunda vez e o acompanhado passo a passo, no parecia subjugada,
mas feliz da vida.
   Nesse momento, Bernard percebeu que jamais encontraria outra mulher to perfeita, linda e sensual como Claire. Nenhuma outra seria capaz de lhe proporcionar a
excitao, a paz e a alegria de momentos atrs.
   Com Claire, ele poderia compartilhar as lembranas mais profundas e sombrias e, ento, gozar uma satisfao muito maior do que a jamais sonhada.
   Deveria ser sua mulher.
   Ele havia pedido a recompensa errada. Devia ter exigido o casamento com Claire.


   CAPITULO 12

   _Preciso me Levantar - Claire disse, mas no se moveu.
   _Fique a - Bernard recomendou ao desvencilhar o corpo do seu e ficar em p.
   Nu. Maravilhoso.
   _Mas estou com fome - protestou.
   _Ainda? - ele perguntou com olhar malicioso.
   _De comida, homem.
   Ele riu.
   _Eu sei. Ouvi seu estmago roncar.
   Bernard estava com o ouvido perto dele naquele momento, mas ocupado demais para ouvi-lo, Claire pensara. E o que fazia era to delicioso que no merecia ser interrompido
por algo to prosaico como alimento.
   Ela no se deu ao trabalho de cobrir-se. Bernard gostava de apreci-la e ela adorava aquele olhar de admirao.
   J eram amantes. E se essa tarde indicava algo, ela precisaria de muita energia para acompanh-lo. Tinha de se alimentar.
   _Acho que sobrou um resto de torta de carne - disse ela. Bernard virou-se de costas e Claire admirou-o mais  vontade.
   Ele tinha ndegas muito bem-feitas. Alis, como todos os outros msculos do corpo. E tornavam-se rijos como pedra quando usados. At os das ndegas. Ela os havia
sentido, sob as mos, durante os impulsos. E agora, os via ondular enquanto ele se dirigia ao outro lado do cmodo.
   Bernard pertencia a Faxton. Ele movia-se pelo solar com a facilidade e a firmeza de um lorde. Se o pai no tivesse sido to avarento, Granviule...
   Tentou no pensar nos dois. Mas as revelaes desse dia continuavam a rondar-lhe a mente. As suspeitas de Wat e a histria terrvel de Bernard eram como nuvens
negras de uma tempestade que ameaava desabar sobre a tranqilidade do momento e atormentar Bernard novamente.
   Ele mostrava-se satisfeito e ela, saciada a ponto de se sentir lnguida. Talvez pudessem manter a tempestade longe por um pouco de tempo.
   Bernard voltou com a torta de carne, uma caneca de folha e uma garrafa de vinho aberta.
   _De onde veio isso?
   _Da Frana - ele respondeu como se a tivesse comprado l.
   _Voc no carregou a garrafa na sacola esse tempo todo. Eu teria notado.
   _Eu a comprei em Durleigh e pensei em guard-la para uma ocasio especial. Esta  a melhor que jamais terei.
   Ela no o tinha visto compr-la. Seria difcil com o capuz puxado sobre o rosto e atenta a uma possvel aproximao dos soldados do pai. Ele lhe deu a garrafa
e a caneca e sentou-se a seu lado na enxerga.
   _Qual  a ocasio? - indagou ela.
   _Voc.
   _Ah!
   Contente, ela serviu o vinho e ps a garrafa e a caneca perto do joelho de Bernard. Ele partiu a torta em dois pedaos e deu-lhe o maior. A crosta macia e o recheio
saboroso dispensavam elogios, mas ele apenas beliscava sua parte.
   Claire no acreditava que ele no estivesse com fome. Ambos no tinham comido desde a manh e o estmago dele tambm devia estar vazio. Isso sem falar na energia
gasta  tarde.
   _ Est sem apetite?
   _ Muito pouco.
   _ Ser que est doente? Talvez tenha pegado meu resfriado.
   _ No. Falta de fome mesmo.
   Bernard parecia aborrecido. A tempestade j se aproximava.
   Claire temia continuar pensando no passado e quase lamentava ter insistido com ele para contar a histria. Quase. Bernard precisava deslindar a questo do assassinato
dos pais e ela, descobrir a parte que o pai tomara no crime.
   Ele costumava tomar medidas drsticas, seus mtodos preferidos de castigo eram o ecleo e o chicote. A possibilidade de perder Faxton o teria feito ir longe demais?
   Havia algo mais alm da perda de Faxton. Se Granville Fitzgibbons tivesse conseguido a posse das terras diretamente do bispo de Durleigh, outros cavaleiros fundirios
teriam requisitado o mesmo privilgio ao bispo. Com os recursos delapidados, Dasset correria um certo risco.
   Claire podia entender o raciocnio do pai, mas os mtodos dele a abalavam.
   Saboreou o ltimo bocado da torta e olhou para a caneca. Bernard a enchia de novo. Ele podia no estar comendo, mas bebia bem.
   _Isso ajuda? - ela perguntou, apontando para a garrafa pela metade.
   _No muito.
   Ele deitou-se de costas, com os braos cruzados sobre a testa e os joelhos levantados.
   Embora detestasse faz-lo, ela precisava instig-lo a falar novamente. Ele tinha guardado as lembranas sombrias por tempo demais. Firmada num dos cotovelos,
acomodou-se tambm na enxerga. O outro brao, ps sobre o peito dele.
   _Voc voltou ao solar e percebeu que seus pais estavam mortos. E depois?
   Bernard suspirou.
   _Ah, Claire, estou com dor de cabea.
   _So as recordaes horrveis chacoalhando dentro dela. Deixe que saiam.
   Ele virou a cabea a fim de fit-la.
   _No h muito mais para contar. Alguns homens tentaram seguir o rastro dos cavalos, mas no conseguiram. As mulheres cuidaram de meus pais. Eu no podia fazer
nada alm de me agarrar a Lillian. Perto do amanhecer, seu pai chegou.
   _Wat afirmou que ningum o havia chamado. Ele no explicou por que tinha vindo?
   _No me Lembro. Ele e os soldados simplesmente apareceram.
   _Ele no poderia ter ouvido o sino? Ou, quem sabe, algum, entre Faxton e Dasset, ouviu o sinal e alertou meu pai?
   Bernard refletiu sobre as possibilidades.
   _Muito longe para algum em Dasset ter ouvido. Quanto a uma pessoa no meio do caminho,  possvel. Mas acho que Wat teria descoberto isso mais tarde, caso houvesse
acontecido.
   Com certeza. O funeral de lorde e lady de Faxton fora muito concorrido. Se algum houvesse avisado o senhor feudal, contaria a mais uma pessoa, pelo menos, e
tal detalhe se espalharia. Por que outra razo o pai teria sado de madrugada a no ser a de que j soubesse do ataque e quisesse aparecer em Faxton logo depois?
   _Ento, meu pai o levou para Dasset? - ela perguntou para for-lo a continuar.
   _Setton achava que seria melhor para todos se eu fosse morar l. Lillian ofereceu-se para ficar comigo, mas ele no concordou. Ento, fui.
   E s voltaria a Faxton quatorze anos depois.
   _Eu me lembro do dia em que voc chegou ao castelo. Mame, meus irmos, minha irm e eu voltvamos da missa matinal e ainda estvamos no ptio. Voc sentava-se
no fundo de uma carroa. - Isso a intrigou. - Imagino por que meu pai tinha levado uma carroa.
   _Voc se lembra da primeira vez que me viu?
   _Sim, mas no deixe isso lhe subir  cabea. Eu sempre sentia curiosidade pelas pessoas novas que apareciam em Dasset, e um menino tristonho despertou meu interesse.
   _Tambm me lembro da primeira vez que a vi. Foi no dia seguinte. Sua me tinha arrumado vocs quatro com suas melhores roupas e os colocado na escada de entrada
a fim de saudar um visitante da nobreza. Eu a achei rgia demais para algum to criana. Mas ento, voc desmanchou a impresso ao erguer um pouco a saia a fim
de fazer uma reverncia. Voc estava descala. Sua me quase desmaiou.
   Claire lembrava-se do incidente.
   _Meus sapatos estavam apertados e me machucavam. Papai tinha prometido comprar um par novo em Durleigh, mas... -  Interrompeu a explicao. - Bernard, por isso
meu pai tinha uma carroa. Havia ido a Durleigh comprar suprimentos, mas esqueceu meus sapatos.
   Bernard sentou-se e sorveu outro gole de vinho.
   _Nunca soube que seu pai fosse ao mercado. As compras eram sempre encomendadas e enviadas a Dasset.
   _E verdade. Mas talvez ele tivesse de tratar de algum negcio e resolvesse lev-las. Podia estar a caminho de Dasset e, por alguma razo, parou em Faxton.
   _Ora, Claire, era de madrugada. Setton precisaria ter sado de Durleigh no meio da noite. Isso levanta suspeitas sobre o tipo de negcio que poderia ter tratado
na cidade. Oportunidade excelente para contratar mercenrios e incumbi-los de matar meus pais. Depois, na volta para Dasset, parou aqui a fim de ver se as ordens
tinham sido cumpridas.
   Plausvel. Claire desistiu de procurar desculpas para o comportamento do pai. Cada vez que sugeria um motivo inocente para ele, Bernard encontrava, no prprio,
razo para incrimin-lo.
   _Quando papai vai a Durleigh, fica na Royal Oak. Se pudssemos conversar com os proprietrios, talvez nos dissessem por que ele estava l e com quem se encontrara.
Mas isso nos foraria a voltar  cidade e poderamos no ter a sorte de escapar como da ltima vez.
   _Eu estava pensando em ir procurar Simon.
   Claire temia a idia de envolver a autoridade judicial na questo.
   _Sei que  seu amigo, mas ele pode se sentir obrigado a prend-lo. Ento, voc perderia o resgate e a liberdade.
   _Cada vez mais, o ouro me atrai menos.
   Claire percebeu que Bernard desistiria dele se pudesse provar o crime de seu pai. Mas se fizesse acusaes sem provas, o desmentido do senhor feudal o prejudicaria
como no caso da recompensa. Ela quase podia ouvir o pai vociferar ameaas.
   No queria voltar para Dasset antes da chegada de Marshall ou de Julius, caso este viesse para o casamento. Precisava de um deles para proteg-la contra a ira
do pai. Razo egosta, admitiu. Porm, tambm era do interesse de Bernard realizar o plano original.
   _Voc deve receber o resgate primeiro. Depois, se quiser tratar da outra questo, ter fundos e liberdade para faz-lo - ela o aconselhou.
   _Eu desejava ter mais respostas do que perguntas.
   Claire o puxou e ele tornou a deitar-se a seu lado.
   _Reflita por uns dois dias. Ainda h tempo.
   Tempo para ns.
   Ps a cabea no ombro de Bernard e ele a rodeou com os braos.
   _Sim, ainda h um pouco - ele disse com menos entusiasmo do que ela desejava.
   Teria de convenc-lo a esperar. O pai ficaria horrorizado se soubesse que ela incentivava Bernard a ser paciente a fim de receber o ouro.
   A vida inteira, tentara conquistar a aprovao do pai. Como nada adiantasse, tinha acabado desistindo como Julius. A exemplo do irmo, ela havia se esforado
para contrabalanar os excessos do pai. Pagava um bom preo quando suas interferncias eram descobertas, mas alegrava-se ao aliviar o sofrimento de outras pessoas.
Isso valia as escoriaes.
   Desde o noivado, a situao tinha melhorado muito. O pai j no ficava de mau humor com freqncia.
   At Bernard chegar e exigir a recompensa.
   Claire passara a acreditar inteiramente em Bernard. Ele havia confiado na palavra de Odo Setton porque o bispo Thurstan testemunhara o acordo. Com a morte deste,
Setton achara-se livre da promessa. Levando-se em considerao as possveis aes do pai no passado, ele devia muito mais do que Bernard havia pedido por seu resgate.
   Bernard merecia ficar com Faxton. E com o ouro.
   Merecia a mim tambm.

   _No se preocupe comigo, Bernard. Enquanto voc e Garth forem pescar nosso jantar, eu e Lillian ficaremos conversando - Claire afirmou ao notar a relutncia dele
em deix-la no chal.
   _Eu preferia que voc fosse conosco.
   _Apanhe e limpe os peixes que eu os assarei. Mas ficar esperando que eles mordam a isca no  minha idia de diverso.
   _Iremos para dentro a fim de preparar ervas e conversar sobre assuntos de mulher - Lillian disse. - Vo sossegados.
   _Por pouco tempo, elas no correro perigo. Lembre-se, como meu pai contou, Setton parou as buscas - Garth disse.
   _Est bem. Mas as duas fiquem atentas a qualquer sinal de perigo. Se gritarem bem alto, eu ouvirei - ele recomendou, ainda hesitante.
   _No vai acontecer nada - Claire garantiu.
   _Eu queria ter a mesma certeza - ele disse ao levantar a mo como se fosse toc-la, mas baixou-a. - Tome cuidado. No vou ficar longe e nem por muito tempo.
   Claire esperou at Bernard e Garth se afastarem para soltar um suspiro de alivio.
   _Por um momento, pensei que ele no fosse. Mas precisa ficar um pouco na companhia de Garth - ela comentou com Lillian.
   _Vai fazer bem aos dois. Pelo que entendi, Garth esteve no solar esta manh - Lillian disse ao entrar no chal, seguida por Claire.
   Sentaram-se  banca de trabalho.
   _Bernard estava consertando o telhado e Garth ofereceu-se para ajud-lo caso, depois, fossem pescar. Voc precisava ter visto os dois, Lillian. Pareciam meninos
ansiosos para terminar o trabalho a fim de poder brincar.
   Lillian riu.
   _Eles sempre faziam isso na infncia.
   _Foi o que pensei. Mas no consegui convencer Bernard a me deixar em casa. Obrigada, Lillian, por me convidar para ficar aqui ao nos ver passar.
   _Minha razo foi egosta. Da ltima vez que vieram, foram embora depressa. Nem pudemos conversar. E eu estou curiosa para saber como os dois se meteram nesta
confuso.
   _Para ser sincera, no me lembro do que j lhe contei, ou no.
   _Pois ento, parta do incio. No importa se repetir algo.
   _Voc sabe da recompensa que Bernard exigiu de meu pai?
   Lillian esmagava alecrim num pilozinho e o aroma espalhava-se pelo ar.
   _Ouvi contar que ele queria terras e voc, mas seu pai negou ter lhe prometido isso.
   _Exato. Bernard mostrou-se disposto a abrir mo de mim, mas no das terras.
   _Tpico de um homem. Terra, sempre terra.
   _Mas ele tinha razo. Pensava que eu estava casada. Se meu pai no tivesse mencionado Marshall e Bernard o entendido mal, ele teria insistido nas duas partes
da recompensa.
   _Provavelmente. Ento, seu pai o encarcerou na masmorra.
   Claire relatou o resto da discusso, o golpe de Henry na cabea de Bernard, o que a fez lembrar-se dele cado na plataforma, com os cabelos sujos de sangue.
   _Avisei meu pai que seria aconselhvel cuidar de um heri da f - ela contou, voltando a sentir raiva por ter sido ignorada. - Depois, tentei persuadir os dois
a refletir. De nada adiantou. Era como querer separar dois carneiros decididos a trocar cabeadas.
   _Mas seu pai levava vantagem.
   _Grande demais. Com Bernard na masmorra, ele podia fazer o que quisesse e como bem entendesse. Temi que exagerasse. Ento, abri a algema de Bernard e pedi que
fugisse depressa e para bem longe. Bem, ele no perdeu tempo, mas como voc v, ficou por perto.
   Ele a tinha trazido para casa.
   Ao v-lo trabalhando com Garth no telhado, ouvindo-os rir, sua certeza de que Faxton era o lugar dele tinha aumentado. Mesmo se recebesse o resgate e comprasse
outras terras, jamais seria feliz longe dali. Infelizmente, enquanto seu pai vivesse, Bernard no poderia morar na regio.
   Lillian ps o pilozinho de lado e foi at a lareira onde apanhou a chaleira com gua quente. Claire notou-lhe a agilidade. Apesar de j ser um tanto idosa, seus
movimentos continuavam firmes e eficientes. Os montinhos de ervas alinhavam-se com preciso na banca. Embora contasse com a presena de uma visita, ela no se distraa,
mas dedicava ateno ao trabalho.
   Suspeitando do acidente da vspera, Claire perguntou:
   _Lillian, como voc conseguiu, ontem, pr fogo na panela e provocar tanta fumaa a ponto de alarmar os vizinhos?
   A velha senhora enrubesceu.
   _Eu expliquei. Fui um tanto descuidada.
   _No  verdade. Espalhar aquela fumaa negra no ar foi o mesmo que tocar o sino. Voc queria reunir Bernard e os outros.
   Lillian ofendeu-se e largou a panela na banca.
   _Voc est imaginando demais.
   _Ser? De alguma forma, voc descobriu que tnhamos voltado a Faxton e queria que Bernard se encontrasse com os arrendatrios do pai, especialmente com Wat e
Garth. Ento, voc os juntou da maneira mais rpida que conhecia. Creio que voc quer o melhor para Bernard e ele sabe que ainda tem amigos aqui. Mas  preciso entender
que ele no pode tomar o lugar do pai no solar. To logo receba o resgate, ter de partir.
   _No, se comprar o direito do bispo.
   _Este no lhe vender nada se o pagamento for feito com o ouro ganho atravs de um crime. Bastar meu pai declarar Bernard um fora-da-lei para todos os homens,
daqui at bem alm de York, se sentirem obrigados a entreg-lo  justia.
   _Talvez Bernard devesse procurar a autoridade judicial e pedir-lhe para investigar a morte de Granville.
   Desde a conversa da vspera, sobre a possibilidade de Bernard procurar Simon, o assunto no fora mais mencionado. E Claire no queria faz-lo.
   _Quem sabe? Mas sem provas do envolvimento de meu pai na morte dos Fitzgibbons, a autoridade judicial no poder fazer nada.
   _Deve existir uma maneira de Bernard ficar com o lugar a que tem direito. Ele nasceu,  de Faxton - Lillian insistiu.
   _Concordo, mas infelizmente, meu pai, no.
   _E Julius?
   _No sei. Ele tem mais senso de justia do que meu pai. Caso venha para meu casamento, posso lhe pedir para interceder a favor de Bernard. Duvido que o esforo
dele para amenizar a ira de meu pai tenha mais sucesso do que o meu. Tambm, ser tarde demais. Bernard j ter partido.
   _E voc estar casada. Lamentvel. Voc deveria ser a lady de Faxton.
   Claire apertou os lbios para no ceder  tentao de concordar. Tinha chegado  mesma concluso enquanto se aninhava entre os braos de Bernard. Mas havia afastado
a idia para longe da mente. No seria a lady de Faxton e sim de Huntingdon.
   Na verdade, admirava o magnfico castelo de Eustace Marshall, onde velas brilhavam em castiais de ouro, iluminando paredes revestidas de mrmore luzidio.
   E as pessoas que se encontravam l? Todas exibiam roupas de tecidos finssimos, no ltimo estilo da moda, e jias preciosas. Apreciavam a poesia e a msica alm
de se entreterem com discusses sobre a poltica do momento.
   Trovadores eram bem-vindos. Vinho flua em abundncia. Festas constituam um hbito. Alegria estimulava a todos.
   Claire havia ficado maravilhada em sua nica visita l. Ainda mais sabendo que reinaria, como lady do castelo, acima de todos. Pessoas do relacionamento de Marshall
questionavam-lhe a escolha da noiva, pois poderia ter arranjado outra de posio social mais alta.
   Ela tambm achara estranho, mas no se importava com o fato de ser aceita por causa de umas braas de terra que o interessavam. Depois de acertados os termos
do noivado, Eustace lhe dera um beijo rpido e ela se considerara afortunada.
   Mas enquanto se imaginava num palcio lindssimo, Bernard sonhava com um solar aconchegante de pedra - e com Claire Setton.
   Curioso. Ela agora se dava conta de que poderia ser to feliz num pequeno solar quanto num imenso castelo. Era o homem, e no a residncia, que fazia a diferena.
   Se Bernard e Eustace ficassem lado a lado e a mandassem escolher um dos dois, ela apontaria para Bernard, o homem a quem amava, e no para aquele com quem deveria
se casar.
   Clare respirou fundo. Como permitira que isso acontecesse? Como, em pouco mais de uma semana, tinha se apaixonado pelo homem fora de seu alcance? At ento,
havia admitido afeio. Teria amado Bernard todo esse tempo e se enganado porque sabia o quanto sofreria quando a realidade se impusesse?
   Se pudesse escolher...
   Com esforo, encontrou a voz.
   _No serei a lady de Faxton, Lillian. No importa o que acontea, terei de me casar com Eustace Marshall. Se este seqestro interferir com o casamento e com a
aliana com Marshall, meu pai enlouquecer. Ele perseguir Bernard mesmo que tenha de usar todos os seus soldados e gastar at sua ltima moeda.


   CAPTULO 13

   Garth deu-lhe um empurro e Bernard escorregou no fundo liso da lagoa. Se ia submergir, no seria sozinho. Ao mergulhar, puxou o brao do amigo, levando-o junto
para dentro da gua fria.
   Tossindo, ps a cabea para fora e riu ao ouvir Garth afirmar que, na prxima vez, se lembraria de sua agilidade. A gua estava deliciosa e rir fazia bem.
   Garth tinha ficado alto, esguio e incrivelmente forte. Teria de ser, Bernard pensou, para puxar as redes com enguias que encheriam os barris para Setton. Ele
ainda morava com o pai e as duas irms num chal na colina, com vista para a lagoa.
   A me tinha morrido dois anos atrs, contara ele.
   Bernard saiu da gua e foi para onde tinham largado um balde com enguias, as tnicas, as botas e a cimitarra. Vestiu a tnica e tirou o calo molhado.
   _Lembra-se de quando nadvamos nus? - Garth perguntou.
   _Claro. Mas isso foi antes de suas irms crescerem e entenderem o que viam.
   _ E verdade. Eu queria que elas encontrassem maridos e mudassem de casa. So um tormento.
   Bernard no quis indagar o motivo da queixa, ento, contou:
   _A ltima vez que dei um mergulho foi no Nilo. A gua tambm estava deliciosa.
   _Fazia calor?
   _Nem queira imaginar. A areia ficava to quente que fazia bolhas nos ps atravs das botas.
   _Ora, no seja mentiroso.
   Bernard riu, mas no tentou convencer Garth. Quando contara algumas de suas aventuras e batalhas, Garth ouvira com ar ctico e, depois, expressara dvidas.
   Calou as botas e afivelou a bainha da cimitarra.
   Trs das quatro enguias no balde eram dele. Quando menino, nunca pescara mais do que Garth. Curioso como a proeza o deixava satisfeito...
   _Quer levar a sua para casa, Garth?
   _No, fique com ela. Sei onde conseguir mais.
   _Uma pena que no sejam percas - Bernard comentou, referindo-se ao peixe to abundante antes na lagoa. - Como Setton pode gostar mais de enguia?
   Garth riu.
   _Ouvi dizer que o bispo Thurstan as preferia.
   _E Setton se esforava para agrad-lo, no ?
   _Muitos faziam isso. Falam que o palcio episcopal contm riquezas indescritveis. Presentes de homens que queriam angariar as boas graas do bispo.
   _Estive no palcio, Garth. Para cada canto que se olha, v-se sinais de riqueza. Os mveis, as tapearias, as esculturas so de grande valor. O bispo Walter
me deu a impresso de ser um homem simples. Imagino que a maioria das preciosidades foi colecionada por Thurstan.
   _Eram os meios para consegui-las que alimentavam os comentrios. Muitos acreditam que Thurstan usava os pecados ouvidos no confessionrio para extorquir bens
materiais dos pecadores ricos.
   _Ele usou o mesmo mtodo para, formar as fileiras da Rosa Preta.
   Bernard imaginava quantos, alm dele, tinham se juntado s Cruzadas atravs das artimanhas de Thurstan. Hugh de Halwell, sem dvida. O bispo insistira com ele
para lutar na Guerra Santa a fim de se redimir da morte de um oponente na lia de um torneio. Hugh no tivera a inteno de mat-lo, mas num combate, mesmo com lanas
rombudas, muita coisa podia sair errada.
   Ansioso para ir buscar Claire no chal de Lillian, Bernard apanhou o balde. Tinha ficado ali mais tempo do que pretendia. Pelo menos, havia resolvido o problema
do jantar. Uma enguia seria suficiente para essa noite e as outras, postas para secar, ficariam guardadas para os dias seguintes.
   _ Antes de voltarmos, quero falar sobre a questo do resgate _ Garth disse. - Voc sabe que no pode confiar em Setton, no ? Ele no vai lhe entregar o ouro
em troca de Claire.
   Bernard tambm duvidava. Porm, tentava no pensar nisso.
   _ Pretendo ser cuidadoso.
   _ Voc no tem olhos nas costas, onde Setton o atacar. No sou bom no manejo da espada, mas enxergo bem. Posso acompanh-lo a Durleigh quando for receber o resgate.
   _No, Garth. Agradeo sua oferta, mas no posso aceit-la. No quero expor ningum, exceto a mim, ao perigo. Alm do mais, preciso de voc para me fazer um outro
favor. Caso esteja disposto.
   Garth suspirou e cruzou os braos.
   _Est bem. Pea o que quiser, meu amigo.
   _Quero que v a Dasset naquele dia. Estou contando com a possibilidade de Setton ir para l com Claire e sem o ouro. Se for assim, voc no ter de fazer nada,
exceto voltar para c.
   _ Onde voc estar?
   _ Depende se eu estiver livre, ou preso, ou morto.
   _No brinque, Bernard.
   _ Falo srio. Tenho umas relquias e preciso que as guarde para mim. Voc pode voltar ao solar comigo e as pegar?
   _ Claro. Vamos embora. Mas ainda acho que voc deveria me deixar acompanh-lo a Durleigh.
   Bernard jogou o calo molhado sobre o ombro e comeou a andar.
   _ O que preciso de voc, Garth,  mais importante. Duvido que Setton queira me matar na cidade. Se puder, vai preferir me arrastar a Dasset e levar tempo para
dar cabo de mim. Mas talvez o destino se mostre favorvel e a troca se faa sem incidente algum.
   _No seja ingnuo. Setton tentar impedi-la. Se sentir que est escapando das mos dele, no hesitar em mandar seus soldados atac-lo, mesmo no centro do Market
Square.
   O que Bernard mais temia era que, to logo pusesse Claire no cho, os soldados avanassem sobre ele. Pessoas inocentes e ela poderiam ser feridas. Havia escolhido
o lugar errado para a troca.
   Mas o tinha achado bom ao explicar a questo do resgate a Henry. Market Square era um lugar aberto, com muitas ruas saindo dele, todas possveis rotas de fuga.
E Setton no criaria confuso onde pudesse atrair a autoridade judicial. Contudo, devia considerar a possibilidade de, a essa altura, ele no se importar com quem
sasse ferido ou se envolvesse na questo.
   Bernard suspirou.
   _ Sabe, tudo parecia to simples quando tirei Claire de Dasset. Como Setton tinha negado minha recompensa, achei que podia exigir um resgate pela filha dele a
fim de compensar meu prejuzo. Mas a questo  bem mais complicada do que supus.
   _Como assim?
   _No incio, eu s me importava com a recompensa. Mas ento, fiquei sabendo das suspeitas de Wat. Agora, quero justia em relao a meus pais. Claire e eu discutimos
sobre vrias possibilidades. Todas elas apontam para o fato de Setton ter querido manter Faxton a qualquer custo.
   _E quanto a Claire?
   _O que voc quer dizer?
   _Bem, ela parece uma vtima satisfeita.
   Bernard lembrou-se da primeira noite quando Claire tentara lhe dar um pontap no queixo e, no dia seguinte, fugir. Mas haviam se beijado no cho da mata.
   _No incio, Claire no mostrou boa vontade. Ento, fizemos um pacto. Em troca de sua cooperao, eu cuidaria dela e providenciaria sua volta a Dasset antes de
seu casamento.
   _Lamentvel voc ter de deix-la ir embora. Ela no fazia parte da recompensa?
   Bernard sacudiu a cabea num gesto afirmativo. No deveria ter desistido dela. Mas Setton no concordaria. Tinha outros planos para a filha aos quais ela no
se opunha.
   Garth prosseguiu:
   _No fui o nico a notar como vocs dois se do bem. V-los no solar pareceu o mais acertado. E muitas pessoas acham que deveria ser um arranjo permanente.
   _Impossvel.
   _Eu sei. Voc deu sua palavra a Claire e ir mant-la. Essa  a razo para acharmos que voc deve ser o lorde de Faxton. Como a de seu pai, sua palavra  confivel.
Bem, Claire deve estar imaginando o que aconteceu conosco. Vamos apressar o passo.
   Porm, quando chegavam, Bernard duvidou que ela houvesse sentido falta dele ou notado a passagem do tempo. Ouviu risadas alegres ao se aproximarem da porta aberta
do chal. As duas mulheres ergueram o olhar quando entraram.
   _ J de volta? Pescaram alguma coisa? - Claire perguntou.
   Seu sorriso e bom humor eram contagiosos, levando Bernard a esquecer os pensamentos sombrios.
   _ Voc duvida de minha habilidade de pescador?
   Seu sorriso aumentou.
   _ Vejo que vamos ter o que comer.
   _ Claro. At peguei mais enguias do que Garth.
   _ S se ele deixou - Lillian disse. - Esse rapaz sabe o lugar em que cada peixe se esconde, juro.
   Desconfiado de que Lllian estivesse certa, Bernard ps o balde na banca e, por sobre o ombro, olhou para Garth. O amigo disfarava um sorriso. Ora, proeza sua
coisa nenhuma.
   _ Ah, so de bom tamanho. timas para assar. Parabns, Bernard - disse Claire.
   O elogio devolveu-lhe o orgulho. Essa mulher podia vir-lo pelo avesso com poucas palavras. Fazer seu mundo rodopiar com uma carcia. Estraalhar-lhe o corao
com uma nica lgrima. Quando se amavam, ela o levava a se sentir audaz, corajoso, capaz de conquistar o mundo sozinho.
   A nica mulher que lhe provocava tais reaes, enfiou a mo no balde e tirou uma enguia.
   _Como um bicho to feio pode ser to saboroso? - ela perguntou.
   Lllian riu.
   _Se for assado com recheio de cebola silvestre, ficar lindo.
   _Ah! Ser que existe cebola perto do solar?
   _Sim. Bernard pode lhe mostrar onde encontr-la.
   Claire deu uma enguia a Lllian e ganhou um punhado de salsa. No caminho para o solar, colheram as cebolas. Depois de acender o fogo e limpar os peixes, Bernard
pediu a Claire para ir tirar gua do poo. To logo saiu, ele pegou as reliquias na sacola.
   Mostrou e explicou uma a uma a Garth, mas deixou a maior e mais valiosa por ltimo.
   _Me de Deus! Isso deve valer uma fortuna! - o amigo exclamou.
   Bernard ps a reliquia de ouro, prata e pedras preciosas na mesa.
   _Dizem que tem os ossos do brao e da mo de So Babylas, um bispo srio e mrtir. Ganhei num jogo de dados, por isso, no fao idia do valor.
   _O que voc quer que eu faa com as reliquias?
   _Por enquanto, escond-las. Se tudo correr bem e eu voltar, as pegarei. Caso Setton me arraste para Dasset, leve-as a Simon Blackstone. Ele deve saber quem paga
o melhor preo por elas e levar as moedas at mim. Vou precisar delas para pagar emolumentos ou taxas.
   _ Voc acha que a autoridade judicial de Durleigh ir tir-lo da masmorra de Setton caso esteja l? Isso se o desgraado no puser a corda em seu pescoo no instante
em que entrar em Dasset.
   _ Setton gosta de brincar com sua vtimas. Por isso, voc deve avisar Simon o mais depressa possvel. Ele ir me socorrer logo, como eu faria por ele.
   Garth fez um gesto desanimado com as mos.
   _ Est bem. Vamos esperar que tudo d certo e que a ajuda da autoridade judicial no seja necessria.
   _ Claro - Bernard respondeu ao comear a embrulhar as reliquias.
   Mas sabia que seria melhor no confiar apenas na sorte.

   De fato, a enguia assada tinha ficado linda. Ao comer at o ltimo pedacinho de sua parte, Bernard admitiu nunca ter saboreado uma to gostosa. Mas tambm nunca
o fizera sentado  frente da mulher adorvel que a tinha preparado.
   _ Faltou sal - ela disse, franzindo o nariz.
   Esse tempero s aparecia na mesa de um homem rico, como Setton ou Marshall. Bernard havia se acostumado sem ele no Egito.
   _ No faltou nada. Estava deliciosa.
   _ Ento gostou?
   _Muito. Macia, nem um pouco seca e com um leve sabor de cebola e salsa. Excelente. Digna da mesa de um rei. Se eu fosse descrever...
   _ Chega, Bernard - ela disse, rindo meio embaraada, mas satisfeita.
   _Gosto de enguia.
   _Pelo jeito  seu peixe preferido.
   _Ah, no, gosto mais de perca.
   _Se no me engano, voc tambm aprecia carne de porco com molho apimentado.
   A comida que Clare havia lhe levado  masmorra, Bernard lembrou-se.
   _Fiquei muito tempo sem provar carne de porco. No Egito, comamos cabrito. Alis, demais. Havia uma cabra que queramos matar, mas no nos atrevamos. Hugh nos
esfolaria vivos.
   _Hugh de Halewell. Voc j o mencionou antes. E tambm Smon Blackstone, claro. Vocs no eram seis?
   _ramos e fomos os nicos a ter a sorte de escapar com vida.
   Claire firmou um cotovelo na mesa e apoiou o queixo nele, esperando que Bernard continuasse.
   _Durante uma das ltimas batalhas, Hugh foi capturado pelos sarracenos. Descobrimos que estava preso e fomos libert-lo. Mais tarde, ficamos sabendo que a batalha
decisiva das Cruzadas fora travada em nossa ausncia. Todos os Cavaleiros da Rosa Preta no existiam mais, exceto ns seis.
   _Por isso, vocs foram dados como mortos?
   _Sim. Tnhamos permisso de nossos comandantes para tentar salvar Hugh, mas acredito que no comunicaram isso s autoridades superiores. Ento, quando a unidade
inteira pereceu, fomos considerados mortos. Aps assinarem os tratados, o resto dos Cruzados ingleses voltou no outono. Devem ter enviado uma mensagem ao bispo
Thurstan avisando que os cavaleiros dele no retornariam.
   _Foi isso mesmo. O bispo Thurstan mandou a notcia a Dasset. Tambm rezou uma missa especial por todos vocs na catedral. Foi uma surpresa quando recebemos sua
mensagem de que estava vivo e em York.
   Com a perna quebrada e sob os cuidados de um velho monge. Depois, ele fora a Hendry Hall a fim de atender a um chamado de Nicholas. Se houvesse ido primeiro a
Dasset, enquanto o bispo Thurstan estivesse vivo e pudesse testemunhar a seu favor, agora, ele teria braas e braas de terra e estaria casado com Claire.
   Mesmo se soubesse como precisaria lutar para receber a recompensa, teria ido ajudar Ncholas a salvar sua Beatrice.
   _Muitas pessoas ficaram surpresas ao saber que estvamos vivos. Nicholas Hendry contou que a me, ao v-lo, perdeu os sentidos.
   _Como ele ?
   _Simptico. Voc gostaria dele. Ainda no conheci uma mulher, com uma nica exceo, que no desmaiasse aos ps dele. Incrvel como fascina as mulheres.
   _ Sei. Um malandro conquistador.
   _ Mas bem comportado agora. Casou-se com a mulher que o estapeou em vez de desmaiar ao ouvir seu primeiro galanteio. Malandro ou no, ningum melhor do que ele
para defender as costas de um companheiro numa luta.
   Claire sorriu.
   _Todos eles podem brandir a espada to bem quanto voc faz com a cimitarra?
   _Sim, exceto Hugh. Ningum se iguala a ele.
   _ Ento, como se deixou capturar? - indagou Claire com ceticismo.
   _ Hugh no ignora a prpria capacidade e  muito impulsivo. Como sempre, ns seis cavalgamos juntos ao campo de batalha. De repente, Hugh soltou um urro, virou
a montaria e, a todo galope, foi ao encontro de uma companhia de sarracenos que ameaava nosso flanco. Tentamos alcan-lo, mas o inimigo nos isolou. Foi uma luta
feroz. Quando terminou, o procuramos entre os feridos e descobrimos que tinha sido capturado e levado embora. Ento, fomos salva-lo.
   Claire tinha os olhos arregalados.
   _ Vocs o libertaram de uma priso sarracena?!
   Bernard lembrava-se de todos os detalhes.
   _ Guy, que  meio rabe e conhece a lngua e os costumes sarracenos, nos fez entrar na cidade, num local perto da priso. Tiramos Hugh e a pequena Maud...
   _ Quem?
   _ Uma criancinha dada a Hugh por uma inglesa que morreu na priso. Uma menina linda. Ns a trouxemos para a Inglaterra conosco.
   Bernard gostava da maneira de Claire fit-lo como se ele fosse o melhor trovador do reino. Seu pai achava que trovadores eram ladres e vagabundos da pior espcie
e quase no lhes permitia a entrada em Dasset. Claire, desde pequena, encantava-se ao ouvir as canes e as histria dos poucos que eram recebidos no castelo.
   Provavelmente, era a singularidade da narrativa que lhe prendia a ateno e no como ele a fazia. Mesmo assim, prosseguiu:
   _ Quando j estvamos fora da priso, ouvimos os gritos dos guardas. Eles aglomeravam-se na muralha. Setas caam como chuva. Hugh estava muito fraco, no podia
correr e foi atingido.
   Claire no conteve uma exclamao. Bernard sorriu.
   _Uma mulher tinha ouvido o choro de Maud e nos reconhecido como cavaleiros. Sendo crist, nos escondeu em sua casa. Salvou nossas vidas naquele dia.
   _Ficaram l muito tempo?
   _No. Era perigoso demais, tanto para ela quanto para ns. Ficamos apenas o suficiente para Gervase tirar a seta de Hugh e o enfaixar. Ento, Guy nos forou a
fugir de um lugar para outro sem parar. Seis cavaleiros, suas montarias, uma criana e Odetta, a cabra mais intratvel do Egito. Juro que a teramos matado e comido
se Maud no precisasse do leite.
   _Que horror!
   _Grande parte foi mesmo, e impossvel de se descrever. Mas tnhamos uns aos outros e estvamos determinados a voltar para a Inglaterra. Na primavera, embarcamos
para c.
   _Agora, entendo por que voc atendeu o pedido de ajuda de Nicholas e tambm tem certeza de que Simon o socorrer se for necessrio. Onde esto os outros cavaleiros?
   _Simon e Nicholas voc sabe. Gervase ia para casa, em Palgrave, no extremo norte. Guy est em Londres procurando um homem que, segundo a me,  seu pai. E Hugh
foi para a propriedade do irmo a fim de deixar Maud l e descansar um pouco antes de recomear a tomar parte em torneios.
   Com ar pensativo, Claire franziu as sobrancelhas.
   _ Se no me engano, Hugh foi convidado para o torneio em comemorao a meu casamento. Estranho que um amigo seu v estar l.
   _ Sem dvida.
   Bernard no gostava nem um pouco que um amigo seu comparecesse ao casamento de Claire e Marshall.
   Sorrindo, ela bateu-lhe no brao.
   _ Voc sabe contar uma histria, Bernard. Gostaria de ouvir outras, mas tenho de preparar as enguias para secar.
   Levantou-se e foi at a lareira. Ele a observou trabalhar. Cantarolando, ela tirou a pele dos peixes assados a fim de expor a carne.
   Para uma mulher criada num castelo, Claire no reclamava da falta de comodidades. Estava vivendo apenas um pouco melhor do que uma camponesa. Tirava gua do poo,
cozinhava e dormia numa enxerga fina de palha e cobertores. No tinha criados e nem vestidos para trocar. As rosas do antigo jardim eram seu nico enfeite. Sempre
prendia uma nos cabelos. Mesmo assim, sorria com naturalidade. Nem de longe, lembrava ser a filha refinada de um lorde rico e, muito menos, a vtima de um seqestro.
   Ela deveria ser sua mulher.
   A idia insidiosa o atormentara duas vezes nesse dia e estava sendo difcil descart-la.
   Vivia o sonho de morar com Claire num solar de pedra, de compartilhar as refeies com ela, de conversarem. A noite, deitavam-se em sua enxerga e faziam amor.
   Nessa noite, se amariam novamente. Afoitos ou meigos, alegres ou apreensivos. Ele precisava ser mais cuidadoso. Em menos de duas semanas, Claire se casaria com
outro homem. No podia engravid-la.
   Por Deus, deveria deix-la ir embora antes que se apegassem demais um ao outro. Ou de ele comear a alimentar sonhos impossveis.
   O que vivia, no momento, era apenas o dele. Claire tinha outros. E estava prestes a realiz-los.
   Se pensasse, por um momento, poder lhe dar a vida que ela desejava, moveria cu e terra para se casarem. Faria tudo pela mulher por quem se apaixonara num momento
de descuido em que tinha baixado as defesas.
   Deixar Claire ir embora para se casar com outro homem ia ser a coisa mais difcil que j fizera. Mas por amor a ela, no tinha escolha.
   Como conseguiria enfrentar a vida sem ela?

   CAPTULO 14

   Claire arrumou o solar. Na verdade, no havia muito para fazer. Depois, colocou na mesa o resto da enguia seca e o ltimo pedao de um po preto que Lillian tinha
feito para eles. No dia seguinte, bem cedo, ela e Bernard se alimentariam, levariam a mula ao chal da amiga e, ento, seguiriam para Durlegh. Seria o incio de
seu retorno para casa. Que Deus a ajudasse, no queria ir.
   Bernard apareceu  porta.
   _Claire, voc viu a escova de Cabal?
   _Ao Lado de sua sacola - ela respondeu ao ir peg-la.
   _Eu podia jurar que a tinha deixado perto do poo.
   _Deixou mesmo. Pensei que a havia esquecido e trouxe para dentro. Desculpe - disse ela ao entreg-la.
   Claire olhou para a sacola e notou que estava um tanto vazia. Imediatamente soube o que faltava.
   _Onde esto suas relquias?
   _Com Garth. No queria lev-las a Durleigh, por isso, pedi a ele para guard-las at eu poder vir buscar.
   _Pretende voltar a Faxton?
   _Por pouco tempo e no antes de ter certeza de que seu pai desistiu de me procurar. Eu no devia estar lhe contando isso. Melhor voc no conhecer meus planos
at o resgate ser pago.
   O        fato de Bernard no confiar nela a entristecia. Mas de nada adiantaria se inteirar dos planos dele. No dia seguinte, se separariam para no mais se encontrar.
   _Voc poderia voltar no dia de meu casamento. Todos de Dasset vo estar muito ocupados.
   _Ou no dia seguinte quando estiverem se recuperando da festa - ele disse com sarcasmo. Depois, indagou: - Voc acha que o ouro vai caber na sacola?
   O        resgate. Seu peso em ouro. O motivo para ele tir-la de Dasset e a levar a Durleigh no dia seguinte.
   _No fao idia - respondeu com esforo.
   _No importa. Arranjarei uma maneira de carreg-lo. Bem, vou escovar Cabal e a mula e, depois, traz-los para dentro. H algo de que vamos precisar agora  noite?
   Ficar juntos. Conversar. Rir. Fazer amor.
   _No.
   _Muito bem. No vou me demorar.
   Bernard saiu depressa, sem olhar para trs.
   Ela precisava se distrair, ocupar as mos, tirar o pensamento do dia seguinte. Olhou para a lareira, a mesa, o cho, mas no para a enxerga onde ela e Bernard
passariam a ltima noite juntos.
   Clare viu a cota de malha dele amontoada num canto. Precisava ser polida. Animada, carregou-a  mesa onde havia mais luz. Apanhou um trapo da sacola dele e
logo iniciava a tarefa de limpar os elos de prata.
   Como na nica vez que o tinha visto com a cota ele tambm usasse o manto, Claire decidiu comear pelas mangas que apareciam mais. Porm, por mais que esfregasse,
os elos no brilhavam muito. A cota estava velha e mal cuidada.
   Alguns elos, como se tivessem sido consertados, no se ligavam bem ao seguinte. Acontecia. Quando enfraqueciam, o cavaleiro a levava ao armeiro para repar-los.
Mas o que tinha cuidado desses no fizera um bom servio.
   Intuindo algo errado, Clare estendeu a cota na mesa. Passou os dedos pela frente. Como nas mangas, havia elos substitudos, mas de maneira grosseira. O gorro,
usado sob o elmo, estava inteiro, Os fechos, do resguardo do pescoo e do peito, logo precisariam de reparos.
   Virou a cota e no conteve uma exclamao. Buracos. Seis. No eram grandes, mas no podiam estar ali. Os elos que faltavam nas costas deviam ter sido usados para
substituir os das mangas e da frente, Claire calculou. Nenhum armeiro digno do nome desfalcaria as costas.
   Por ser um simples campons, quando partira para as Cruzadas, Bernard no tinha merecido uma cota de malha em melhor estado. Ou um elmo, uma espada e um escudo
menos velhos. Nem mesmo um cavalo que pudesse enfrentar uma estrada, quanto mais batalhas.
   Felizmente, o bispo Thurstan havia substitudo a montaria morta de Bernard por um corcel excelente. Ela ainda podia ouvir as reclamaes do pai sobre a exigncia
do bispo em ser reembolsado.
   Claire sentou-se no banco e apoiou o rosto nas mos.
   Bernard tinha razo para odiar Odo Setton por mand-lo embora to mal equipado. Era um milagre que houvesse sobrevivido.
   Depois, o pai havia lhe negado a recompensa. E era bem possvel que tivesse sido responsvel pela morte dos Fitzgibbons.
   Por que Bernard no se tornara amargo e cruel? Por que no o dio e sim o senso de justia regulava suas aes?
   Bem, ele a seqestrara e exigia o pagamento de um resgate. Porm, se esforava tanto para lhe proporcionar conforto e bem-estar que ela havia esquecido ser sua
prisioneira.
   Impossvel no ajudar Bernard a receber, de seu pai, tudo que merecia.
   Claire jurou que, se no visse o ouro ao lado do pai no dia seguinte, seus protestos seriam ouvidos at em York.
   Escurecia rapidamente e Bernard logo entraria em casa. Claire pegou a manga da cota de malha e continuou a lustr-la.
   Ele apareceu, trazendo a mula.
   _ O que est fazendo? - indagou.
   _ Polindo a cota.
   _ Para que se dar ao trabalho? Ela no brilha mais.
   _ Algo para me ocupar.
   Quando Bernard trouxe Cabal, algum tempo depois, ela havia terminado as duas mangas, o gorro, o resguardo do pescoo e do peito. O resto, sob o manto, no apareceria.
   Bernard descalou as botas e, ao contrrio das outras noites, deitou-se vestido. Depois de guardar o trapo, Claire acomodou-se ao lado dele. O dia inteiro e de
maneira sutil, ele a tinha lembrado do fim da convivncia de ambos. Romper-lhes a intimidade, era a retrao final dele.
   Ela recusava-se a chorar. Soubera o tempo todo que esse momento chegaria. Por isso, no podia reclamar. Durante duas semanas, Bernard havia cuidado dela, dado-lhe
alegria e prazeres celestiais sem pedir nada em troca. Era chegado o momento de lhe dispensar alguma dedicao.
   Disposta a no desistir ainda de Bernard, Claire levantou-lhe o brao e aconchegou-se a ele. Para alvio seu, ele no protestou. Pela noite adentro, dormiu com
a cabea no ombro dele.

   A manh chegou clara e depressa demais. Bernard mal dormira, tentando no se mexer a fim de no acordar Claire. Quando ela abrisse os olhos, o deixaria, pondo-lhe
fim ao sonho.
   Sabia que Claire gostava dele, pois caso contrrio, no teria se deitado ao lado. Porm, no o bastante para dizer que sentiria falta dele, ou se recusar a voltar
para Dasset. Ele lhe dera oportunidades infinitas para faz-lo. Deus era testemunha.
   A uma palavra sua, ele a estreitaria entre os braos e no a deixaria ir. Por covardia, no tinha lhe pedido para declarar a preferncia. Temia que ela risse.
   No, Claire no riria. Mas com firmeza, o colocaria no devido lugar. Sem valor para ela. Nada para oferecer. Nem um teto permanente e a certeza da refeio seguinte.
Nada de vestidos novos ou velas de cera.
   Ela mexeu-se ao lado. Tirou as mos do peito dele e afastou os cabelos do rosto.
   _ Outro dia bonito. Esta temporada de tempo bom no pode durar - ela comentou.
   _ Por que no?
   _ Esta  a Inglaterra. Ainda bem que vamos viajar sem chuva. No vou ter de me apresentar a meu pai encharcada at os ossos. Quanto tempo temos antes de partir?
   _ At l pelo meio da manh.
   _ timo. Vou levar horas para me tornar apresentvel.
   Claire estava divina.
   _ Ento, se apresse. Dormimos demais.
   Ela se levantou e foi at a janela.
   _ Ah, meu Deus, tem razo. - Olhou para o vestido e franziu a testa. - Voc pretende deixar a mula com Lillian, no ?
   _ Sim - ele respondeu sem entender o motivo da indagao.
   Claire correu at a mesa, pegou um pedao de po, depois, apanhou a capa e dirigiu-se para a porta.
   _ Por favor, me pegue no chal - pediu e desapareceu.
   Bernard continuou deitado at entender sua atitude. Claire precisava ir ao chal a fim de se pr em ordem. Levantou-se. Depois de pegar o ltimo pedao de po,
foi aprontar a mula e Cabal.
   Bernard sorriu quando ps a cota de malha. Claire tinha se esforado para que ele tambm mostrasse boa aparncia. Se algum os visse, na estrada, pensaria que
iam a uma festa ou uma feira e no para receber o resgate de um seqestro.
   Vestido e com a sacola arrumada j presa  sela da montaria, Bernard percorreu os olhos pelo solar. No diria adeus a sua casa. Ainda no. Voltaria para pegar
as relquias das mos de Garth. Ento, haveria tempo para despedidas.

   Claire limpou o ltimo resqucio de barro na barra da saia do vestido de seda verde. Ela o tinha usado durante duas semanas trabalhosas. Exceto pelo esgarado
na bainha e onde a saia roava na sela de Cabal, ele tinha agentado bem.
   A me seria capaz de desmaiar quando o visse. O vestido era novo e ela o usara no dia da volta de Bernard, quando a situao fugira de seu controle. Naturalmente,
no esperava estrag-lo e, muito menos, ser seqestrada.
   Claire alisou bem a saa e deu-se por satisfeita.
   _ No vai ficar melhor, mas serve.
   _ Voc est com a aparncia da lady refinada que  - Lillian afirmou ao entregar-lhe a touca da mesma' seda do vestido.
   Claire a colocou sobre a rede que lhe prendia os cabelos novamente.
   _ Bem, est menos sujo. Obrigada, Lillian, pelo sabo e pela escova.
   Ouviram o tropel de animais na estrada.
   _ Bernard est chegando - Claire avisou.
   Lillian abriu os braos.
   _ Venha c, minha menina.
   Claire fechou os olhos ao se sentir aconchegada ao peito amigo.
   _ Voltarei - murmurou sem saber por qu.
   _ Promete? - Lillian indagou, soltando-a.
   Claire precisava de uma desculpa para visitar a ervanria antes de se casar e ir para Huntingdon.
   _ Voc me disse que no posso usar certas ervas. Quero saber quais so para no tomar um ch errado.
   _ Sua me poder lhe explicar.
   _ Prefiro que voc as mostre.
   _ Pois no, minha lady - Lillian concordou ao enfiar a mo no bolso e tirar um pequeno frasco selado com cera.
   _ Seu ungento. Tome cuidado.
   Claire respirou fundo. Aceitou o creme preparado especialmente para lhe aliviar a dor e cicatrizar as escoriaes. Esperava no ter de us-lo mais, pois ia
se livrar do pai.
   _ Tomarei, sim.
   Ao guardar o frasco no bolso da capa, roou a mo em algo macio. O vu vermelho e finssimo que Bernard lhe dera. Havia se esquecido dele.
   Como havia sido tola na vspera  noite. Se tivesse procurado Bernard envolta apenas pelo vu, ele seria incapaz de ignor-la. Talvez tivesse sido melhor no
haver se lembrado. Caso fosse to audaciosa e Bernard a ignorasse, ficaria desolada. Bastava a tristeza profunda que j a angustiava. Mesmo assim, lamentava a oportunidade
perdida. S poderia usar o vu para um homem: Bernard. E dentro de algumas horas...
   Negou-se a se lastimar. Nesse resto de tempo, apreciaria a companhia de Bernard sem pesar e lgrimas.
   Exibindo um sorriso, foi para fora.
   Bernard entregava a corda da mula a Garth. Os dois conversavam em voz baixa.
   _ Oh, Bernard, est brilhando! - Lillian exclamou a suas costas.
   De fato. A luz do sol na cota de malha a fazia luzir, Claire notou, orgulhosa. J no fazia to feio sob o manto respeitado.
   Com os cabelos negros batendo nos ombros, o cabo da cimitarra tambm brilhando na abertura da bainha, Bernard era o prprio chevalier.
   Enquanto Lillian desejava boa sorte a ele, Claire despediu-se de Garth. Ps a capa sobre os ombros para no sujar o vestido de poeira e, pouco depois, encontrava-se
novamente montada em Cabal,  frente de Bernard, rumo a Durleigh.
   Recostou-se nele e levantou o rosto. Um dia lindo devia ser apreciado. Uma cavalgada agradvel, valorizada.
   _ Imagino que esteja contente de voltar para casa - Bernard disse.
   Por algumas razes, estava. Ansiava afundar o corpo numa banheira de gua quente e perfumada. Tambm, sentia saudade da me, embora no tivesse pensado muito
nela nos ltimos dias. A pobre devia estar nervosssima.
   _ Mame precisava de minha ajuda. No podia cuidar sozinha dos ltimos preparativos para o casamento e o torneio _desconversou ela.
   _ Que preparativos? Basta providenciar cerveja e comida extras, armar tendas para os visitantes e vigiar o padre para que no se embriague e consiga oficiar a
cerimnia. Alguns criados podem fazer isso.
   Ela riu.
   _ Certas coisas devem ficar nas mos de uma mulher.
   _ E possvel. Na verdade, s assisti a um casamento, o de sua irm Jeanne. Mas me lembro bem da grande quantidade de comida e de cerveja, das tendas para abrigar
os convidados que no cabiam no castelo e de Edgar seguindo o padre Robert como uma sombra a fim de mant-lo sbrio.
   _ Pois no esqueo a consternao de mame por achar a filha muito jovem ainda para se casar. E o aborrecimento de Jeanne com o vestido. O bordado nas mangas
no sara de seu agrado. Ah, e a fria do cozinheiro por no contar com bastante farinha branca. Deus do cu, isso foi h onze anos. Voc e Jeanne so da mesma idade,
no so?
   _ Somos. Como vai ela?
   _ A ltima vez que a vi, parecia satisfeita. Tem duas filhas que mima muito. Mas isso faz muito tempo. O marido dela e papai tiveram uma discusso alguns anos
atrs.
   _ Sobre o qu? - Bernard indagou.
   Na opinio de Claire, sobre algo sem importncia, mas o suficiente para irritar o cunhado. Desde ento, ele no permitia que a mulher e as filhas fossem a Dasset.
   _ Papai andava bravo porque Jeanne ainda no tinha um filho e a criticava. William disse-lhe para no se imiscuir no que no era de sua conta. Papai respondeu
que, sem dvida, era, pois no queria que o fato provocasse a separao do casai e a filha tivesse de voltar a viver em Dasset. William o informou que no deixaria,
sob os cuidados dele, nem seu pior cachorro, muito menos a mulher.
   _ Isso deve ter acontecido aps eu partir.
   _ Logo depois. Papai comeava a convalescer da doena.
   Sem querer, Claire refletiu que o pai teria feito um grande favor aos filhos se no houvesse se recuperado. Pensamento pouco cristo, censurou-se. Mas ele no
lhe ocorria pela primeira vez.
   _ E seus irmos? Geoffrey foi ordenado padre finalmente?
   Como segundo filho, Geoffrey deveria ter entrado para a igreja. Durante anos, estudara sob a orientao do bispo Thurstan e, depois, do arcebispo de York. Tinha
apreciado muito a educao recebida, mas detestava a idia de se ordenar padre.
   _ No e nem ser. Papai tentou for-lo. Por isso, ele foi embora para Paris onde estuda na universidade. No sei como se sustenta, pois papai nega-se a faz-lo.
   Claire duvidava que Geoffrey viesse para seu casamento. Com certeza, temia, que o pai o forasse a entrar e ficar na abadia.
   _ E Julus est na Itlia - Bernard disse num tom revelador da insatisfao com a ausncia de seu irmo mais velho.
   Ela tambm lamentava o fato.
   _ Na ltima primavera, Julius foi  feira de York com a incumbncia de barganhar cavalos. Ao voltar, anunciou que ia numa peregrinao pelos santurios da Itlia.
Meu pai ficou lvido e recusou-lhe permisso. Alegou que, como herdeiro de Dasset, ele tinha o dever de cuidar da propriedade em vez de vagar pela Itlia. Julius
afirmou no ter escolha e partiu.
   _ Como assim?
   _ Foi essa parte que achei estranha. Julius parecia ansioso demais. Eu suspeitava que ele tivesse algum interesse por santurios, mas no o suficiente para justificar
a deciso repentina. Mesmo a ss comigo, ele no quis explicar-se. Recomendou apenas que eu tomasse cuidado e, caso precisasse entrar em contato com ele, deveria
enviar uma mensagem ao arcebispo de York.
   _ Estranho.
   _ E bem misterioso. Quando a data de meu casamento foi marcada, mandei um mensageiro ao arcebispo com a notcia. Ele prometeu transmiti-la. S Deus sabe se o
fez.
   Cavalgaram em silncio enquanto Claire abria o fecho da capa e a tirava dos ombros. Por causa da poeira, no ia continuar sofrendo calor.
   _CIaire, por que Julius lhe recomendou para tomar cuidado?
   Seu pai considerava os quatro filhos fracassados. Jeanne no tinha filhos, Geoffrey no se ordenara padre, Julius no assumia as responsabilidades de herdeiro
e ela no era submissa e recatada como a me.
   _Na infncia, ocasionalmente, todos tinham recebido palmadas e experimentado a vara. S aps a partida de Geoffrey, o pai havia cerrado os punhos. Ela fora a
nica a sofrer uma surra severa.
   _ Papai nunca foi de poupar a vara e Julius sabia que ele ficaria mal-humorado por uns tempos. Ento, me aconselhou a me manter fora do caminho de papai at que
a raiva dele abrandasse. Eu me fingi de doente e passei vrios dias sob os cobertores.
   Porm, ao saber que o pai pretendia deserdar Julius, tinha deixado a segurana da cama e ido interceder pelo irmo. Arrependera-se, claro. Depois, criadas a tinham
carregado de volta para o quarto. Mas algo em sua argumentao havia penetrado a fria do pai. Julius continuava herdeiro de Dasset.
   Bernard dirigiu Cabal para a mata, mas Claire no percebeu o motivo.
   _ Algo errado?
   _ Isso que preciso descobrir.
   Quando no podiam ser vistos da estrada, ele parou.
   Como sempre, Claire manteve-se imvel, com os olhos e ouvidos atentos. No percebeu nada. Antes de poder dizer isso a Bernard, surpreendeu-se ao ser levantada
da sela.
   _ Vire-se - ele ordenou.
   Claire passou uma das pernas sobre Cabal e caiu sentada no colo de Bernard. Ele franzia a testa.
   _ O que acontecer quando voc chegar em casa? Vai ter de se esconder de seu pai?
   A preocupao dele a comoveu.
   _ Provavelmente.
   _ No gosto disso, Claire. Ao devolv-la, a estarei expondo ao perigo?
   _ Mesmo antes de abrir sua algema, eu sabia que meu pai me castigaria por isso. Embora ele culpe Edgar, sabe quem, de fato, foi responsvel por sua fuga. Compreendi
e aceitei que pagaria um preo. Nada mudou, exceto que o castigo foi adiado por duas semanas.
   A expresso dele tornou-se sombria.
   _ Ele a espancar?
   Claire quase sentiu as pancadas e reprimiu um arrepio.
   _ Talvez. Como meu pai, tem esse direito.
   Bernard praguejou. Claire percebeu que ele se importava com isso. Era bom saber que, se pudesse, ele a protegeria contra a fria do pai.
   _ No se esquea, Bernard, que sou muito importante para meu pai neste momento. Ele precisa que eu esteja bem e firme para me apresentar diante do padre a fim
de me casar. Marshall deve chegar amanh e isso me dar uma certa proteo. Lembrarei a meu pai que ele poder no gostar de uma noiva com escoriaes. Acredite,
ele far qualquer coisa para no desagradar o futuro genro.
   _ Suas palavras deixam transparecer muitas incertezas.
   Certa de que amava este cavaleiro atraente e corajoso, Clare encostou a face na rosa pregada no manto.
   _ Agradeo seu interesse, porm, voc deveria se preocupar com a prpria sorte. Meu pai est bravo comigo, mas furioso com voc. A entrega do resgate pode no
ser to fcil como voc espera.
   _ Tenho muitas razes para no confiar em Setton. Por isso, escolhi Market Square para a transao do resgate. H vrios caminhos para se escapar de l. Ao menor
sinal de traio, fugiremos. - Com o dedo sob seu queixo, levantou-lhe o rosto e a fitou com meiguice. - Isso quer dizer que poder haver uma alterao dos planos
e voc s chegar em casa dentro de alguns dias. Ficar muito aborrecida?
   Ela sorriu. Mais um pouco de tempo sob os cuidados carinhosos de Bernard no seria um sacrifcio.
   _ No muito.
   O beijo dele foi apenas um roar de lbios. Meigo e breve demais.
   _ Ento, vamos ver com o que seu pai nos aguarda?

Capitulo 15

   Bernard preferiu s entrar em Durleigh na hora da troca. Seria mais fcil evitar de ser capturado fora das muralhas do que dentro. Por isso, ele e Claire ficaram
escondidos num bosque perto do portal. De l, podiam ver as pessoas entrando e saindo da cidade.
   Bernard nunca duvidara que Setton ansiasse pelo encontro. Ele se preocupava com Claire mais por causa da aliana com Marshall do que por afeto paternal. Tambm
o queria por t-lo desafiado e exigido uma quantia respeitvel em ouro.
   Bernard desejava apenas justia. O ouro substituiria a recompensa prometida e negada. O fato de ele, agora, preferir Claire ao resgate, no fazia diferena.
Ele tinha proposto uma barganha a Setton e manteria a palavra. Se no entregasse a filha ao pai como prometera, se igualaria a ele.
   Afligia-se com o que o desgraado poderia fazer a Claire. Detestava a idia de que ela pudesse ser agredida fisicamente, mesmo pelo pai que tinha esse direito.
   _ Est quase na hora - Claire murmurou atrs dele.
   Ela havia ajeitado o vestido e posto a capa nos ombros. Estava em ordem e apresentvel como desejara. Mantinha o queixo erguido e as costas retas. Preparada para
o que pudesse acontecer.
   _ Quase. Depois de passarmos pelo portal, vamos seguir pelas ruas laterais, perfazendo um crculo, e atravessar o rio pela ponte a oeste. Assim, chegaremos a
Market Square pela Highgate.
   _ Voc no quer passar pelo centro da cidade?
   _ Se puder evitar, no. Highgate  mais larga e reta do que as outras ruas. Oferece espao para virar Cabal se for preciso e, dela,  possvel ver-se Market Square
de vrios quarteires de distncia.
   _ Entendo - murmurou Claire.
   _ Preste ateno - pediu ele ao pr as mos em seus ombros. - A catedral ficar a nossas costas e o escritrio de Smon,  frente. Voc sabe onde ?
   _ Na Highgate, perto da Thief Lane.
   _ Certo. - Apertou-lhe os ombros. - Claire, os momentos mais perigosos sero aqueles durante a troca. Se houver confuso, talvez eu no possa chegar perto de
voc. Prometa que, em caso de luta, voc ir correndo procurar o bispo ou Simon. Qualquer um dos dois a proteger at o perigo passar.
   Ela tocou a cruz vermelha dos Cruzados, sobre o corao dele.
   _ Prometo. Mas voc tambm tem de dar sua palavra que ir me procurar a fim de arranjarmos uma outra maneira de receber o resgate.
   Como comprometer-se a fazer isso?
   _ Claire, talvez eu no possa...
   Ela sacudiu a cabea com veemncia.
   _ Jure, Bernard. E acima de tudo, que tentar ficar em segurana e no se ferir! - Seus olhos encheram-se de lgrimas. - No correrei, no o deixarei lutando
sozinho se voc no jurar!
   Como havia enfrentado exrcitos de sarracenos sem que as mos tremessem, e fraquejava diante das lgrimas daquela mulher?
   Bernard a tomou entre os braos e a estreitou contra o peito.
   _ Juro que no lutarei se for com mais de seis. Satisfeita?
   _ Seis!
   J estava na hora de ir e em vez de despedir-se, ela molhava, com as lgrimas, a rosa do manto.
   _ Vamos - ele disse. - Quanto mais cedo terminarmos, melhor.
   Claire no queria um fim, mas um comeo. Nem ir para casa e sim ficar com Bernard. Os desejos no se realizariam. Enlaou-o pelo pescoo e o abraou com fora.
   _ Sentirei saudade - murmurou e foi para perto de Cabal.
   Sentirei saudade.
   Bernard baixou o olhar para as mos e conjeturou como a tinha deixado escapar por entre os dedos.
   Tolo. Ela no havia declarado amor, apenas dito que sentiria saudade. Muita? Por quanto tempo?
   O sino da catedral comeou a bater, chamando os padres para as oraes do meio da tarde e avisando Bernard para se apressar.
   Se ao menos ela houvesse lhe falado antes.
   Pela ltima vez, Bernard acomodou Claire na sela e montou atrs dela. Passou o brao por sua cintura antes de prensar os calcanhares em Cabal e, acompanhado pelo
badalar do sino e do trovejar do corao, seguiu para o portal da cidade.
   _ Vai mesmo sentir saudade de mim? - indagou, tentando desesperadamente ordenar os pensamentos.
   _ Muita - ela respondeu baixinho.
   Transpostas as muralhas, Bernard avistou um homem correndo ao norte de Michelgate. Um vigia de Setton? Provavelmente. Depois de o homem desaparecer de vista,
ele virou  esquerda com a inteno de vagar pelas ruas at alcanar a ponte no extremo oeste da cidade.
   Acostumados a receber todos os tipos de visitantes, interessados em comprar artigos feitos pelos artesos de Durleigh, os habitantes do lugar, com naturalidade,
abriam caminho para o cavaleiro montado num corcel. Os poucos olhares que recebiam, Bernard atribua  aparncia refinada de Claire.
   _ Eu tambm sentirei saudade de voc - aventurou-se ele a dizer.
   Claire no respondeu. Apenas apertou-lhe o brao. Por causa da cota de malha, ele mal sentiu a presso.
   A ateno dele estava dividida demais. Era quase impossvel concentrar-se na observao de sinais de alguma armadilha de Setton com a mente cheia de Claire.
   _ Do que vou sentir mais falta  seu sorriso. Sua expresso mais natural e encantadora, eu acho.
   _ Obrigada - disse ela, afagando-lhe a mo.
   A conversa no ia bem. Atravessaram a ponte. Adiante erguia-se a catedral.
   Claire puxou o capuz da capa sobre a cabea e prensou as costas nele, preparando-se para o pior.
   Bernard desejava que fosse to bom com as palavras como era com a cimitarra.
   _ Vou sentir tanta falta sua que mal veno a tentao de no devolv-la a seu pai.
   Ela ficou imvel.
   _E mesmo?
   _Descobri que deveria ter insistido que se casasse comigo. Exigi, de seu pai, a parte errada e no a mais valiosa da recompensa. Voc.
   _Eu?!
   Ele inclinou a cabea bem perto de seu ouvido.
   _Se eu pudesse voltar no tempo e fazer tudo de novo, esqueceria a terra, o resgate e ficaria com voc. Eu te amo, Claire.
   Com firmeza, ela puxou as rdeas e, para a surpresa de Bernard, Cabal parou. Claire, ento, virou-se de lado na sela.
   Ela no podia acreditar que o tinha ouvido corretamente. E se houvesse, seu corao partiria em dois.
   _Honestamente?
   _Case-se comigo. Seja minha companheira. Compartilhe minha comida, minha cama, minha vida. No tenho o direito de lhe pedir que abandone seu sonho a favor do
meu, mas juro que homem algum a amar mais ou cuidar de voc com maior zelo do que eu.
   Bernard estava resoluto e ela, noiva. Seu corao estilhaou-se. Trmula, apoiou-se nele.
   _Eu tambm te amo. Se pudesse escolher, seria voc acima de todos. Mas existe meu pai. E Eustace. E...
   Num gesto de frustrao, levantou as mos. Para que citar os obstculos? Ele os conhecia todos.
   Bernard a estreitou entre os braos. Segurana. Ternura. Amor. Impossvel se afastar, sem esperana de permanecer.
   _Ainda temos uma semana. No desanime - disse ele.
   Sete dias at o de seu casamento. Com o noivo errado.
   Bernard instigou Cabal a seguir em frente e virou na Highgate.
   _Voc tem um plano? - Claire perguntou.
   _No muito claro. Mas sei que, daqui em diante, devo agir de acordo com a lei dos homens e a de Deus. Tenho o direito de exigir voc. De alguma forma, precisamos
forar seu pai a reconhecer o compromisso e honr-lo.
   Isso jamais aconteceria.
   _ Como?
   Ele riu.
   _ Gostaria de saber. Deve haver uma maneira e eu vou descobri-la.
   Como Bernard podia rir se ela estava prestes a chorar novamente? Claire levantou o olhar e viu-lhe o largo sorriso e a expresso de confiana. No deveria duvidar,
mas tentar ajud-lo. Mas como? Quando se esforara para reconciliar o pai com Bernard, tinha falhado horrivelmente.
   _ L est Setton - ele avisou.
   Claire endireitou-se e olhou para Market Square. Do lugar vantajoso, no alto de Cabal, avistou-o. Ele andava de um lado para o outro, ignorando as vozes dos vendedores
e os fregueses que iam de banca em banca. Apenas uns poucos passos, no se afastando muito de uma saca largada no cho' de terra.
   O pai no estava sozinho. Dois guardas, portando lanas, vigiavam a saca que Claire, temia, continha farinha e no ouro.
   _ E agora? - ela perguntou a Bernard, rezando para que ele tivesse encontrado o argumento certo para convencer seu pai.
   _ Embora eu no queira, vou ter de entreg-la primeiro para, depois, reivindicar meus direitos sobre voc.
   _ Ah, no!
   _ Precisamos esquecer o resgate e comear tudo de novo. Isso quer dizer que voc dever voltar para Dasset. Irei busc-la, juro. Levarei o bispo e Simon. Deve
haver uma maneira de forar seu pai a confessar a verdade. Sei que estou lhe pedindo muito, Claire, mas, por favor, confie em mim.
   _ Quando voc ir?
   _ Mandarei avis-la por Garth ou Wat.
   _ E se sua demanda der em nada?
   _ Ento, terei de seqestr-la outra vez.
   Ela acalmou-se um pouco.
   _ Vai pegar o resgate?
   _ Seu pai despreza minha inteligncia. Observe a saca. V salincias indicadoras de que esteja cheia de ouro e no de farinha? Ele nem se deu ao trabalho de preparar
uma isca tentadora. Vou deix-la com ele.
   Setton fez um gesto para a direita. Mais dois guardas, com espadas desembainhadas, acorreram depressa. Quatro ao todo. Nada mau. Haveria mais? Provavelmente.
   Bernard observou o povo que comeava a prestar ateno ao que se passava no centro do largo. No reconheceu nenhum dos homens de Setton, mas esses podiam estar
escondidos e prontos para atacar.
   Ele mal continha a vontade de sacar a cimitarra. No podia, pois no queria incitar ningum a comear a lutar. Especialmente com Claire to perto.
   Entreg-la ia ser a parte mais difcil, mas no tinha escolha. Precisava devolver o que roubara antes de t-la por uma questo de direito.
   Bernard conduziu Cabal at uma distncia razovel de Setton. As vozes dos vendedores cessaram e os fregueses interromperam as compras. Sentada bem ereta, Claire
olhava para o pai.
   Este mal a fitou e sorriu com expresso de escrnio para Bernard.
   _ Pensa em vend-la de volta para mim?
   _ Setton, se eu fosse pedir o verdadeiro valor de Claire, voc no teria o ouro para pag-lo, mesmo se vendesse a alma para o diabo - caso tivess uma.
   _ Veja como fala, Fitzgibbons. Voc ainda no recebeu o resgate.
   _ No, mas nem voc j tem sua filha. - Apontou para a saca. - Cheia de ouro, no ?
   _ Claro. Quase tudo que voc pediu. Vai ter de se contentar com isso, pois no consegui arranjar mais. - Recuou um passo e os guardas o acompanharam. - Ponha
Claire no cho e o ouro ser todo seu.
   Bernard quase riu da armadilha bvia. To logo desmontasse, os guardas o atacariam.
   _ Ah,  uma grande tentao, admito. Mas no vim pegar o ouro e sim entregar Claire a seus cuidados.
   Desconfiado, Setton o fitou.
   _Que idiotice  essa? Voc exigiu seu peso em ouro como resgate e agora o recusa?
   _Exatamente. Tudo que quero, Setton,  seu juramento solene, por sua honra de cavaleiro, diante de seus soldados e do povo de Durleigh, que Claire no sofrer
punio alguma depois que eu a soltar.
   Setton apontou para a saca.
   _Este  seu pagamento por Claire como pediu.  o nico que receber por ela.
   Claire murmurou:
   _A direita. Atrs do vendedor de tortas. Dois arqueiros.
   Bernard no se atreveu a olhar. Deus do cu. Se os lanceiros e os espadachins no o acertassem, Setton mandaria os arqueiros atirar. Em Market Square. Pessoas
inocentes poderiam pagar com a vida o desejo de vingana de Setton.
   A fria o dominou enquanto olhava para a rua reta e larga, a rota de fuga escolhida.
   _Segure-se bem, Claire. Ns vamos embora.
   _Rezei por isso.
   Bernard sacou a cimitarra e gritou para Setton:
   _Saia do caminho! Quero ver esse "resgate" que voc me oferece!
   Calcou os calcanhares em Cabal que, num mpeto, seguiu para a frente. Os guardas pularam para o lado. Setton mal teve tempo de se desviar antes de Bernard inclinar-se
e rasgar a saca ao passar. As patas traseiras da montaria a jogaram para cima, espalhando farinha escura sobre os soldados e Setton. Bernard virou o cavalo.
   Setton, cado, apoiava-se nas mos e nos joelhos.
   _Enquanto est a no cho, Setton, pea a Deus que tenha piedade de voc porque eu no terei mais.
   Ergueu a cimitarra no ar e, a um comando seu, Cabal empinou as patas dianteiras.
   _Pela rosa!
   O povo aplaudiu. Claire segurava-se na crina do animal. Quando ele tocou as patas no cho, Bernard o virou novamente.
   _Cuidado! Arqueiros! - gritou para as pessoas enquanto curvava sobre Claire e instigava Cabal a galopar pela Highgate. - Abram caminho! Abram...
   Uma dor terrvel o empurrou para a frente. Estrelas danavam diante dos olhos. O gemido que ouviu devia ser dele.
   _ Bernard!
   Com a pior dor que j havia sentido, ele percebeu que no poderia se manter ereto e controlar a montaria tambm.
   _ V para... Simon. As rdeas.
   _ Deus misericordioso! - Claire exclamou ao peg-las. - Abram caminho! - foi gritando pela rua afora.
   Bernard segurava-se nela e tentava no perder os sentidos enquanto galopavam. Pensou em olhar para trs para ver se eram seguidos,' mas temeu cair se o fizesse.
   Quase na periferia da cidade, em frente a uma casa perto da Thief Lane, Claire puxou as rdeas.
   _ Bernard? - ela murmurou em tom apreensivo.
   _ Desculpe, Claire... pensei que... podamos escapar deles.
   Pessoas comeavam a se juntar em volta. Vrios homens saram da casa, liderados por um alto e de cabelos pretos. Bernard soube que estava em mos amigas e competentes.
   _ Eu lhe recomendei para evitar confuses - Simon o censurou.
   _ Saudaes, meu amigo.
   Simon tirou a cimitarra da mo de Bernard e a entregou a um de seus homens.
   _ Vamos ajud-lo a desmontar antes que voc suje muito minha rua de sangue. Cuidado, homens, especialmente com a seta. Venha, Bernard, faa um esforo.
   Ajudado pelo amigo, ele escorregou da sela. Conseguiu manter os sentidos apoiando os braos nos ombros de Simon e nos de um sujeito corpulento. Mas a seta o
machucava a cada passo dado rumo  casa.
   Ouviu pedaos de ordens. "Ajudem a senhora. Cuidem do cavalo. Vo buscar um mdico."
   Descer uma escada tirou-lhe o resto das foras.
   _ Claire - balbuciou.
   _ Ela est bem e vem logo.
   Logo aps ouvir as palavras de Simon, Bernard perdeu os sentidos.

   Voltou a si com o toque suave de dedos nos cabelos. Abriu os olhos e viu os de Claire. Jias de mbar.
   _ O paraso.
   Ela sorriu.
   _ No, voc est num catre de uma cela. Longe do paraso.
   Bernard deitava-se de bruos, com o torso nu, mas com uma atadura rodeando-o. O catre era bem baixo e Claire sentava-se no cho a fim de vigi-lo e esperar que
voltasse a si.
   _ Voc est aqui. Ento,  o paraso.
   Estendeu a mo para tocar-lhe o rosto, porm, Claire o impediu.
   _ Voc no deve se mexer. A seta foi tirada, mas o mdico disse que precisa ficar deitado e imvel por algumas horas.
   As costas doam muito, embora menos do que antes. Achou melhor ficar quieto e no testar a pacincia de Claire.
   _ Acho que eu poderia dormir um dia inteiro.
   Ela riu um pouco.
   _ Tenho de admitir que foi um dia excepcional.
   _ E Cabal?
   _ Aquele seu cavalo  impossvel. Levei um tempo enorme para convenc-lo a ir com um dos homens de Simon.
   _ Convenc-lo?
   _ Um absurdo. Enquanto Simon e uns homens o traziam para c, fiquei na rua falando e agradando Cabal. Uma cena ridcula. Mas deu certo.
   Bernard gostaria de ter visto. Cabal j se acostumara a carregar os dois. Por isso, reconhecia a voz de Claire e obedecia suas ordens. Um cavalo de guerra no
deveria fazer isso. Mas fora uma sorte ele se sujeitar ao controle de Claire.
   _ Onde est Simon?
   _ L em cima, esperando que voc acorde. Se ouvir nossas vozes... A vem ele na escada.
   _ No deve estar satisfeito comigo. Ele me avisou para ficar fora de confuses.
   O amigo entrou na cela.
   _ Mas voc no me deu ouvidos.
   _ Dei, sim, durante dois dias inteiros. Algum ficou ferido no largo?
   Simon sorriu.
   _ Ningum importante. Lady Claire, posso ir lhe buscar uma cadeira? No deveria estar sentada no cho.
   _ No, estou bem assim. Por favor, continue.
   Simon sentou-se a seu lado.
   _ Bem, Bernard, voc foi a diverso e o heri do dia. Quando cheguei a Market Square, o povo de Durleigh estava alvoroadssimo. No sei quantas vezes ouvi contar
que um cavaleiro fantstico e corajoso, acompanhado de uma dama linda, cavalgou pelo largo num cavalo magnfico.
   _ Quem seria? - Bernard indagou em tom seco.
   _ Fique quieto e oua minha histria.
   _ Voc exagera muito.
   _ Eu, no. Como eu contava, o tal cavaleiro props devolver a dama linda ao pai se este lhe pagasse o peso da filha em ouro. Mas, mudou de idia, passando a exigir
apenas que ela recebesse, do pai ignbil - desculpe, lady Claire - um tratamento digno. No s o senhor em questo recusou-se a fazer tal juramento como o ouro do
resgate no passava de farinha. Como se no bastasse, quando o cavaleiro se mostrou ofendido com toda razo, o senhor infame tentou mat-lo, sem se preocupar com
a segurana da dama linda e dos cidados inocentes de Durleigh. Correto?
   _ Descontando seu exagero, sim.
   _ S contei o que ouvi.
   _ E Setton?
   Simon riu.
   _ Se eu no tivesse chegado a tempo, o povo o teria enforcado. Dois soldados dele sofreram fraturas e outros, escoriaes. As setas ficaram em pedaos.
   Surpreso, Bernard indagou:
   _ Por que foram atrs de Setton?
   _ Por duas razes. O manto. Eles o reconheceram como Cavaleiro da Rosa Preta. Nesta cidade, somos considerados heris. E o espetculo de equitao e de intrepidez
que voc ofereceu com Cabal. Patas altas no ar, cimitarra brilhando ao sol e a dama linda sorrindo de orgulho.
   _ Eu estava morta de medo - Claire admitiu.
   _Calculo, minha lady. J vi Bernard executar tal faanha com Cabal. E impressionante e, aqui, selou sua sorte. A cidade est a seus ps, meu amigo.
   _ S at ouvirem a histria inteira.
   O sorriso de Simon desapareceu.
   _ Aconselhei Setton a ir embora depressa, pela prpria segurana, e providenciei uma guarda para acompanh-lo at o portal. Ele me contou a histria do resgate,
Bernard, e de forma bem feia.
   _ Duvido que eu possa embelez-la.
   _ Disposto a cont-la agora?
   _ J que no posso me mexer at Claire dar permisso, por que no? Mas no sei por onde comear.
   _ Desde o dia em que voc se filiou aos Cavaleiros da Rosa Preta, falou muitas vezes sobre a recompensa que aguardava seu retorno. Casamento com a filha de lorde
Setton, lady Claire, e terras onde se estabelecer. Quando o vi pela ltima vez, em Hendry Hall, voc estava certo de receber a recompensa. O que aconteceu?
   _ Imagino que lorde Setton no tenha includo, na histria, o fato de a ter negado.
   _ Nem uma palavra.
   Bernard no ficou surpreso. Com os dedos entrelaados nos de Claire, contou como havia chegado esperanoso a Dasset.
   _ Deixei meus pertences e a cimitarra numa baia com Cabal -  iniciou ele o relato da traio sofrida e da busca pela justia.
   O tempo ia passando e ele sentia a boca seca. As vezes, Clare assumia a narrativa. Aos poucos, Bernard foi se levantando at se encontrar sentado.
   Simon, inclinado para trs e firmado nas mos, ouvia com ateno. Bernard conhecia a mente desse homem inteligente, corajoso e solidrio. Por isso, no deixou
detalhe algum fora, exceto as horas de intimidade passadas com Claire.
   Sentia-se cansado e fraco por causa da perda de sangue, mas terminou o relato.
   _ Eu sabia que os arqueiros iam me alvejar, ento fiz Cabal galopar pela Highgate. A seta me atingiu. Entreguei as rdeas a Claire e mandei que viesse procur-lo.
O resto, voc sabe.
   Fez-se um silncio longo e profundo.
   _ Incrvel - Simon finalmente comentou.
   _ Pois . A questo, agora,  para onde irmos daqui.
   Simon levantou-se e estendeu a mo para ajudar Claire a faz-lo.
   _ Para a Royal Oak Tavern. Voc precisa se alimentar bem e dormir bastante. E eu, refletir. Alm disso, minha adorvel esposa jamais me perdoaria se perdesse
a oportunidade de conhec-lo.
   Bernard aceitou a ajuda de Simon para se erguer do catre baixo. A perspectiva de tomar uma cerveja era muito boa.
   _Ah, sim. Quem me contou a histria, em Market Square, mandou-lhe cumprimentos e suas relquias. Garth ainda acrescentou que, como o avisara, suas costas precisavam
de proteo. Infelizmente, ele s conseguiu derrubar um dos arqueiros antes de outro atirar.


   CAPTULO 16

   Recostada na cadeira, Claire no prestava mui-a ateno s reminiscncias de Bernard e Simon. Ainda se sentia aturdida com os acontecimentos do dia. Mas Linnet,
a mulher de Simon, as ouvia, fascinada.
   A Royal Oak Tavern no tinha mudado. O salo principal continuava acolhedor, o ensopado e o po, deliciosos, e a sra. Selwyn, amvel e eficiente como sempre.
   As horas aps o ferimento de Bernard tinham sido de grande tenso. Claire havia mantido a calma durante a longa cavalgada pela Highgate, ajudado Simon a tirar
o manto dele e ficado ao lado do armeiro enquanto este soltava os elos das costas da cota de malha. S aps a remoo dela, o mdico comeara a trabalhar.
   Ao terminar, ele tinha lhe garantido que a seta sara limpa, sinal de no ter atingido uma parte vital.
   Finalmente, a ss com Bernard na cela, ela havia tremido e chorado. Mas j tinha se controlado quando ele acordara.
   Bernard se recuperaria. At sua cor j havia melhorado e ele no parecia estar sofrendo dores fortes. De vez em quando, ele tocava a atadura sob a tnica. Os
pontos poderiam ser tirados dentro de alguns dias, deixando uma cicatriz para lembr-lo do ferimento. E da traio de Odo Setton.
   _Simon, precisamos ir embora. Estes dois esto mortos de sono - disse Linnet.
   _Tem razo - Simon concordou ao levantar-se.
   As duas mulheres tambm o fizeram, mas Bernard continuou sentado.
   _Antes de ir, Simon, diga se refletiu sobre o que lhe contei.
   _Um pouco. Em minha opinio, precisamos procurar o bispo Walter. Espero que ele possa nos atender amanh.
   Linnet segurou as mos de Claire. Ela cuidava de uma botica cheia de ervas medicinais, leos e misturas. Seu toque era firme, confortador e to estimulante quanto
os chs que preparava e vendia.
   _Minha botica fica bem atrs da Royal Oak. Se precisar de ns, basta voc sair pela porta de trs e bater na minha - disse ela.
   Claire tinha ouvido histrias de como haviam suspeitado de Linnet ter envenenado o bispo Thurstan. Tambm de como Simon havia provado-lhe a inocncia e apanhado
o verdadeiro criminoso. Qualquer pessoa podia ver, aps uns poucos momentos em sua companhia, que ela jamais seria uma assassina.
   Com um sorriso desapontado, Linnet explicou:
   _Eu os levaria para casa se a sra. Selwyn concordasse. Porm, ela exige a honra de hosped-los.
   _Eu gostaria que ela no insistisse em nos ceder o quarto do casal.
   _O mais acertado, minha cara. Vocs no poderiam dormir em catres dos quartos comuns. Ela se sente to contente por t-los aqui.
   Aps abraos e despedidas carinhosas, os Blackstone foram embora. Bernard firmou as mos na mesa e levantou-se. Gotas de suor porejaram-lhe a testa.
   O        casal Selwyn aproximou-se.
   _Levei mais cerveja, queijo e po ao quarto. Se desejar mais alguma coisa,  s pedir - disse o marido.
   _E eu limpei seu manto. Est pendurado numa cadeira para secar. Amanh, vou cerzir o buraco. Vai ficar como novo _afirmou a sra. Selwyn.
   _Muito obrigado. Os senhores esto sendo muito atenciosos _Bernard agradeceu, provocando sorrisos de satisfao.
   Claire o fez apoiar o brao sobre seus ombros e ajudou-o a ir at o quarto. O aposento, embora simples, era aconchegante. Havia uma cama com colcho macio e alguns
outros mveis. Sua capa estava pendurada num cabide ao lado da porta, o manto de Bernard secava estendido sobre duas cadeiras e os alimentos prometidos os aguardavam
na mesa perto da janela.
   Bernard olhou em volta e viu, num canto, a sacola de viagem cheia novamente com as reliquias.
   _Eu seria capaz de esganar Garth pelo que fez.
   _Imagine! Seu amigo lhe prestou um favor hoje.
   _Pedi a ele que fosse a Dasset a fim de descobrir o que acontecera aqui e no para vir  cidade. Seu pai no vai gostar que um dos arrendatrios dele tenha lhe
virado as costas.
   _Duvido que ele o tivesse reconhecido. Wat  quem leva as enguias a Dasset. Papai nem deve saber o nome dele, muito menos, o do filho.
   _Assim espero. O que aconteceu com minha cota de malha?
   _O armeiro, que a soltou, levou-a para consertar. Mas recomendou que voc arranjasse outra antes que mais uma seta encontre os buracos nas costas.
   _Uma custaria mais moedas do que tenho. Os reparos j vo ser difceis de pagar.
   Brava, mas calada, Claire ajudou-o a ir at a cama e sentar-se na beirada. Ento, expressou o que pensava.
   _Se a cota tivesse sido bem consertada, o acidente de hoje no teria acontecido. Foi culpa de meu pai por lhe dar uma em pssimo estado, mas deixar as costas
desprotegidas foi uma loucura. E ainda por cima, voc as ofereceu como alvo das setas. - Como as lgrimas ameaassem correr, ela procurou algo para fazer. - D seu
p.
   Bernard obedeceu e ela descalou a bota.
   _Melhor eu do que voc ou algum da cidade. Nenhum inocente deveria sofrer por uma situao que ajudei a criar.
   Ela atirou a bota num canto.
   _Claro, ningum deveria se arriscar por sua causa. Nem eu ou Garth. Apenas voc. Incrvel que tenha sobrevivido s Cruzadas.
   _Ora, Claire...
   _Voc se acha invulnervel. - A segunda bota seguiu a primeira. - O ferimento de hoje prova que no . Voc  de carne e osso como todos ns. Levante os braos.
   Ele o fez e Claire tirou-lhe a tnica pela cabea, descobrindo a faixa enrolada em volta das costelas. Ela prosseguiu:
   _Fora do portal, voc me prometeu que no assumiria riscos desnecessrios. Considero expor as costas s setas, um descuido absurdo. Se persistir com tais tolices,
acabar morto. E eu nunca o perdoarei, Bernard! Est me ouvindo? Nunca!
   Ele sorriu.
   _Estou, sim, Claire. Eu tambm te amo.
   Ela quase perdeu o flego. Procurou o estmulo da raiva, porm, ela havia passado de repente. Frustrada, levantou as mos ao ar.
   _O que vou fazer com voc?
   _Venha se deitar comigo, me amar.
   Ela entendeu bem o brilho nos olhos dele e cruzou os braos.
   _Eu o despi, Bernard, para voc dormir. Nada mais.
   _E mesmo? Pois vamos tratar de dormir depois de voc tirar meu calo e seu vestido - disse ele em tom provocador.
   _E seu ferimento? Os pontos podem arrebentar.
   Ele a tocou nos quadris.
   _Hoje, a mulher a quem amo me deu o corao. Agora  noite, quero o corpo, se ela me aceitar.
   Seu corpo gostaria bem de receber carcias ntimas e o bom senso comeou a fraquejar.
   _Voc est ferido. Precisa repousar.
   _Preciso de voc.
   _Dormirei a seu lado.
   _Mais tarde, dormiremos.
   A resistncia ameaava ceder. Ela o acariciou nos cabelos. Quase tinha perdido Bernard nesse dia. Se houvesse, agora estaria sofrendo e no discutindo com ele.
   _Os pontos.
   Ele a puxou para perto e encostou a cabea em seus seios.
   _Eles agentaro se tomarmos cuidado. Vamos nos amar, Claire. Minha lindssima e preciosa Claire.
   Ele virou a cabea e beijou um dos seios, levando-a a querer mais.
   _No deveramos - disse, agarrada ao ltimo fiapo de bom senso.
   _Mas podemos. Vou lhe mostrar como.
   Claire cedeu.
   _Eu te amo, Bernard.
   _Palavras lindas. Mulher linda. Paraso.
   As poucas peas foram despidas e Bernard, deitado de costas, entregou-lhe o controle. Clare sabia onde acarici-lo para lev-lo  loucura. Quase sem se mexer,
ele a excitou tambm. As partes de seu corpo que no alcanava sem fazer esforo, Claire as tornava acessveis. Quando chegou o momento de se unirem, Bernard a ensinou
a sentar sobre ele com as pernas abertas, receb-lo e marcar o ritmo dos movimentos.
   Ela observou-lhe a expresso de agonia, sabendo que a dor no vinha do ferimento. Depois, o xtase da satisfao plena de ambos, to firme e profundo que a impulsionou
ao paraso e muito alm.
   Algum tempo depois, deitada ao lado de Bernard, Claire o ouvia ressonar. A seta o atingira, os problemas continuavam, talvez piores, a autoridade judicial j
estava envolvida no caso e, no dia seguinte, o bispo seria.
   De nada adiantaria o amor que os unia e a ajuda de terceiros se o pai permanecesse firme. Ela ainda poderia perder Bernard.

   Novamente, Bernard contou sua histria. Dessa vez, ao bispo Walter. Simon estava presente, e os trs sentavam-se  escrivaninha no aposento particular do bispo.
   A reliquia de So Babylas estava na mesinha ao lado. O bispo Walter queria compr-la, mas ia consultar um monge, mais experiente em avaliar relquias, antes de
oferecer o preo. Bernard dispunha-se a deix-la sob os cuidados dele. A exemplo de Simon, a quem o bispo tambm ajudara a solucionar um problema, confiava nele.
   A conversa estava sendo fcil, e a narrativa flua bem.
   Bernard revelou tudo, inclusive o relacionamento ntimo com Claire. Ela no estava presente, claro. Havia ficado na botica com Linnet.
   A expresso do bispo refletia a reao  histria. No final, ele fitou os dois.
   _Eu gostaria muito de conhecer os outros Cavaleiros da Rosa Negra. Todos tm a capacidade de se envolver em confuses com a lei e a igreja?
   _Espero que no, Reverendssima - Bernard disse. - Simon e eu o fizemos. Nicholas apenas correu o risco de ser preso por assassinato, mas...
   _Assassinato?!
   _Um engano. Certo, Simon?
   _Sim. Eu me senti grato por no ter de efetuar tal priso.
   _Vou terminar numa cela? - Bernard indagou, desconfiado.
   _Espero que no - respondeu o amigo e, depois, redirecionou a conversa. - Vamos examinar as queixas de lorde Setton contra voc.
   Durante algum tempo, discutiram as acusaes do senhor feudal.
   Havia vrias testemunhas que podiam afirmar que, embora bravo com a recusa da recompensa, Bernard no tinha tentado estrangular Setton e nem sacar uma arma.
   Quanto ao incndio, Smon garantia que, se ernard houvesse querido reduzir Dasset a cinzas, teria iniciado o fogo de maneira diferente.
   Em relao  fuga de Edgar, a nica contribuio de Bernard fora emprestar o elmo velho a fim de desorientar Setton. Henry e outros guardas tinham soltado Edgar.
   Deixaram a pior acusao por ltimo - o seqestro de Claire.
   _No foi uma ao inteligente de sua parte - Simon comentou.
   _Talvez no, mas no poderia afirmar, honestamente, que estou arrependido.
   O        bispo Walter o encarou com firmeza.
   _No sente remorso por tirar uma jovem inocente, que apenas tentara ajud-lo, da segurana de seu lar?
   Bernard lembrou-se de jogar Claire sobre o ombro e lev-la at Cabal.
   _Naquele dia eu no a achava to inocente. Temia que ela e o pai tivessem me armado uma cilada. Imaginava que guardas armados me aguardavam no portal. Ento,
a levei como refm, sabendo que eles no me atacariam com medo de feri-la. S depois, soube de meu engano.
   Simon seguiu-lhe a linha de raciocnio.
   _Fora de Dasset, voc decidiu usar Claire para receber parte da recompensa, terras. Depois, percebeu que no poderia viver na mesma regio de Setton, ento, exigiu
um resgate em ouro a fim de comprar outras longe daqui. Isso terminou, ontem, com o acidente em Market Square.
   Bernard concordou com um gesto de cabea.
   _Podemos retroceder um pouco? - o bispo perguntou. - No ficou muito clara, para mim, a promessa da recompensa.
   _Lorde Setton estava  morte e o bispo Thurstan foi a Dasset para ouvir-lhe a ltima confisso. Fui chamado l e informado que ia receber uma grande honra. Como
parte da penitncia de Setton, o bispo determinava que um homem de Dasset tomasse parte nas Cruzadas. Setton havia me escolhido. Eu recusei. No tinha aptido para
lutar. Minha falta de interesse ficou evidente. O bispo olhou para Setton e disse: "Conte-lhe sobre a recompensa". A, Setton afirmou que, quando eu voltasse, teria
a mo de Claire em casamento e terras para me estabelecer. Oferta boa demais para ser recusada.
   _Ento os dois j tinham discutido e resolvido a questo antes?
   _Aparentemente.
   O        bispo reclinou-se na cadeira com ar pensativo.
   _Imagino por que Setton o escolheu e prometeu uma recompensa to grande.
   _No me disseram e nem me ocorreu perguntar. Mas depois, fiquei curioso.
   _Outro ponto que me intriga  terem mandado chamar o bispo Thurstan. No havia um padre em Dasset que pudesse ouvir a confisso?
   _Sim, o padre Robert que continua l. No estranhei a presena do bispo. Ele ia sempre a Dasset.
   _Mas quando um homem est morrendo e teme dar o ltimo suspiro em estado de pecado mortal, qualquer padre serve. A menos que Setton no pudesse revelar o pecado
ao padre Robert. Ou a culpa fosse to grande que ele temesse s ser absolvido pelo bispo. Outro ponto. A penitncia  sempre de acordo com o pecado cometido. Isso
me faz pensar que o de Setton era contra voc e a recompensa prometida, uma reparao por ele.
   Bernard ficou gelado.
   _Assassinato. Meus pais.
   O        bispo hesitou antes de dizer:
   _Possivelmente. Lembre-se, Bernard, estou apenas supondo.
   Bernard levantou-se. O ferimento doa, o corpo estava tenso e a cabea rodopiava. Foi at a janela e olhou para o jardim. Tinha vontade de praguejar aos gritos.
   _Sua conjetura faz sentido - disse, tentando se controlar.
   _Se Setton tinha mandado matar meus pais, no haveria de querer que algum de Dasset, inclusive o padre Robert, soubesse de tal torpeza. Por isso, mandou buscar
o bispo Thurstan que exigiu reparao. Este ficou satisfeito com a promessa feita a mim. Como morreu e no pode testemunhar a meu favor, Setton no quer cumprir
o prometido. Calculo a alegria dele quando recebeu a notcia de minha morte, como sempre esperara que acontecesse.
   _Esse engano afetou muitas pessoas. A Setton, permitiu que procurasse um marido para Claire.
   _Encontrou Eustace Marshall. Quase s vsperas do casamento, recebeu o desmentido de minha morte. Mas com a de Thurstan, ficou a palavra dele contra a minha.
   Bernard olhou para Simon.
   _No h uma maneira para se provar tudo, no ? Como o bispo disse, trata-se apenas de conjeturas.
   _Para ser honesto, seria quase impossvel provar o envolvimento de Setton no crime. Eu poderia interrogar pessoas de Faxton e de Durleigh. Mas mesmo que algum
fosse capaz de identificar os homens, duvido que pudssemos encontr-los. E Setton, como se confessou ao bispo Thurstan e foi absolvido, no sente o dever de repetir
a confisso.
   Bernard sentiu uma leve esperana.
   _Setton foi absolvido mesmo sem cumprir a penitncia, Reverendssima?
   _Acredito que Thurstan o absolveu no momento em que voc saiu do quarto. Mas Deus sabe que a questo da penitncia no foi resolvida, portanto, o lugar de Setton
n cu no est garantido como ele pensa. Talvez ajude lembr-lo disso.
   _Ele no vai se importar com a possibilidade at estar  morte outra vez. O prmio terreno de um genro poderoso  grande demais. Por mais que eu quisesse v-lo
prestes a morrer, amea-lo com um punhal na garganta s lhe daria motivo para me enforcar.
   Bernard olhou novamente pela janela. O jardim florido no lhe sugeriu nada.
   _Como poderei acertar a situao? Daria tudo para voltar atrs e recomear do momento em que cavalguei pelo portal de Dasset.
   _O que voc faria de maneira diferente?
   Bernard deu de ombros.
   _No sei. J refleti sobre tudo centenas de vezes. Quando chego ao ponto onde Setton disse que Claire estava fora de minhas cogitaes, perco a cabea novamente.
- Virou-se da janela. - Por uma questo de justia, ela  minha noiva e no de Marshall. Mas existe o contrato de noivado de Setton com ele.
   _Famlia rica e com muita influncia na corte. Imagino o que ele pensa sobre tudo isto - o bispo comentou.
   Bernard duvidava que Marshall soubesse do desaparecimento da noiva. Ele devia chegar a Dasset nesse dia e daria pela falta dela. Setton ia ter dificuldade para
explicar a ausncia da filha.
   _Marshall no vai receber a notcia de bom grado. Talvez at tente sair  procura de lady Claire. Os Marshall levam muito a srio seu cdigo de honra. Por isso,
 uma das famlias mais respeitadas do reino - disse o bispo Walter.
   Bernard voltou a sentar-se.
   _Um homem digno, ento - murmurou ele com os pensamentos agitados e uma nova esperana.
   _Bem, eu no o conheo, mas presumo que seja como o resto da famlia.
   _Se ele ouvir minha histria ser capaz de me dar crdito?
   _Quem sabe? Mas se j tiver ouvido a verso de Setton...
   _E verdade. E caso eu entre em Dasset e converse com ele de cavaleiro para cavaleiro...
   _Calma, Bernard - Simon o interrompeu. - Primeiro, voc ter de resolver como entrar em Dasset. Talvez nem consiga passar pelo portal antes que o prendam e o
levem de volta para a masmorra. E se passar, lembre-se de que Marshall e Setton j tero conversado de lorde para lorde.
   _Entendo o que quer dizer, Simon. Mas se eu for a Dasset e reivindicar novamente a recompensa, diante de Setton e Marshall, tero de me ouvir. Quais sero as
conseqncias?
   Como os dois no respondessem, ele mesmo &-fez.
   _Podero zombar de mim e eu ser levado para a masmorra, ou enforcado imediatamente. Tambm existe a possibilidade de Marshall acreditar em minha histria e romper
o noivado, deixando Claire livre para se casar comigo. Porm, o mais provvel  eu ter de provar que estou falando a verdade e Setton, mentindo. Impossvel, claro.
Isso s me deixa uma sada para provar meus direitos. O torneio.
   O        bispo bateu palmas.
   _Muito bem!
   Simon gemeu e passou as mos pelo rosto.
   _Voc no pode estar falando srio.
   _Por que no? Eu devia ter pensado nisso antes. Bem razovel.
   _Bernard, voc  um mestre da cimitarra. Ningum questiona sua habilidade com ela. Seu cavalo magnfico no podia ser melhor. Porm, sua cota de malha est imprestvel,
voc no tem um elmo e foi ferido ontem. E se no me engano, no empunha uma lana h trs anos e nem possui uma. Como vai desafiar a posse da mo de Claire?
   _Com a fora de meu brao e a justia de minha causa. No posso provar a culpa de Setton na morte de meus pais, ou que ele tenha me prometido a recompensa. Que
escolha tenho seno desafi-lo da nica forma em que talvez o vena?
   Fez-se silncio e Bernard refletiu se Simon no estaria certo. Ele precisava de elmo, lana, escudo...
   _Posso ir procurar Hugh - disse esperanoso. - Halewell fica a poucas horas ao sul de Dasset. Ele me emprestar o que eu precisar.
   Simon ainda parecia incerto.
   _Isso me deixa menos inquieto. Mas voc empunhar a lana com firmeza apesar do ferimento?
   _Conto com cinco dias para ficar bom. Vai ter de dar.
   O bispo ergueu-se e perguntou:
   _E quanto a lady Claire?
   _Vou lev-la comigo, claro.
   _No posso permitir. Embora voc a considere sua, a igreja, no.
   Bernard irritou-se com a censura sutil por ter se deitado com Claire. Mas vinda de um sacerdote, no o surpreendia.
   _Eu e Linnet teremos prazer em hosped-la - Simon ofereceu.
   _Por enquanto, est bem. Porm, como sinal das boas intenes de Bernard, ela dever ir para Dasset - disse o bispo.
   A reao de Bernard foi imediata.
   _Detesto a idia de mand-la de volta para o pai. A raiva de Setton por ela deve ter aumentado depois do que aconteceu ontem. Meu medo  que ele a agrida.
   _Seu temor no  infundado. Acho que tenho a soluo. Quando esteve aqui antes, voc indagou sobre os direitos de arrendar terras da igreja. Fiquei curioso e
resolvi examinar certos documentos. Descobri que Setton detm uma boa poro de terras do bispo de Durleigh e, portanto,  meu vassalo. Eu ainda no o conheo bem,
mas o casamento da filha seria uma boa oportunidade para isso. Embora eu no tenha sido convidado, duvido que ele no me receba se eu for. O que me diz de eu levar
lady Claire para casa sob minha proteo?
   _Afirmo que ficarei muito aliviado e concordarei se ela tambm o fizer.

   Na vspera, ele fora ferido nas costas e, agora, entusiasmava-se com a perspectiva de cruzar lanas nas lias. Provavelmente, Eustace Marshall seria quem lhe
aceitaria o desafio.
   Claire estava na horta de ervas, atrs da botica de Linnet, ouvindo Bernard explicar seu novo plano. Embora no gostasse, sabia que no poderia impedi-lo.
   A presena do bispo lhe daria uma certa proteo contra o pai. A de Eustace tambm. Porm, um castigo, ela poderia suportar, a morte de Bernard, jamais.
   Isso raramente acontecia em torneios. Os cavaleiros lutavam com lanas rombudas e a peleja entre dois combatentes terminava com o primeiro sinal de sangue ou
com a queda de um deles da montaria. Mesmo assim, algo poderia dar errado. Bernard j estava ferido e cinco dias no eram suficientes para a cicatrizao.
   _Voc se hospedar na casa de Linnet e Simon. Depois de amanh, ir para casa com o bispo Walter. Ficaremos separados por trs dias. Ento, nunca mais - Bernard
afirmou.
   Exceto se ele perdesse.
   _Voc vai a Halwell amanh?
   _Vou. Preciso ainda verificar minha cota de malha e repousar mais um dia.
   Precisava de muitos outros.
   Ele aconchegou seu rosto entre as mos e fitou-a.
   _J estou com saudade de voc.
   Seu lbio inferior tremeu.
   _Bernard, e se...
   _Nada disso. Mais do que qualquer coisa, preciso que voc acredite em mim. Posso lutar, Claire, e vencer. Vencerei.
   A confiana e a determinao de Bernard estampavam-se nas feies dele. No era mais o campons do passado, mas um guerreiro que havia retornado das Cruzadas.
Ela o amava. Confiava nele. No poderia entregar seu destino a mos melhores do que as dele.
   _Est bem. V se exercitar com as lanas. Ficarei esperando por voc em Dasset. Mas desta vez, ao irmos embora juntos, poderemos faz-lo de maneira menos espetacular?

   CAPITULO 17

   Cavalgar sem Claire era estranho. Bernard tinha se acostumado com seu corpo quente e malevel encostado no dele e com o brao em sua cintura. Sentia falta de
conversar com ela, de suas perguntas e at de seu silncio amistoso.
   Ele a tinha deixado sob a proteo de Simon. No dia seguinte, o bispo Walter a levaria para Dasset. No poderia confi-la a ningum melhor do que os dois. Mas
preferia estar ele cuidando de sua segurana. Separar-se dela, naquela manh, fora angustiante.
   Claire no era indefesa, alm de ser inteligente e esperta. As vezes, percebia o perigo antes dele e o avisava. Se no fosse pelo pacto, teria fugido.
   Ela podia ser uma leoa ou uma gatinha e Bernard no sabia que parte de sua natureza o fascinava mais. S tinha noo dos braos vazios e da ansiedade de senti-la
entre eles.
   Antes de partir, a tinha aconchegado ao peito por um longo tempo, imaginando se no seria a ltima vez. Ambos haviam se esforado para sorrir .e no mostrar a
tristeza. Ele fizera o possvel para tranqiliz-la, garantindo que tudo acabaria bem. Porm, no fundo do corao, havia uma ponta de dvida.
   Na ltima vez em que empunhara uma lana no tinha feito feio, mas no fora um triunfo espetacular.
   Num perodo de trgua, o tdio havia levado um grupo de cavaleiros a convidar outro para um torneio. Marcaram um trecho do deserto egpcio e, com lanas rombudas
e apostas feitas ao redor, divertiram-se por algum tempo.
   No primeiro embate, Bernard conseguira derrubar o oponente da montaria. Hugh tinha lhe explicado que havia sido uma questo de sorte. Com as palavras do amigo
zunindo nos ouvidos, ele tinha endireitado a posio do escudo e da lana.
   O        segundo tambm cara, mas Hugh no havia ficado satisfeito.
   Irritado, Bernard perdera o controle bem como a vigilncia, o que tinha levado o terceiro a vencer.
   _Voc ficou bravo - Hugh dissera apenas, preparado para ganhar o torneio.
   O        amigo tinha feito de propsito e Bernard, apreciado a lio. Nunca mais levantara uma arma dominado pela raiva. Tinha aprendido a transform-la em calma
fria.
   Controlar o sentimento em Dasset poderia ser impossvel. Apenas ao olhar para Odo Setton, seu sangue ferveria.
   Bernard sabia que o oponente no seria ele. Setton escolheria um mais jovem, forte e capaz. Como Eustace Marshall.
   Bernard saiu da mata e entrou nos campos que cercavam Halewell, uma antiga fortaleza de pedra, rodeada por um fosso e muralhas. Instigou Cabal a apressar o passo
e logo se aproximava do portal.
   Um nico guarda o viu e, do topo da muralha, gritou para algum no ptio que apenas o convidou, com um gesto, para entrar.
   Bernard parou. Perto da muralha, estava Hugh - o formidvel, loiro, benvolo Hugh. A surpresa dele provocou-lhe um sorriso. Desmontou e firmou os ps.
   Hugh no tinha mudado nada. O homem imenso como um urso deu-lhe um forte abrao e um bom tapa nas costas. Bernard quase se curvou de dor.
   _Pelos deuses, Hugh, no amasse homens menos fortes.
   O        amigo riu.
   _Mais baixo, sim, mas no menos forte. - Ao solt-lo, Hugh sentiu a atadura. - O que  isto? Foi ferido? - indagou, preocupado.
   _Buraco de uma seta. No foi profundo e est cicatrizando bem. Como vai Maudie?
   Um sorriso meigo estampou-se no rosto do guerreiro grandalho.
   _Um anjinho que aquece o corao deste velho diabo. Ela j anda bem e fala algumas palavras. E algo fascinante ver uma criaturinha explorar se mundo. Mas vamos
entrar para voc ver por si mesmo.
   Era o que Bernard desejava. Abraar a menininha querida poderia diminuir o vazio deprimente. Mas tinha vindo procurar Hugh com um propsito.
   _Vamos, sim, mas antes quero lhe pedir um grande favor.
   _Ento, esta no  uma visita a um velho amigo?
   _Gostaria de dizer que sim, mas estou com um problema urgente e preciso de sua ajuda.
   _ s dizer.
   Ah, o generoso Hugh. O que possua era seu. Bernard esperava no estar se aproveitando dele.
   _Dentro de quatro dias, vou ter de desafiar algum nas lias. Preciso de uma ou duas lanas, me exercitar um pouco e de sua voz gritando para eu me concentrar.
   _Um desafio?
   Bernard respirou fundo antes de explicar.
   _A recompensa que me prometeram foi negada. Por isso, devo desafiar um outro homem para ter o direito de me casar com Claire.
   _Sua volta no deu certo como esperava?
   _No, nem a de Simon, que lhe mandou lembranas, ou a de Nicky. Ambos tiveram problemas, mas j os resolveram. Faz bem ver que seus planos funcionaram.
   Hugh sacudiu a cabea.
   _Meu irmo morreu e Elena... Bem, voc vai conhec-la. Agora, sou o senhor de Halewell.
   Bernard teve a impresso de notar um laivo de insatisfao na voz do amigo. No estranhava. Hugh tinha planejado apenas descansar um pouco em Halewell e voltar
a lutar em competies.
   _Voc pretende ir ao torneio em Dasset?
   _No. Ouvi falar dele, mas no vou. E nele que voc desafiar algum? - A um sinal afirmativo de Bernard, ele disse: _Nesse caso, vamos ver se voc tem possibilidade
de ganhar.
   Durante a tarde, Hugh forou Bernard a enfrentar exerccios que apenas um soldado experiente poderia executar e aos quais apenas um homem forte e determinado
conseguiria sobreviver.
   Quando os interromperam antes do jantar, Bernard sentia o efeito da lana pesada. Estava exausto.
   Tirou o elmo emprestado e sacudiu os cabelos molhados de transpirao. Hugh ps o brao sobre seus ombros.
   _Como nos velhos tempos, hein? - disse com um largo sorriso.
   _Quase. No estou bravo com voc. Ainda.
   Hugh passou a mo em Cabal.
   _Pelo menos, este sujeito est em forma. O mesmo no se pode dizer do dono dele. Voc tomba para a direita.
   _Eu sei.
   O        ferimento ardia desde o instante em que empunhara a lana. Tinha sentido uma dor atroz durante o tempo todo dos exerccios. Esperava que os pontos continuassem
firmes.
   _Vamos cuidar de Cabal e de seu ferimento e, depois, jantar. O maior peso que voc ter de carregar  Maudie.
   Bernard deixou Hugh ajud-lo a escovar Cabal porque no tinha energia para discutir com ele. Subir a escada de entrada da fortaleza quase acabou com ele. Mas
entrou na sala de guarda com os prprios ps.
   Como a cota de malha ainda estivesse no armeiro, em Durleigh, Bernard s teve de tirar a tnica. Correu os olhos pelo aposento, enquanto Hugh abria uma arca,
e viu vrias enxergas ao longo da parede de pedra. Diante de seu cansao, pareciam to boas quanto colches macios.
   _Encoste-se na parede - Hugh mandou.
   Bernard obedeceu e o amigo desenrolou a faixa.
   _Sangrou um pouco, mas os pontos esto firmes - ele o informou ao cutucar o ferimento, provocando-lhe um gemido.
   Em seguida, Hugh passou ungento e comeou a enrolar uma faixa limpa.
   _No to apertada. Tenho de respirar.
   O        protesto s provocou um riso baixo.
   _Pronto. L naquele canto, h uma bacia, gua e toalha. Depois de se lavar, subiremos para jantar. Vamos ver o que Elena pretende nos servir.
   Alimento. Cerveja. Descanso. Apenas faltava Claire para a noite ser perfeita.
   Ela tambm sentiria saudade? Sonharia com ele essa noite?
   Bernard arrastou-se at a bacia. Depois de se lavar, enxugar-se e vestir uma tnica limpa, acompanhou Hugh ao salo. Uma mulher baixa, de cabelos escuros, orientava
os criados. Logo avistou Maud e no conseguiu desviar os olhos. A criana linda parecia determinada a subir numa das mesas.
   _Maud! Veja quem eu trouxe para ver voc - chamou Hugh em sua voz possante.
   Ela desceu depressa do banco e veio-lhes ao encontro.
   _Incrvel como Maudie est crescida e andando bem! - Bernard exclamou e, ignorando a dor nas costas, abaixou-se para abra-la. - Ah, pequeniinha, senti tanta
falta sua.
   Maud riu, alegre.
   _Quero uma assim para mim, Hugh.
   A confisso no o surpreendeu. Nos sonhos, sempre via Claire com um beb nos braos.
   _ Pois vena no torneio, case-se com Claire e gere uma dzia.
   Bernard assustou-se. Ele e Claire nunca tinham falado sobre o futuro. Viviam cada dia como se fosse o nico. Teria ele j gerado um filho? Bem possvel.
   A refeio foi simples, mas saborosa, servida com eficincia pela mulher de cabelos escuros e que Bernard j sabia tratar-se de Elena. Ela era filha do administrador
de Hugh e comportava-se como se fosse a castel. Maud, sentada no colo de Hugh, comeu com ele e acabou dormindo. Depois de contar o que sabia sobre os outros companheiros,
Bernard perguntou:
   _E voc, est contente como senhor de Halewell?
   Antes de responder, Hugh olhou para Elena.
   _Trata-se de uma vida diferente da que eu esperava. Depois que me acostumei a ela, no acho m. Devo admitir que estou me desincumbido bem.
   Em seguida, passou a descrever o que j tinha feito para melhorar Halewell.
   Seria imaginao sua, ou Elena tinha revirado os olhos com ar incrdulo?, indagou-se Bernard. Estava cansado demais para ter certeza.
   Tomou o resto da cerveja e levantou-se.
   _Aps esta refeio deliciosa, me recuso a insult-la, minha lady, dormindo  mesa. Se me derem licena, vou me retirar. Estou exausto.
   Elena curvou a cabea e, depois, dirigiu um olhar presunoso a Hugh.
   _Obrigada, sir Bernard. E muito bom ser reconhecida. Mandei preparar uma cama para o senhor l em cima.
   Bernard olhou para a escada ngreme e em espiral.
   _No, minha lady, agradeo. Uma enxerga na sala de guarda serve bem.
   Hugh sorriu.
   _Durma na primeira em que cair. Os guardas o rodearo. Amanh cedo, depois de nos alimentarmos, voc voltar a se exercitar.

   Viajar na companhia do bispo Walter seria um prazer se o destino no fosse Dasset. A gua palafrm emprestada seguia com passos firmes. O bispo, exibindo as vestes
e insgnias de seu cargo, mantinha uma conversa agradvel. Os homens, que os acompanhavam, cavalgavam como se fossem soldados bem treinados.
   Mas a saudade de Bernard era terrvel. Embora Claire soubesse que ele s chegaria a Dasset no dia seguinte, procurava-o com o olhar depois de cada curva da estrada.
   Simon achava que, com o treinamento orientado por Hugh, Bernard venceria qualquer oponente. E o bispo, que acreditam no relato de Bernard, afirmava que Deus favorecia
as causas justas.
   Tudo isso seria muito bom se o cavaleiro em questo no tivesse um ferimento nas costas que poderia impedi-lo de segurar a lana na posio correta.
   Quando avistaram Dasset, Claire percebeu que devia parar de se afligir com Bernard por algum tempo. Ia ter de enfrentar o pai e isso no seria fcil.
   Notou as tendas coloridas nos campos em volta do castelo. Cavaleiros que pretendiam tomar parte no torneio j comeavam a chegar. Imaginou como o pai estaria
explicando a ausncia da noiva aos convidados e a Marshall.
   _Firme agora, minha lady. Tudo vai dar certo, se Deus quiser - disse o bispo Walter.
   Claire no conteve um sorriso.
   _A ltima vez que passei por este portal, supliquei a intercesso da Virgem Santssima. Vou confiar nela outra vez.
   De acordo com a ordem hierrquica, Claire entrou pelo portal, cavalgando atrs do bispo. Um olhar rpido pelo ptio mostrou-lhe que nada havia mudado, exceto
a reconstruo do estbulo.
   Naturalmente, a aproximao da comitiva fora notada e uma recepo j estava preparada. O ptio tinha sido limpo do portal  escada de entrada do castelo. Cavalarios
acorreram depressa a fim de pegar as rdeas das montarias. Miles, o administrador de Setton, aproximou-se e, curvado diante do bispo e disse:
   _Reverendssima, no o espervamos, mas  muito bem-vindo ao castelo de Dasset. E, lady Claire, lorde Setton est muito ansioso para v-la.
   _Meu pai est no salo?
   _Sim. Acabou de retornar de uma busca pela senhora. Vai ficar muito satisfeito com o fato de Sua Reverendssima a ter trazido de volta. Graas ao bom Deus! -
Miles exclamou em tom de alvio.
   _Minha irm e meus irmos chegaram?
   _No e nem so mais esperados.
   A esperana de contar com a ajuda de Julius desapareceu. Claire mandou Miles providenciar acomodaes e uma refeio para os acompanhantes. Depois, ps a mo
no brao do bispo.
   _Lembre-se, Reverendssima, a idia de me trazer para casa foi sua. Vamos? - indagou.
   _Para a cova dos lees como Daniel? - ele provocou.
   _Impossvel saber - respondeu ela ao conduzi-lo pela escada e pela porta do salo.
   Ele estava repleto como Claire no se lembrava de j ter visto. Lordes e ladies, cavaleiros e escudeiros movimentavam-se pelo salo. Pajens e criados circulavam
entre eles com jarras nas mos, servindo-os. Do lado oposto, chegavam as notas de uma harpa. Um trovador? Trazido por Marshall, com certeza, para entreter os convidados.
E o pai fora forado a receb-lo.
   Cabeas comearam a virar-se para ela. Vozes altas transformaram-se em murmrios. Claire respirou fundo e procurou o pai com o olhar. Localizou-o logo. Ele se
aproximava, acompanhado por Eustace Marshall.
   Por um momento, ela ignorou o olhar furioso do pai e observou o noivo. Um homem atraente, de feies delicadas, quase juvenis, e de cabelos negros. Caminhava
com leveza e graa, um contraste com os passos abrutalhados do pai.
   Setton parou diante do bispo. Sua curvatura, rpida demais, foi desrespeitosa.
   _Seja bem-vindo  hospitalidade de meu salo, Reverendssima. Meus agradecimentos por trazer de volta minha filha errante. Claire, precisamos conversar - disse
de um flego s.
   Estendeu a mo para segurar-lhe o brao. Ela recuou e o bispo Walter tambm. Sem conseguir peg-la, a carranca de Setton tornou-se mais ameaadora.
   _Setton, controle-se - Marshall ordenou em voz baixa e dando um passo  frente a fim de bloquear qualquer movimento de seu pai. - Lady Claire, como lorde Odo
 incapaz de um mnimo de cortesia, poderia fazer a gentileza de me apresentar a Sua Reverendssima?
   Claire no era tola. Se os dois homens queriam agir como seus escudos contra o pai., usaria ambos. Enquanto atendia o pedido de Marshall, procurou a me com o
olhar. Lady Leone no era conhecida por atitudes corajosas e, como Claire suspeitava, ela ocupava-se com alguma coisa, perto da lareira, ignorando todos, inclusive
a filha recm-chegada.
   O lorde de Huntingdon e o bispo Walter trocaram amabilidades. Impaciente, Setton esperava que terminassem. Eventualmente, a conversa chegou  experincia cruel
de Claire, como Marshall a qualificou.
   _E uma histria longa e dolorosa - o bispo disse ao tocar-lhe a mo que continuava no brao dele. - A fim de poup-la, sugiro que vamos a um lugar mais reservado.
Lorde Setton?
   De m vontade, ele os levou  sala de guarda e expulsou os homens que estavam l. Bateu a porta e virou-se para Claire.
   _Com todos os diabos, menina, por onde andou? Passei os ltimos dias revirando a rea entre Dasset e Durleigh a sua procura.
   _No samos da cidade - ela afirmou.
   _Ah, ele no conseguiu? timo! Agora que finalmente nos livramos do tratante, podemos...
   _Ele no morreu, papai. Por mais que o senhor no deseje, Bernard Fitzgibbons continua vivo.
   _Morto ou no, ele no me diz mais respeito. Voc est em casa. Depois de amanh se casar com Marshall e...
   O        bispo levantou a mo.
   _Ah, Setton, existe a indagao sobre com quem sua filha deve se casar. Pelo que entendi, voc permitiu seu noivado com dois homens.
   _No fiz isso!
   _Espero que no, por seu prprio bem, Setton - Marshall disse e, pela primeira vez, Claire pressentiu perigo.
   Marshall no era to dcil quanto pensara.
   _Claire est firme e formalmente noiva de Marshall. Fitzgibbons pode levar a reivindicao dele para o diabo.
   _Ele acha que j o fez e sofre por isso desde ento. Bem como lady Claire.
   _Que reivindicao? - Marshall quis saber.
   _Papai lhe prometeu...
   _Cale a boca, Claire! Voc j merece uma sova por interferir no caso de Fitzgibbons. Diga mais uma palavra e eu no responderei por mim.
   Claire ignorou-o e, fitando Marshall, prosseguiu:
   _... uma recompensa em terras e minha mo por tomar parte nas Cruzadas, em cumprimento a uma penitncia imposta a ele pelo bispo Thurstan. Quando Bernard voltou,
papai negou a promessa e o atirou na masmorra. Pode imaginar um cavaleiro e heri das Cruzadas tratado corno se fosse um mero campons?
   Ao ver a testa franzida de Marshall, Setton gritou:
   _Fitzgibbons ameaou minha vida!
   _O senhor no corria perigo algum. Havia vrios guardas no salo e Fitzgibbons estava desarmado - Claire declarou.
   Ah, como o pai odiava ouvi-la e ver o ar de desaprovao de Marshall. Firme, ela continuou:
   _No suportei ver Fitzgibbons tratado de tal maneira. Quando percebi que papai pretendia fazer-lhe um mal maior, fui  masmorra e o libertei. A, teve incio
minha aventura.
   _No existe promessa alguma de recompensa a ele! - seu pai esbravejou.
   _Acredito que exista. Ouvi a histria do prprio Bernard. Ela parece ser verdica e sugere traio sua - o bispo afirmou.
   Setton no disfarou a expresso de escrnio.
   _Grande heri da f! Foi s Cruzadas porque lhe proporcionei os meios. E como retribuiu? Fez exigncias afrontosas, incendiou meu estbulo, seqestrou minha
filha e tentou me vend-la de volta!
   _O que ele reivindica no  afrontoso - Claire declarou.
   _Ele no vai ter nada que seja meu. Nem terras ou voc.
   Claire no viu a mo do pai se aproximando. Apenas sentiu o tapa que a derrubou ao cho. Com gosto de sangue na boca, lutou para manter a conscincia. Ouviu o
pai gritar que tinha o direito de puni-la como bem entendesse.
   Marshall protestava contra mais tapas e o bispo Walter curvou-se para ajud-la a se levantar. Sabendo que no conseguiria ficar em p, ela afastou-lhe as mos
e sentou-se no cho. J havia apanhado muito, mas no com tal fora e para qual no estava preparada.
   _Claire?
   Bravo e preocupado, o bispo a chamou.
   _Ficarei bem logo. S um momento.
   Ele endireitou-se.
   _Setton, trouxe sua filha de volta a pedido de Bernard Fitzgibbons. Ele deseja que esta pendncia seja acertada de maneira honrada.
   _Est acertada. Ela se casar com Marshall - Setton declarou e foi embora.
   Marshall abaixou-se ao lado de Claire e examinou-lhe o rosto.
   _Vai ficar com uma equimose feia, minha lady.
   _No ser a primeira.
   _Foi o que pensei. Estou aqui h vrios dias e ouvi a histria de seu seqestro e resgate contada por seu pai e por outras pessoas.
   _Espero que tenha acreditado na das ltimas - disse o bispo.
   _Estou inclinado a isso. - Marshall virou-se para Clare.
   _ Percebo que a pendncia no est acertada.
   _Bernard Fitzgibbons chegar amanh a fim de reivindicar, outra vez, a recompensa - ela o informou.
   _Seu pai no me parece disposto a mudar de idia.
   _Ento, Bernard o desafiar a lutar.
   Claire no precisou explicar as conseqncias.
   Marshall ergueu-se e ajudou-a a ficar em p.
   _Posso lhe sugerir, lady Claire, que fique em seu quarto, fora do alcance de seu pai, at a questo ser resolvida?
   _Seguirei o conselho, meu senhor.
   Ela o faria. J tinha cumprido o que se prometera, levar ao conhecimento de Marshall a seriedade da reivindicao de Bernard e o fato de um alto dignitrio da
igreja achar que seu pai havia enganado os dois homens. De agora em diante, a soluo estava nas mos de Bernard.


   CAPTULO 18

   Bernard caiu e, enquanto rolava na terra, concluiu que no se sara muito mal. Tinha enfrentado bem a lana de Hugh at o quinto ataque. Sentou-se, tirou o elmo
emprestado e viu a sombra do amigo.
   _O que aprendeu? - Hugh indagou.
   _Que devo derrubar o oponente no terceiro ataque ou no serei capaz de manter a ponta da lana com firmeza no quinto.
   _E?
   _Que voc ainda  melhor do que eu?
   _Sem dvida. O que mais?
   Bernard curvou a cabea e refletiu. Tinha feito tudo certo at uma contrao no lado fazer o corpo estremecer, atrapalhando o equilbrio da lana. A ponta tinha
escorregado no escudo de Hugh e o deixado exposto a um golpe. Havia cado e atingido o cho corretamente, mas ento...
   _Eu deveria ter me levantado imediatamente e sacado a cimitarra para uma emergncia. Juro, Hugh, vou me lembrar caso isso acontea no torneio.
   _Foi sempre um prazer trein-lo.
   _Espero que esta seja a ltima vez. - Ergueu-se do cho.
   _Est na hora de saborear uma cerveja e um pedao de po. Depois, vou dormir e acordar ao clarear do dia.
   _Ter tempo para se exercitar mais um pouco amanh cedo - disse Hugh.
   _No. Tenho de partir logo se quiser pegar minha cota de malha em Durleigh e chegar  noite em Dasset.
   Entardecia. O bispo Walter e Claire j deviam ter chegado a Dasset. Ela estava em casa e jantaria com a famlia e Eustace Marshall. Bernard abafou uma onda de
cime. Precisava controlar os sentimentos instigados por Marshall. No havia lugar para emoes nas lias. Elas induziam a erros e Bernard no poderia cometer sequer
um.
   Cuidaram dos cavalos e foram para a fortaleza. Maud os recebeu com abraos e beijos molhados. Elena j havia providenciado comida e cerveja.
   _Mulher adorvel sua Elena - Bernard comentou.
   Hugh deu de ombros.
   _A maneira dela.
   Mais uma vez, Bernard intuiu algo errado no relacionamento entre os dois. Eles se tratavam bem, mas com frieza. Porm, no era de sua conta e ele no tinha tempo
para decifrar o enigma. Alm do mais, Hugh era capaz de solucionar o prprio problema, caso houvesse um.
   _Bernard, por que voc no usa minha cota de malha? Assim, no ter de ir a Durleigh.
   _No. Tenho a minha.
   _Eu sei, mas use a minha.
   _Voc j me emprestou lanas, escudo e elmo. Se perder esses...
   Hugh dirigiu-lhe um olhar severo. Perder era uma palavra proibida. Mas em qualquer torneio, o vencedor tinha direito  armadura do vencido. Bernard no sabia
se teria moedas suficientes para comprar uma cota de malha para Hugh caso o pior acontecesse.
   _No quero nada seu que possa vir a lhe fazer falta.
   _Mais uma razo para usar minha cota. Isso o forar a vencer e voltar aqui para me agradecer por t-lo treinado to bem.
   Talvez Hugh estivesse certo. O medo de voltar a Halewell sem a armadura do amigo seria mais um incentivo para vencer.
   _Vou aceitar seu oferecimento. Muito obrigado, Hugh. Mesmo assim, quero partir cedo, pois tenho de passar em Faxton. Preciso de algum para ser meu escudeiro
e tenho um amigo que ficar sentido se eu no lhe pedir isso.
   Garth consideraria uma honra e Bernard no via melhor maneira para agradecer ao companheiro de infncia por tentar proteger-lhe as costas.
   _Bem, no lhe falta mais nada. Mas eu o treinei esses dois dias e voc no me disse contra quem vai lutar.
   _Vai depender da escolha de Odo Setton. Imagino que seja Eustace Marshall, o homem de quem Claire est noiva. Talvez ele at insista, por uma questo de honra.
   Hugh soltou um assobio entre os dentes.
   _Marshall?!
   Bernard no gostou de tal reao.
   _Voc j lutou contra ele? Algum detalhe que eu deva saber?
   _Lutei, sim, e o derrubei duas vezes. Tente venc-lo no terceiro ataque, Bernard. O homem  muito bom.
   _Mas pode ser derrotado?
   _Claro, mas no facilmente.
   Bernard praguejou baixinho.
   _Preferia que voc no tivesse me contado.
   _Ora, voc precisava saber. Mantenha-se alerta e calmo.
   Bernard deu um ltimo beijo em Maud e despediu-se de Elena, agradecendo a hospitalidade. Hugh o acompanhou at a sala de guarda onde tirou, de uma arca, uma cota
de malha reluzente. Com muito cuidado, Bernard a colocou na sacola e, depois, virou-se para o amigo a fim de se despedir.
   Abraaram-se forte e afetuosamente.
   _Olhe, leve umas ataduras. Mande seu escudeiro enrolar uma bem apertada, para proteger os pontos, antes de entrar na lia.
   O        ltimo conselho do homem que o tinha ensinado a lutar como um guerreiro e lhe salvado a vida vrias vezes.
   _Cuide-se tambm. Eu voltarei.
   _Em breve, espero.
   Hugh subiu ao salo e Bernard deitou-se, porm, no conseguiu dormir logo.
   Sentia falta de Claire. No dia seguinte  tarde, chegaria a Dasset, a veria e desafiaria Setton. E, no outro dia, enfrentaria quem ele escolhesse.
   Depois, quando Claire finalmente fosse sua, para onde iriam?
   Na verdade, o destino no importava desde que estivessem juntos. Ele encontraria uma maneira de construir uma vida para ambos e de cuidar dela.
   O        bispo Walter achava que a relquia de So Babylas valia muito, o suficiente para comprar terras em algum lugar. Ele construiria um solar de pedra, cultivaria
trigo e caaria com falces. Teriam filhos e o amor floresceria.
   Primeiro, ele tinha de ganhar Claire. Sem ela, nada mais importaria.
   Bernard riu das reflexes. Lembrou-se de como, antes, valorizava a terra acima de tudo. Mas desistira dela em troca do amor de Claire.
   Ela havia vencido-lhe as defesas e entrado em seu corao, forando-o a reconhecer que o amor de ambos valia qualquer sacrifcio.
   Logo, ele teria a realizao do sonho ou nada.

   Orgulhoso, Garth mantinha-se ereto na sela da mula como se estivesse cavalgando um garanho. Tinha exultado com o pedido para ser escudeiro. A nica condio
imposta por Bernard fora obedincia absoluta s instrues. Durante parte da viagem, ouviu as explicaes dos deveres dele. Os mais importantes seriam durante o
torneio e o mais delicado, o cuidado com as lanas.
   Garth jurou proteg-las com a prpria vida e Bernard esperava que tivessem tempo,  noite, para exercitar o manuseio delas. Se no fosse possvel, teria de confiar
na observao de Garth sobre a maneira de os outros escudeiros entregar as lanas aos cavaleiros. Como acertos de disputas geralmente eram no fim dos torneios, ele
deveria ser um dos ltimos.
   Bernard notou o grande nmero de tendas coloridas nos campos ao redor do castelo. Flmulas com emblemas de cavaleiros ondulavam ao vento. Ele no havia escolhido
nada para distingui-lo dos outros. Esperava que o manto, com a rosa preta e a cruz vermelha, o fizesse.
   _Fique perto, Garth - avisou enquanto atravessavam a ponte levadia, rumo ao portal.
   Ergueu o olhar e viu Henry acenando-lhe.
   _Tem certeza de que quer entrar, Bernard?
   _Sim. Mais uma vez. Como vai o brao?
   _Quase bom. Se est mesmo determinado, v procurar o velho Peter a fim de acomodar os animais.
   O trajeto do portal ao estbulo provocou-lhe lembranas tanto da chegada cheia de esperana como da sada marcada pela raiva surda.
   Aturdido, Peter dava ordens aos cavalarios sobre os animais que ocupavam quase todas as baias.
   _Vai tentar outra vez, Bernard? - ele perguntou ao v-lo.
   _Sim. Mas tomarei cuidado para no queimar o estbulo.
   Peter sorriu.
   _No foi nada mau. Ficamos com mais baias. - O velho homem apontou para o castelo. - Voc sabe onde encontr-lo. No mesmo lugar e mais rabugento do que nunca.
   _Desta vez, estou sendo aguardado.
   _Ah, meu rapaz, eles no viam a hora de voc chegar. Melhor deixar sua arma pag aqui. No vai adiantar nada derramar seu sangue.
   Bernard tirou a bainha com a cimitarra e entregou-a a Garth.
   _Guarde bem tudo. No deixe ningum tocar em nada, especialmente nas lanas.
   _Voc teme alguma traio?
   _Aprendi a esperar qualquer coisa de Odo Setton.
   _No se preocupe. Vou ficar alerta - Garth prometeu.
   Bernard virou-se para Peter.
   _Julius chegou?
   _No. Geoffrey e Jeanne tambm no. Uma pena.
   Como Claire havia lhe contado as desavenas de Setton com os filhos, Bernard no se surpreendeu com a ausncia deles.
   Com um peso na boca do estmago, dirigiu-se ao castelo. Mais uma vez, ia requisitar a recompensa prometida, mas ao oposto da primeira, no se contentaria com
menos do que Claire. Tinha de vencer. E conseguiria.
   Passou pela porta e observou o salo. Homens vestidos ricamente acompanhavam damas cobertas de jias. O som de uma harpa flutuava acima do burburinho de vozes.
   O sonho de Claire. Um ambiente festivo e opulento.
   Havia lhe pedido para trocar seu sonho pelo dele. Viria ela a se arrepender mais tarde? Lamentaria o que poderia haver tido se ele no houvesse lhe invadido a
vida?
   O bispo Walter aproximou-se da porta. Exibia vestes brancas, com acabamento dourado, mais ao estilo do falecido bispo Thurstan. Bernard sentia-se grato a ele
por ter trazido Claire a Dasset.
   _A est voc, Fitzgibbons. Eu j comeava a estranhar sua demora - disse o bispo.
   _Parei em Faxton para arranjar um escudeiro. A mula dele anda bem mais devagar do que um cavalo. Diga, como vo as coisas aqui?
   O bispo inclinou-se sobre Bernard como se fosse revelar um segredo.
   _Um falatrio incessante. Tinha me esquecido como boatos se espalham depressa entre as pessoas que gostam de dar com a lngua nos dentes.
   Mas as vozes baixavam. O bispo no fora o nico a not-lo. Bernard ignorou os olhares que lhe dirigiam.
   _Onde est Claire?
   _No quarto com a me e as criadas. Eu no a vejo desde o confronto com Setton ontem. E melhor para ela ficar longe do pai - acrescentou, bravo.
   _Setton no ficou satisfeito ao ver a filha?
   _No que eu notasse.
   _E Marshall?
   O bispo franziu as sobrancelhas.
   _Difcil dizer. E um homem atraente, fino e educado, mas um tanto frio, eu acho.
   Um silncio profundo reinou no salo. As pessoas dividiram-se em dois grupos, indo cada um para lados opostos e deixando uma passagem no centro. Numa das pontas
desta estava Odo Setton e, na outra, Claire.
   Bernard sabia que deveria dirigir-se  primeira, mas a outra o atraa. Felizmente, Claire decidiu por ele.
   Num andar gracioso, aproximou-se. O vestido e o vu cor de mbar luziam sob a luz das tochas.
   Linda. Preciosa.
   Esta mulher adorvel o amava. No poderia orgulhar-se mais dela ou desej-la com maior paixo do que nesse momento. Apesar das pessoas  volta e dos obstculos
que o aguardavam, sentia mpetos de a tomar nos braos e beij-la ardorosamente. Teria de esperar at mais tarde quando estivessem a ss num lugar onde pudessem
se amar e saciar plenamente o desejo.
   Claire estendeu-lhe as mos, com as palmas para baixo, para que ele as pegasse. Consciente das boas maneiras, aceitou apenas o que lhe era oferecido.
   Foi ento que viu a equimose em seu rosto. Ela a cobrira com um p branco, mas a mancha roxa continuava visvel. Foi tomado pelo dio.
   _Desgraado! - murmurou, esforando-se para no gritar.
   Claire apertou-lhe as mos.
   _No se aflija. E s uma questo de aparncia. No di mais.
   Bernard olhou para o bispo Walter e disse:
   _Deveria t-la protegido.
   _No foi culpa dele. Cheguei perto demais e papai no resistiu, mesmo com a presena do Sua Reverendssima e a de Marshall - Claire explicou.
   Sem se importar com o decoro, Bernard beijou-lhe a face machucada.
   _Nunca mais, Claire, prometo. No enquanto eu viver.
   _No vou esquecer, meu amor. - Ela suspirou. - No podemos simplesmente passar pela porta e ir embora?
   _Eu a fecharei depois que se forem - disse o bispo Walter.
   Bernard sabia que ambos gracejavam a fim de acalm-lo.
   _A tentao  grande. Claire, fique aqui...
   _Vou com voc. Ele quer que me acovarde, mas eu me recuso.
   Porm, havia se escondido, pensou ele.
   _Apesar de sua coragem, trancou-se no quarto.
   _Ah, isso? Eu e minhas criadas ficamos muito ocupadas. Amanh, voc ver. Vamos tratar logo do assunto?
   Com a mo de Claire na dele, Bernard virou-se para a direo de. Setton.
   Por Deus, ele mataria o monstro com a maior boa vontade. Porm, ficaria numa situao pior do que j estava.
   _Voc comprou uma nova cota de malha? Est brilhando _Claire indagou.
   _ de Hugh. Ele insistiu em emprest-la.
   _timo. Sem buracos, espero. Como esto suas costas?
   _Feias, mas no doem muito mais.
   Ela riu.
   _Que par formamos!
   _Concordo. Vamos informar seu pai.
   O primeiro passo foi o mais difcil. Mas a conversa descontrada de Claire tivera um efeito mgico. A cada novo passo, a raiva diminua, dando lugar  calma
fria que o envolvia nas batalhas. Ele ouvia o farfalhar das vestes do bispo Walter. Homem excelente para proteger-lhe as costas.
   _Ao lado de meu pai, de preto, est Eustace Marshall.
   Bernard observou o homem a quem Setton esperara dar a filha. Alto. Atraente. Nem um fio de cabelo fora do lugar, nem um trao de emoo no rosto.
   Bernard desviou a ateno para Setton, o adversrio mais perigoso. Os olhos do velho lorde, semicerrados, no passavam de frestas, as mos fechavam-se e abriam-se
sem parar. Mais pela segurana de Claire do que da prpria, Bernard parou a vrios passos dele.
   Embora o enojasse, curvou-se ligeiramente.
   _Lorde Setton.
   _Largue a mo de minha filha, seu tratante.
   Bernard ignorou o insulto.
   _No. Enquanto Claire esteve sob meus cuidados, no sofreu um arranho. Seu resfriado passou. Eu a mandei para casa e o que encontrei? Uma equimose feia em seu
rosto delicado. Ela ficar a meu lado.
   _Voc se atreve a desobedecer uma ordem de seu senhor feudal?
   _Ora, lorde Setton, quando lhe jurei fidelidade e a todos os seus, o senhor me prometeu proteo e sustento. Momentos depois, negou meus direitos, a recompensa
que me deve por ter servido nas Cruzadas. O senhor no cumpriu sua palavra. Portanto, no me sinto na obrigao de obedecer qualquer ordem sua.
   Setton encarou Claire.
   _Afaste-se.
   Ela apertou mais a mo de Bernard. Por segurana?
   Numa voz clara, disse:
   _No vejo motivo para me afastar. O senhor  apenas meu pai. Bernard  meu noivo. Melhor, afirmo, me apegar ao homem com quem vou me casar do que ao pai a quem,
aliviada, deixarei para trs.
   Ao ouvi-la, Marshall nem piscou. Claire devia t-lo avisado que acreditava na histria da recompensa, Bernard refletiu.
   Os murmrios em volta irritaram Setton. Ele deu um passo para Claire. Bernard a puxou para mais perto.
   _Tente, Setton. Mas fique avisado, eu revidarei.
   Setton recuou.
   _A menina parece confusa em relao ao nome do noivo.
   _Confuso est o senhor. Esperava que sua memria tivesse melhorado depois de nossa ltima divergncia sobre a quem Claire pertenceria.
   Setton o olhou com sarcasmo.
   _Na ltima vez, voc desistiu dela bem depressa. Estava mais interessado em terras.
   _Um erro pelo qual Claire j me perdoou.
   _Ento, voltamos aonde comeamos, com voc exigindo uma recompensa que nunca lhe prometi.
   _Eu reivindico a que o senhor me garantiu na presena do bispo Thurstan. Que ele descanse em paz.
   Bernard no gostou do sorriso de Setton.
   _Sim, que ele descanse em paz. Novamente, afirmo que no lhe prometi recompensa alguma e, novamente, voc ver o interior da masmorra. Mas desta vez, no escapar.
   Setton abriu a boca para chamar os guardas. Bernard lutou contra a excitao que precedia uma batalha. Eustace Marshall pediu:
   _Posso dizer algo?
   _Com que propsito? - Setton indagou, desconfiado.
   _Acho interessante que voc considere necessrio mandar Fitzgibbons para a masmorra outra vez. No vejo que ele tenha feito algo para merecer tal tratamento.
   Bernard reconheceu a ironia do fato de o rival tornar-se um tipo de aliado. No momento aceitaria ajuda de qualquer um.
   Mas Setton no gostou da interferncia.
   _Este homem se ope a seu casamento com minha filha. Isso no  razo suficiente para mant-lo fora do caminho at aps a cerimnia?
   _Depende se a oposio dele  vlida ou no.
   _No ! - Setton esbravejou.
   A leve esperana de Bernard, de que Setton admitisse ter prometido a recompensa, morreu.
   _Se a recompensa no fosse vlida, eu no a teria reivindicado. Na verdade, teria me recusado a ir s Cruzadas.
   _Isso nos leva  parte que me confunde - Marshall confessou. - A recompensa que voc pede, Fitzgibbons,  muito alta. Fico imaginando por que um lorde ofereceria
algo to tentador a um mero campons.
   _Isso tambm me intrigou - Bernard admitiu. - S depois de uma conversa esclarecedora com o bispo Walter, comecei a entender. Veja bem. Como todos pensavam, Setton
estava  morte. Fossem quais fossem os pecados confessados ao bispo Thurstan, ele imps uma penitncia pesada - mandar um homem s Cruzadas. No apenas isso, mas
exigiu uma restituio. Acredito que o pecado de Setton foi contra mim. - Bernard o encarou. - Depois de voltar a Faxton, acredito tambm saber a natureza do pecado.
   Setton empalideceu, mas recuperou-se depressa.
   _Fitzgibbons perdeu completamente o juzo. S fala sandices.
   _Veremos. J pedi  autoridade judicial para investigar minhas suspeitas.
   _Ele no encontrar nada.
   Bernard temia que Setton estivesse certo. Mas se algum podia provar a responsabilidade de Setton na morte de Granville e Alice Fitzgibbons, era Simon Blackstone.
   _Do que voc suspeita? - indagou Marshall.
   Bernard gostaria de responder bem alto para que todos o ouvissem, mas no ousaria.
   _No posso acusar Setton de um crime do qual no tenho provas. A questo est nas mos da autoridade judicial.
   Marshall aceitou sua posio e at aprovou-a.
   _S vejo um ponto fraco em seu argumento, Fitzgibbons. Se terras e casamento com Claire eram uma reparao do pecado, por que mand-lo s Cruzadas?
   _Setton tinha certeza de que eu no voltaria para receber a recompensa. Quase acertou. No outono passado, soube que a companhia inteira dos Cavaleiros da Rosa
Negra havia perecido. Livre da obrigao para comigo, comeou a procurar um marido para Claire. Encontrou voc.
   Setton sacudiu a cabea com veemncia.
   _Eu me recuso a ouvir tais acusaes! Fitzgibbons, saia...
   _Se no quer ouvi-lo, v para outro lugar porque eu quero _Marshall o interrompeu.
   Bernard tinha certeza absoluta de que ningum jamais convidara Setton a deixar o prprio salo. Tal ousadia era sinal do senso de justia de Marshall.
   Claire apertou-lhe a mo enquanto esperavam que Setton respondesse. Mas ele, chocado, permaneceu pregado no cho.
   _Continue, Fitzgibbons - Marshall pediu.
   _Bem, Setton acertou a barganha com voc enquanto pensava que eu estivesse morto. Porm, Claire me contou que ele recebeu minha mensagem, avisando-o do contrrio,
vrios dias antes de vocs concordarem com os termos finais do contrato. Com a morte do bispo Thurstan, sumia a nica testemunha que poderia for-lo a cumprir a
obrigao para comigo. Ento, ele preferiu acertar o casamento de Claire com um nobre de alta estirpe e no com um mero cavaleiro.
   Setton levantou as mos no ar.
   _Chega! J que todos insistem em favorecer Fitzgibbons com a tal recompensa, eu lhe darei uma. Sir Bernard, eu lhe ofereo o solar de Faxton. Em troca, dever
me pagar o salrio de um cavaleiro e trinta barris de enguias por ano. Agora, suma de minha frente.
   Fez-se um silncio to profundo que Bernard podia ouvir a prpria respirao.
   Faxton. Seu lar. Se Setton houvesse feito tal oferta no dia de sua chegada, ele a teria aceitado e ido embora correndo.
   Bernard fitou os olhos cor de mbar de Claire. Nesse dia, a oferta de Setton, se no inclusse Claire, no seria suficiente.
   _Uma oferta generosa, mas devo recus-la. Primeiro, reivindico a mo de Claire. Sua promessa para mim tem precedncia  barganha com Marshall.
   _No lhe prometi nada!
   _Ento, eu o desafio a lutar a fim de acertarmos a disputa de maneira honrada. Naturalmente, poder indicar o nome de outra pessoa para seu lugar.
   Setton o observou por algum tempo.
   _Quando perder, voc ir embora de Dasset e no me perturbar mais?
   _Respeitarei o resultado final. O senhor tambm?
   Setton virou-se para Marshall.
   _Como voc est determinado a tratar este patife a sua maneira e no da minha, acho certo que o enfrente na lia.
   Marshall curvou os lbios com um sorriso de desdm.
   _Estou tentado a lhe dizer que lute voc mesmo, mas no o farei. Fitzgibbons merece a oportunidade de provar a honra e a honestidade. Unicamente por essa razo,
aceito.


   CAPTULO 19

   Bernard escovava Cabal. Preferia a tranqilidade do estbulo  movimentao do torneio. Garth tinha lhe enfaixado o ferimento e ido observar os outros escudeiros
manejar as lanas.
   Tudo estava pronto. Durante a noite, os dois tinham se revezado para vigiar Cabal e as lanas. Bernard achava mais seguro ficarem atentos.
   De manhzinha, sara pelo portal a fim de ir ver o campo designado para o torneio. Em cada extremidade dele, havia tendas onde os cavaleiros poderiam descansar
ou receber cuidados em caso de ferimentos. O cho era plano e tinha sido limpo de qualquer coisa que pudesse levar o cavalo a tropear. Mas quando chegasse sua
vez, j estaria bem revolvido pelas patas dos animais. Mesmo assim, aprovara as condies.
   O        som de passos alertou Bernard de que algum entrava no estbulo. Eustace Marshall.
   _Belo cavalo - elogiou ele depois de um cumprimento com a cabea.
   Bernard continuou escovando. Imaginava que cargas d'gua seu rival pela mo de Claire fazia ali, O garanho dele j havia sido escovado e levado para fora, por
dois escudeiros, a fim de fazer exerccios.
   _Veio observar seu competidor, Marshall?
   _Em parte, mas tenho outras razes para vir procur-lo. Depois de dizer a Setton, ontem  noite, que sua prova deveria ser justa, imaginei se no tinha me excedido.
Calculava que voc possua habilidades semelhantes s minhas e no s de Setton. Peo desculpas se o julguei de maneira equivocada.
   Bernard pensou se no havia sido insultado. Porm, se o que Hugh e o bispo tinham lhe dito sobre ele fosse correto, ento o homem estava realmente preocupado.
   _Por mais que eu desejasse derrubar Setton da montaria e mand-lo para o alm, voc acertou. Desde que me propus a desafi-lo, tive certeza de que ele o escolheria
para competir em seu lugar. Mas por razes diferentes das que deu ontem  noite.
   _Ah, muito bem, fico satisfeito. H mais duas coisas que desejo lhe dizer. Temos um amigo comum, Ranulf, o conde de Chester. Ele ficou muito contente ao saber
que uns poucos Cavaleiros da Rosa Negra haviam sobrevivido. Especialmente um homem a quem ele tinha sagrado cavaleiro e que preferia empunhar a cimitarra em vez
da espada. Seria voc?
   O        conde no era exatamente um amigo. Ranulf tinha sido um dos comandantes superiores nas Cruzadas e, como Marshall, pertencia ao crculo da alta nobreza.
Alis, alta demais para Bernard atrever-se a cham-lo de amigo. Mas de fato, ele havia lhe tocado os ombros com a espada ao sagr-lo cavaleiro.
   _Sou eu, sim - Bernard respondeu.
   _Voc conta com um grande defensor na pessoa do conde, Fitzgibbons. Se os eventos aqui no correrem a seu favor, v procur-lo. Ranulf gostar muito de t-lo
a seu servio.
   Se Marshall achava que venceria nesse dia, estava muito enganado, refletiu Bernard.
   _Bem, temos um outro amigo comum. Passei os ltimos dias em Halewell. Hugh foi muito amvel ao me emprestar umas lanas e um escudo. E tambm ao orientar meus
exerccios. Ele mencionou seu nome.
   Marshall olhou para as lanas encostadas num canto da baia, com as pontas para cima, antes de responder.
   _Um bom homem, Hugh. J nos encontramos vrias vezes nas lias.
   _Ele me contou.
   _Percebo que minha preocupao com suas habilidades foi desnecessria.
   _Mas apreciada - Bernard disse ao guardar a escova na sacola. - Existe algo mais que queira saber?
   _No, mas eu gostaria de tranqiliz-lo em relao a Claire. Ficou claro que ela o prefere. Quero lhe garantir que no vou usar um capricho de seu corao contra
ela. Claire ter a satisfao dos mnimos desejos e jamais sofrer outra agresso, seja por parte do pai ou da minha. Voc no precisa se preocupar com sua segurana
ou bem-estar.
   Bernard podia sentir qualquer coisa, menos tranqilidade. De maneira sutil, Marshall o tinha avisado para ficar longe de Claire.
   Capricho de seu corao. Satisfao dos mnimos desejos.
   No confiando na voz, ele apenas fez um gesto afirmativo com a cabea.
   _At mais tarde, ento - Marshall disse e foi embora.
   Bernard viu-se imerso em dvidas. Tinha certeza de que Claire o amava. Por esse amor, ele faria qualquer coisa. Desafiar-lhe o pai. Enristar lanas e competir
em sagacidade com Marshall.
   Deix-la ir.
   Se perdesse, no teria escolha. Havia concordado em respeitar o resultado da luta. Seria forado a larg-la com Marshall para nunca mais a ver, abraar, beijar,
amar.
   _Quase na hora, Bernard. Pronto?
   A interrupo das conjeturas por Garth o fez cair em si. Ele estivera pensando nas conseqncias da derrota. No permitiria que ela ocorresse.
   Estava pronto em tudo, exceto mentalmente. Lembrou-se do torneio no Egito quando deixara a raiva interferir em sua habilidade. Devia bater com a cabea na grade
da baia por haver se deixado influenciar pelas palavras de Marshall.
   Bernard respirou fundo e afastou as dvidas. No podia se dar ao luxo de se distrair. Apenas uma coisa merecia-lhe a concentrao: derrubar Eustace Marshall da
montaria.

   Claire sentava-se no palanque, ao lado do bispo Walter, mas no sabia quem vencia ou perdia. S se importava com um cavaleiro e uma competio.
   Ele abrira mo de Faxton.
   Numa poca passada, Bernard teria aceitado a posse do solar e ficado feliz. Na vspera  noite, ao ouvir o pai fazer-lhe a oferta, havia desejado que ele aceitasse
e, ao mesmo tempo, rezado para que recusasse.
   Ento, ele a tinha fitado. Havia um leve trao de anseio na expresso dele, mas desaparecera depressa. O amor de Bernard por ela revelara-se no olhar, no leve
aperto de mo, na deciso de exigir uma competio de armas.
   Seu futuro dependia de uma luta entre Eustace Marshall e Bernard Fitzgibbons. No havia nada que pudesse fazer para ajudar Bernard, exceto confiar nele.
   Apesar do calor de meados de agosto, Claire usava uma capa e, sob ela, um vestido que as criadas tinham bordado febrilmente para esse dia. Seria uma surpresa
para Bernard. No bolso da capa, estava o vu vermelho que ele lhe dera. Logo o devolveria, caso controlasse o tremor das mos.
   Um cavaleiro derrubou o oponente e os aplausos ressoaram no ar.
   _ timo espetculo! - exclamou o bispo Walter.
   Claire sorriu. Ele estava se divertindo bastante. Havia se sentado entre ela e o pai e, ento, relaxado a fim de apreciar o torneio. Os convidados tambm se entusiasmavam
e moedas trocavam de mos enquanto cavaleiros ganhavam ou perdiam. Naturalmente, guardavam algumas para as apostas da ltima luta, a mais importante do dia.
   Um murmrio espalhou-se pelos espectadores. De uma das extremidades do campo, com as lanas de Bernard sob o brao, vinha Garth conduzindo Cabal para a frente
da tenda. O corcel curveteava e virava a cabea, antecipando a batalha. Bernard vinha logo atrs. Com uma das mos enluvadas, carregava um escudo e, com a outra,
um elmo prateado.
   Claire sentiu um arrepio de excitao ao admirar-lhe o porte imponente. Ereto, os ombros largos bem para trs, os longos cabelos negros esvoaando com a brisa,
ele caminhava numa atitude de confiana e determinao.
   O manto querido cobria a cota de malha. A bainha da cimitarra pendia do lado esquerdo. O cabo da arma extica brilhava,  espera da mo do mestre, se houvesse
necessidade.
   Bernard ps o escudo e o elmo no cho a fim de alisar o pescoo de Cabal e acalm-lo. Garth arrumou as lanas.
   Um cavaleiro preparado para a batalha1 Um homem determinado a provar seus direitos. Seu amante decidido a reivindic-la diante de Deus e dos homens.
   Claire olhou rapidamente para a outra extremidade do campo onde Marshall preparava-se de maneira semelhante.
   Estremeceu quando o bispo deu-lhe um tapinha na mo.
   _ Quase na hora - ele disse.
   Antes que Bernard se aproximasse do palanque, Claire concentrou-se em dominar o nervosismo. Ele no podia notar-lhe o medo.
   Montados em seus garanhes, com as lanas rombudas apontadas para o cu, os dois cavaleiros dirigiram-se ao palanque para o ritual curto que precedia a luta.
   Pararam e, como era apropriado, curvaram a cabea para Odo Setton, o anfitrio do torneio. Ele apenas os fitou com ar carrancudo. O bispo Walter levantou-se e
os abenoou como fizera aos outros cavaleiros. Pediu a proteo divina para ambos e um final honrado.
   Duas lanas inclinaram-se para a frente a fim de tocar a grade do palanque.
   As mos de Claire no tremiam mais. Segurou o vu precioso, abriu o fecho da capa e deixou-a escorregar dos ombros. Ouviu exclamaes das pessoas em volta e a
blasfmia proferida pelo pai. Ignorou-as, preferindo deliciar-se com a reao de Bernard.
   Ele mal podia acreditar no que Claire fizera. Em p, diante dele, exibia um vestido cinzento, ligeiramente puido e tpico de uma criada. Ao longo das bainhas,
da saia e das mangas, havia minsculas cruzes vermelhas, intercaladas por rosas pretas.
   Suas cores. Seus emblemas. Sua mulher.
   Claire deu dois passos  frente e amarrou um tecido vaporoso e vermelho na ponta de sua lana. Ele Levou um instante para perceber que era o vu, trazido do Egito
para ela, e que lhe dera em Faxton.
   _ Cuidado com isto, Bernard - ela recomendou baixinho. _Quero us-lo esta noite.
   A viso de sua lindssima Claire, envolta apenas pelo vu transparente, acelerou-lhe o corao. Este no era o momento para dizer o quanto a amava, ou para comentar
o pouco tempo que gastaria para livr-la do vu e a possuir. Ele o faria mais tarde, quando Claire fosse finalmente sua para sempre.
   Bernard fez Cabal recuar um pouco e, com uma leve presso dos joelhos, ordenou que se curvasse. Ouviu os aplausos, mas focalizou a ateno no sorriso surpreso
e satisfeito de Claire.
   Depois de Cabal se endireitar, Bernard cumprimentou Marshall com um gesto rpido de cabea e galopou at onde Garth o aguardava com as lanas. Inclinou a que
segurava para que ele desamarrasse o vu. Enfiou-o sob o manto e o prendeu no cinto. Era como se o amor e a confiana de Claire cavalgassem com ele. No a desapontaria.
   Garth entregou-lhe o elmo. Bernard enterrou-o bem na cabea, bloqueando tudo exceto o que podia ver pelas fendas estreitas sobre os olhos. Com o escudo na mo
esquerda, a lana firmemente segura com a direita e prensada ao lado do corpo, Bernard estudou o oponente.
   Marshall sentava-se a postos, o escudo cobrindo parcialmente o emblema no manto, um co. Bernard observou tudo e escolheu o alvo, a cabea do co no peito do
adversrio. Acertou o ngulo da lana, sentindo um repuxo no ferimento - um aviso de sua desvantagem.
   Trs embates, no mais.
   No limite de sua viso, viu um homem afastar-se uns passos do palanque e acenar com uma bandeira amarela. Os msculos de Cabal contraram-se. Com os joelhos,
Bernard instigou-o ao ataque.
   A ponta da lana erguida. O co. Mais perto. Mais ainda. Joelhos apertados. Escudo firme. Bernard preparou-se para o impacto.
   A lana de Marshall escorregou no escudo ligeiramente inclinado de Bernard. Este atingiu o dele com fora.
   A lana despedaou-se com o golpe, desequilibrando Bernard. Nada bom, ele raciocinou ao tentar recobrar o controle do cavalo e do corpo.
   Claire abafou um grito. Com ele, poderia distrair Bernard que sentava-se precariamente meio de lado na sela. Ele conseguiu endireitar-se, mas devagar demais em
sua opinio.
   _ Marshall o derrubar no prximo embate - o pai afirmou.
   _ No considere Fitzgibbons derrotado ainda - disse o bispo Walter.
   Claire esperava que ele entendesse de lutas. Bernard podia ainda desembainhar a cimitarra, s quisesse, aumentando o perigo da competio. Ele no o fez. Resolveu
enfrentar Marshall apenas com o escudo, sem lana. Ela fechou os olhos. Ouviu o estalar da lana de madeira contra o escudo de metal.
   _ Eu no disse? - o bispo Walter vangloriou-se.
   _ Marshall abusa do cavalheirismo. Ele mal tocou o escudo do patife - Setton reclamou.
   _ Tolice.
   Claire censurou-se pela covardia e abriu os olhos. Respirou aliviada. Bernard j alcanara Garth que lhe entregava uma lana como se tivesse feito isso a vida
inteira. Bernard virou-se e galopou ao encontro de Marshall que se preparava para atac-lo.
   Os espectadores, aos gritos e em p, sabiam que esse poderia ser o embate decisivo. Cabal ganhou velocidade. Bernard firmou a lana. Claire enterrou as unhas
nas palmas das mos.
   Atacaram-se com tal fora que as lanas voaram longe e as montarias empinaram, levantando uma nuvem de poeira. Os dois homens, tortos na sela, lutavam para recobrar
o equilbrio.
   Um deles cairia. Talvez os dois.
   Bernard sentiu-se escorregando. A mo que, antes, segurava a lana, agarrou-se  crina de Cabal. Derrubou o escudo. As costas estavam em fogo por causa da posio
incmoda. As pessoas gritavam, antecipando-lhe a queda.
   No poderia cair. Se isso acontecesse, significaria a derrota, a perda de Claire. Tinha de se endireitar na sela e enfrentar Marshall mais uma vez. Mas apenas
conseguia segurar-se em Cabal.
   Pelo canto de seu restrito campo de viso, viu dois escudeiros de Marshall passar correndo ao lado. Isso significava que Eustace Marshall estava no cho, sem
poder se mexer.
   Com um alivio que no teve tempo ou palavras para exprimir, Bernard tirou o p do estribo e desmontou.
   Tinha vencido e o prmio conquistado descia do palanque.
   Sorridente, tirou o elmo, mas em seguida, ficou gelado de medo. Claire corria-lhe ao encontro, sorrindo, chorando e sem perceber que Setton a seguia com a espada
desembainhada.
   Deus misericordioso, ele preferia matar a filha a entreg-la?
   Bernard deu uns passos vagarosos, com os braos estendidos a fim de anim-la a se apressar. No se atrevia a empunhar a cimitarra ou correr a seu encontro. Qualquer
das das atitudes poderia faz-la parar. Graas aos cus por suas pernas jovens e sua ansiedade para alcan-lo.
   Ela queria abra-lo, mas Bernard deu um passo para o lado, agarrou-lhe o brao e a empurrou para atrs dele. No instante seguinte, sacava a cimitarra. Setton
no parou como ele esperava, mas continuou em frente com a espada enristada, pronto para atacar.
   S ento, ele percebeu a quem o velho homem queria matar. No Claire, mas Bernard Fitzgibbons.
   Ergueu a cimitarra para desviar o golpe de Setton. Ao bateu em ao com um estalo que sinalizava um final decisivo. Bernard o ouviu aliviado. Finalmente, ele
e Setton iam acertar as diferenas.
   Enfrentou o antigo senhor feudal com a certeza de vencer, a cimitarra brilhando a cada investida. Odo Setton podia ser velho, mas ainda tinha energia para brandir
a espada, embora no o suficiente.
   _ Pronto para morrer, Setton? - Bernard provocou. - Insista que poder ser hoje.
   _ Duvido - o outro esbravejou e desceu a espada.
   Bernard abaixou-se e jogou o ombro contra o peito dele que recuou, mas continuou em p.
   _ Por que, Setton? Marshall j perdeu, Claire  minha. Por que se expor?
   _ Voc tem sido um espinho em minha carne por tempo demais. Hoje, vou extirp-lo.
   Setton atacou com fria renovada. Bernard enfrentou a raiva exaltada com calma fria, anulando golpe atrs de golpe. Sabia que chegaria o momento em que Setton
falharia. Ento, tiraria vantagem.
   Bernard percebeu o instante preciso em que ele deu-se conta de estar prestes a ser cortado em dois pela cimitarra. Parecia mesquinhez apreciar o desconsolo de
Setton, mas havia esperado muito para que o desgraado demonstrasse algo que no fosse desdm. Sentiu-se tentado a brincar um pouco mais com a vtima. Porm, o ferimento
advertiu-o para parar e ele obedeceu.
   Bernard obrigou Setton a recuar at o palanque de onde o bispo Walter acompanhava a cena. Com dois golpes rpidos e um movimento circular da cimitarra, desarmou
Setton. No instante seguinte, encostou-a no pescoo dele.
   _ Cuidado. Duvido que algum aqui me culpe se eu separar sua cabea do corpo.
   _ Voc no se atrever - ele declarou, mas Bernard notou o pnico na voz.
   _ Acredite, Setton, no sinto o menor escrpulo em derramar seu sangue.
   Setton no respondeu.
   _ Muito bem. Vamos tratar da questo de minha recompensa. Ns dois sabemos perfeitamente que voc me fez uma promessa. E eu acabo de provar a todos aqui presentes,
sem a menor sombra de dvida, que voc no tem palavra. Que Claire me pertence no est mais sendo questionado.
   _ Pegue a menina e suma.
   _ Ora, eu certamente o farei. No duvide. Mas o que me intriga  o fato de voc ter me oferecido uma recompensa to alta. - Bernard prensou um pouco a cimitarra
na garganta de Setton para lembr-lo do perigo que corria. - Que pecado voc cometeu para receber penitncia to grande? Mandou matar meus pais? A verdade, Setton,
ou seu sangue escorrer sem piedade.
   Por um momento, Bernard pensou que ele no respondesse. Porm, Setton disse:
   _ Seus pais no deveriam ter morrido e sim voc.
   Claro! Como no adivinhara? Nem Wat havia suspeitado de Setton ter mandado quatro homens para pegar um simples menino.
   Com o filho morto, Granville Fitzgibbons no teria mais motivo para se rebelar contra o fato de ele no poder herdar Faxton.
   A me tinha percebido. Quando o mercenrio o agarrara, ela havia gritado seu nome. No era um pedido de socorro, mas um alerta a seu pai. Uma vez salvo, ele tinha
lhe dito para correr em busca de auxlio. Ento, os pais haviam lutado para que pudesse fugir.
   Deus do cu, eles tinham dado a vida para poupar a sua.
   J prestes a executar vingana, Bernard lembrou-se de que Setton era pai de Claire. No importava a crueldade com que o velho homem o havia tratado, ou  prpria
filha, ela no merecia presenciar a morte horrvel do pai.
   _ Fique sabendo Setton, que voc deve sua vida miservel a Claire. Unicamente pelo bem dela, no lhe corto o pescoo.
   Bernard recuou um passo. Olhou para o bispo Walter, debruado na grade do palanque, ciente de que ele tinha ouvido as palavras de Setton.
   _ Bispo Walter, o senhor providenciar para que este miservel receba uma penitncia adequada pela confisso feita?
   O bispo encarou Setton.
   _ Penitncia, no, mas uma penalidade pesada. Vrias das terras arrendadas por Dasset, do bispado de Durleigh, no esto sendo usadas. Uma delas  Faxton cujo
solar no tem um lorde h muito anos. - Virou-se para Bernard. - Sir Bernard Fitzgibbons, se me der a honra de jurar fidelidade, o solar  seu.
   Abatido, Setton praguejou baixinho. Temendo irritar mais o bispo, no se atrevia a protestar. Ele poderia lhe tomar mais terras. Atnito, Bernard abriu a boca,
mas no conseguiu emitir um nico som.
   _ Bernard aceita - Claire afirmou ao pegar-lhe a mo e apert-la. - Amor, me leve para casa.
   Casa. Faxton. Claire. Um sonho que se tornava realidade.
   Num instante, sentou Claire na sela de Cabal.
   _ Fitzgibbons!
   _ Reverendssima?
   _ E o casamento?
   Ele montou atrs de Claire.
   _ Voc se importa se no ficarmos para festa, amor? - murmurou-lhe ao ouvido.
   Ela riu e aconchegou-se entre os braos a que, finalmente, pertencia.
   _ No, mas acho que devemos fazer a vontade do bispo. Afinal, agora ele  nosso senhor feudal.
   _ Ento, seja rpido - Bernard disse ao bispo ao aproximar Cabal do palanque.
   _ Rpido? Pois bem. Lady Claire Setton, deseja unir-se para sempre a este cavaleiro teimoso?
   _ Para sempre, o senhor disse?
   O bispo suspirou.
   _ Sim, minha lady, esta  a lei.
   Ela afagou a mo em sua cintura.
   _ Ah! Para sempre, ento.
   _ Sir Bernard Fitzgibbons, lorde de Faxton, o senhor enfrentou muitas atribulaes para conquistar esta lady. Ainda a quer?
   _ Por quanto tempo ela me aceitar. Terminou?
   O bispo Walter fez o sinal da cruz no ar.
   _ Vo com minha bno, mas apaream em meu palcio, depois de amanh, a fim de legalizar a situao.
   _ E receber as moedas por So Babylas?
   _ Tambm para isso.
   Bernard virou Cabal e, num trote, circulou o campo. Garth havia juntado seus pertences e os acomodava na mula. Marshall, j recuperado da queda, estava em p.
   _ H algo no castelo que voc queira levar? - ele perguntou a Claire.
   _ No vou para voc de mos vazias. Tenho vrias arcas repletas de roupas para mim e para a casa, cermicas e utenslios. Mas nada que v me fazer falta por uns
dias. Tudo de que preciso, tenho aqui - ela afirmou ao acariciar-lhe a mo outra vez.
   Teriam de voltar a Dasset com uma carroa e discutir com Setton por causa de cada pea de roupa e de outros itens que pertenciam a Claire. Bernard no gostaria
de lidar com Setton outra vez, porm, ela merecia-lhe o esforo. Ento, viriam.
   No momento, entretanto, ansiava lev-la para casa, descansar e ficar bom.
   _ Segure-se bem! - ele disse ao fazer Cabal empinar as patas dianteiras no ar.
   No manteve o espetculo por muito tempo, pois as costas doam, mas surtiu o efeito desejado. Dessa vez, saa de Dasset sob aclamaes para um vencedor, no apupos
a um derrotado.
   Claire riu ao ajeitar-se de novo na sela.
   _ Isto  muito melhor, Bernard. Sem a ameaa do portal se fechando ou de setas a suas costas. Vou me acostumar logo.
   _ Que insipidez!
   Ela calou-se por um instante. Depois, disse:
   _ Mal posso acreditar que tudo acabou e ns vencemos. Estava com tanto medo.
   Sua voz trmula fez Bernard puxar as rdeas.
   _ Venha c, mulher.
   Claire virou-se na sela e ergueu o rosto para receber um beijo. Como sempre seu sabor e sua paixo o incendiaram. Ela o beijava com desespero, como se temesse
no ter outra oportunidade. O desejo inflamado quase o dominou. Ia ser uma cavalgada longa e penosa para casa.
   Afastou a boca e a estreitou entre os braos.
   _ No terminou, Claire, apenas comeou. Voc prometeu ficar comigo para sempre e eu pretendo faz-la manter a palavra.
   _ No vou ter jeito de escapar?
   _ Nenhum.
   _ Ento, vamos para casa. Tenho planos para voc e um certo vu vermelho.


   EPLOGO

   Sentados a uma das mesas da Royal Oak Tavern, Bernard, Simon Blackstone e Nicholas Hendry tomavam cerveja enquanto as mulheres visitavam as lojas de Durleigh.
   Bernard tinha dado uma bolsinha cheia de moedas a Clare e lhe ordenado que comprasse algo bonito para si mesma. Linnet Blackstone e Beatrice Hendry tinham se
oferecido para convenc-la a seguir a ordem.
   Em silncio, Bernard agradeceu a So Babylas pelo uso do osso de seu brao. O bispo Walter havia comprado a relquia por mais moedas que ele jamais esperara ver.
Isso lhe permitia dar, a Claire, parte de seu velho sonho. A fortaleza que estava sendo construda em Faxton seria ricamente decorada com mveis de carvalho escuro,
tapearias coloridas e o que mais a mulher desejasse.
   Bernard esperava que a excurso s lojas constitusse um prazer para Claire. Ela merecia uma tarde despreocupada por causa das atribulaes enfrentadas nos ltimos
dias.
   A persistncia de Simon em procurar evidncias contra Odo Setton tinha produzido resultados espantosos. No s ele havia encontrado um dos mercenrios envolvidos
no ataque a Faxton como tambm descoberto outras pessoas que tinham sofrido muito com a ganncia de Setton. Como muitas das acusaes haviam ido parar nas mos do
magistrado real, o bispo estabelecera um tribunal conjunto, na catedral, a fim de resolver as questes rapidamente.
   No fim, os dois juizes tinham desanimado e desistido da aplicao das vrias penalidades e muitas. Simplesmente, destituram Setton do ttulo de lorde de Dasset,
passando-o para o filho Julius que ainda no retornara  Inglaterra. Odo encontrava-se encarcerado na priso do bispo,  espera da volta e da caridade do filho.
   A maior surpresa viera da me de Claire. Lady Leone tinha encontrado coragem para desfazer o casamento que nunca desejara. Depois, participara que passaria o
resto de seus dias num convento, uma vocao antiga que nunca lhe permitiram atender.
   Nessa noite, Claire pretendia escrever aos irmos, informando-os dos ltimos acontecimentos. Seria uma tarefa penosa e difcil, por isso, Bernard esperava que
ela se distrasse bastante agora  tarde. A companhia das amigas tambm a estimularia.
   Simon empurrou a caneca de cerveja para o lado.
   _Se elas no voltarem logo, sou capaz de mandar algum procur-las.
   _Preocupado com Linnet? - Nicky perguntou ao ajeitar melhor a criana que dormia em seu colo.
   Owen, o filho de Nicholas, um menino de quatro anos, tinha se desenvolvido e mudado bastante desde que Bernard o vira dois meses atrs. Ele no fazia idia de
que crianas crescessem to depressa at observar o fato em Maudie e Owen.
   _Linnet, s vezes, trabalha demais. Em seu estado, no deveria se exceder. Mas no adianta aconselh-la.
   Bernard sorriu. Esperava que Claire logo tambm estivesse grvida.
   _Beatrice e Claire cuidaro de Linnet. Se ela se cansar, a faro sentar-se um pouco ou a traro para c - disse Nicky.
   _ Voc sempre se preocupa demais com tudo, Simon. Relaxe um pouco.
   _ Ha! Espere s. Sua vez vai chegar. Ento, poder me dizer para no me preocupar. Se conseguir.
   Nicky afagou os cabelos do filho.
   _ No agento esperar. Perdi tanta coisa com Owen.
   O menino era filho de Nicky mas no de Beatrice. Pelo jeito, ele pretendia retificar a situao logo.
   Bernard inclinou-se para a frente.
   _Simon, como  possvel saber? Como voc descobriu sobre Linnet?
   Ele suspirou.
   _Foi horrvel. Ela chorava. De alegria, de tristeza, no importava. Um dia, entrei na botica e a surpreendi soluando tanto que quase me desesperei. Quando ela
conseguiu se acalmar, contou que descobrira o que havia com ela. Eu me preparei para o pior, certo de que ela estava sofrendo de uma doena fatal. - A expresso
e a voz de Simon suavizaram-se. - Ela sorriu e me disse que amos ter um filho.
   _Chorava, ? Claire no tem feito isso.
   _Voc acha que ela... j?
   Claire e ele tinham feito amor, pela primeira vez, no incio de agosto e j estavam em meados de setembro.
   _Claire no fica menstruada desde que estamos juntos. Pelo menos, que eu tenha notado.
   Simon arqueou as sobrancelhas.
   _Trabalho rpido.
   _No, freqente. Sabe, eu lhe trouxe um daqueles vus usados nos harns e...
   _Mudem de assunto - disse Nicky. - Owen j est esperto demais e no precisa de nenhum incentivo para despertar-lhe a curiosidade.
   Ainda no completamente acordado, o menino bocejou. Tinham de tomar cuidado com seus ouvidos inocentes. Bernard ansiava para tambm acalentar uma criana.
   _Maudie est crescendo depressa. Era to pequenina quando a tiramos da priso com Hugh - ele comentou.
   _Quando voc vai a Halewell? - Nicholas perguntou.
   Ele ainda no tinha devolvido a cota de malha e os outros equipamentos de Hugh. Sabendo que Claire precisava esquecer um pouco os problemas da famlia, iam passar
uns dias fora.
   _Amanh ou depois de amanh. Eu gostaria de levar melhores notcias sobre Guy e Gervase.
   _Eu esperava que Isabella e Guy j tivessem encontrado sir Edmund. Mas acho que no, pois no voltaram de Londres - Simon comentou.
   _Gervase dever ter resolvido logo o problema da irm. Talvez recebamos mais notcias dele antes que deixe a Inglaterra para se tornar Cavaleiro da Ordem de
So Joo de Jerusalm - disse Nicky.
   _Ah, at que enfim! - Simon exclamou, olhando para a porta. Bernard virou-se a fim de v-las. Lindas, fortes, adorveis, as mulheres foram conversar com a sra.
Selwyn. Sorridente, Claire carregava vrios embrulhos. Bernard suspeitava que no eram todos seus. Devia ter comprado tambm algo para ele, Lillan e talvez Garth.
   Nicholas ps Owen no cho que foi correndo ao encontro de Beatrice, perguntando-lhe o que lhe trouxera.
   _Bernard, quanto tivermos outra oportunidade a ss, voc vai nos falar mais sobre o vu do harm - disse Nicky.
   Bernard riu e levantou a caneca de cerveja.
   _No sei como conseguimos, mas ns trs temos mais do que merecemos. As nossas rosas, cavaleiros! Que elas floresam sempre.
   _s nossas rosas!

   FIM
   Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!
